épico

19/09/2014

Uma cobra largou a pele
e em carne viva se arrastou
por botequins e becos
até se embriagar.

Julgam-na morta
sob a hera

mas logo acordará
da grande noite
do sono hibernante

vestindo a primavera.

Helena Figueiredo

coação

15/09/2014

Comemos a vida de outros para viver.
A falecida costeleta com o finado repolho.
O cardápio é um necrológio.
Mesmo as melhores pessoas
precisam morder, digerir algo morto,
para que seus corações sensíveis
não parem de bater.
Mesmo os poetas mais líricos.
Mesmo os ascetas mais severos
mastigam e engolem algo
que, afinal, ia crescendo.
Custa-me conciliar isso com os bons deuses.
Talvez crédulos,
talvez ingênuos,
deram à natureza todo o poder sobre o mundo.
E é ela, louca, que nos impõe a fome,
e ali onde há fome
finda a inocência.
À fome se juntam logo os sentidos:
o paladar, o olfato, o tato e a visão,
pois não é indiferente quais iguarias
e em quais pratos.
Até a audição participa
no que sucede, pois à mesa
não raro há conversas alegres.

Wislawa Szymborska

primeira impressão

12/09/2014

O poema novo é dos insurgentes.
Surde, subterrâneo
e somente eles o escutam.
Não parece poema, parece
que todos podem escrevê-lo
mas não o escrevem
nem o escreverão nunca.

Não tem cabeça e pé
princípio ou fim definidos
mas não são sem pé nem cabeça.
Tem peito, plexo solar, e dois
dedos de prosa quebrados.
Só vai ser poesia, depois.
Quando muitos o terão lido
relido e estabelecido.

Armando Freitas Filho

cinco andares acima

08/09/2014

Escuro ainda.
O pássaro desconhecido está em seu galho sempre.
O cachorrinho do vizinho late dormindo
em tom de pergunta, uma vez só.
Talvez dormindo, também, o pássaro indaga
uma ou duas vezes, com um vibrato.
Perguntas – se é isso o que são –
respondidas de modo simples, direto,
pelo próprio dia.

Manhã enorme, ponderosa, meticulosa;
luz gris riscando cada galho nu,
cada ramo fino, ao longo de um lado,
criando uma árvore outra, de veios vítreos…
O pássaro continua lá. Agora parece que boceja.

O cachorrinho preto corre em seu quintal.
A voz do dono se eleva, severa:
“Você não tem vergonha?”
O que foi que ele fez?
Ele saltita alegre para cima e para baixo;
corre em círculos sobre as folhas caídas.

Claro está que ele não tem vergonha alguma.
Ele e o pássaro sabem que tudo foi respondido,
tudo resolvido,
não é preciso perguntar de novo.
- Ontem se fez hoje com tal leveza!
(Um ontem para mim quase impossível de levantar.)

Elizabeth Bishop

como no céu

05/09/2014

Viemos de uma genealogia
que nunca dará adeus,
em nenhuma situação,
ainda que da morte
ou da feroz despedida.

Não nos daremos adeus,
ainda que o fundo do tempo
martele nos joelhos
como um médico de família,
ainda que o barco vacile
e a terra se abra sem cumprimentos.

Não nos daremos adeus
por uma questão de caráter.

Fabrício Carpinejar

meio a meio

01/09/2014

do que se reparte
amor
prazer
arte
é o que persiste

do que se divide
só o meio a meio
resta inteiro

o resto
não resiste

Alice Ruiz

tu eras também uma pequena folha

28/08/2014

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda

jogos florais

25/08/2014

I

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

II

Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.

Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com 2 esses
que se escreve paçarinho?)

Cacaso

no entardecer da terra

22/08/2014

No entardecer da terra
O sopro do longo Outono
Amareleceu o chão.
Um vago vento erra,
Como um sonho mau num sono,
Na lívida solidão.

Soergue as folhas, e pousa
As folhas, e volve, e revolve,
E esvai-se inda outra vez.
Mas a folha não repousa,
E o vento lívido volve
E expira na lividez.

Eu já não sou quem era;
O que eu sonhei, morri-o;
E até do que hoje sou
Amanhã direi, quem dera
volver a sê-lo! … Mais frio
O vento vago voltou.

Fernando Pessoa

releitura

18/08/2014

Quem relê Drummond é sempre um outro.
Mesmos olhos que ganham, cada vez
lentes melhores, ou é o olhar que vê por outro ângulo.
Poesia de tantos anos, não se dissipa – muda de posição
alcança inesperado matiz na ponta do verso livre:
drummondicionário em perpétua elaboração, se reescreve
até quando a cor ecoa, livro aberto
que inaugura, iluminado de forma diferente
o sentido da página da vida em trânsito
os verbetes que vão da manhã porosa à noite emparedada.
Drummond difere, desfere, divaga, diverso
linha a linha, movendo seu traçado, de acordo
com a transformação que se imprime em nós, impressentida.

Armando Freitas Filho


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