tempo ii

20/10/2014

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porvir

Herculano Villas-Boas

a colina

17/10/2014

Onde estão Elmer, Herman, Bert, Tom e Charley,
O irresoluto, o de braço forte, o palhaço, o ébrio, o guerreiro?
Todos, todos, estão dormindo na colina.

Um morreu de febre,
Um lá se foi queimado numa mina,
O outro assassinaram-no num motim,
O quarto se extinguiu na prisão,
E o derradeiro caiu de uma ponte quando trabalhava para
                                                [a esposa e os filhos.

Todos, todos, estão dormindo, dormindo, dormindo na colina.

Onde estão Ella, Kate, Mag, Lizzie e Edith,
A de bom coração, a de alma simples, a alegre, a orgulhosa,
                                                                     [a feliz?

Todas, todas, estão dormindo na colina.
Ella morreu de parto vergonhoso,
Kate de amor contrariado,
Mag nas mãos de um bruto num bordel,
Lizzie ferida em seu orgulho, à procura do que quis seu
                                                                    [coração,
E Edith, depois de ter vivido nas distantes Londres e Paris,
Foi conduzida a seu pequeno domínio por Ella e Kate e Mag.
Todas, todas estão dormindo, dormindo, dormindo na colina.

Onde estão tio Isaac, e tia Emily,
E o velho Towny Kincaid e Sevigne Houghton,
E o Major Walker que conversava
Com os veneráveis homens da revolução?
Todos, todos estão dormindo na colina.

Trouxeram-lhes filhos mortos na guerra,
E filhas cuja vida tendo sido desfeita,
Os filhos sem pai choravam
Todos, todos, estão dormindo, dormindo, dormindo na colina.

Onde está o velho violinista Jones
Que brincou com a vida durante noventa anos,
Desafiando as geadas a peito descoberto,
Bebendo, fazendo arruaças, sem pensar na esposa, nem na
                                                                     [família,
Nem em dinheiro, nem em amor, nem no céu?
Vede! Fala sobre os cardumes de peixes de antigamente,
Sobre as corridas de cavalo, outrora, em Clary’s Grove,
Sobre o que Abe Lincoln disse
Uma vez em Springfield.

Edgar Lee Masters – 1915

profundamente

13/10/2014

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

*

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
 
Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Manuel Bandeira – 1930
(19/04/1886 – 13/10/1968)

infância

10/10/2014

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se “Agora”.

Guilherme de Almeida

o rio sinuoso

06/10/2014

Todo dia, ao voltar da audiência imperial,
           empenho minha roupa de primavera.
Vou para a margem do rio,
           e só depois de bêbado
           retorno a casa.
Dívidas de vinho,
           deixo penduradas em qualquer cabide.
Nessa vida, chegar ao setenta,
           é muito raro,
           desde os tempos antigos.
As borboletas esvoaçam
           sobre as flores,
e de tempos em tempos
           uma de mim se aproxima.
As libélulas roçam a água
           em seus leves voos.
Breve é o tempo
           de estarmos juntos.
Melhor gozá-lo,
           já que não obedece
aos nossos desejos.

Du Fu

mudança

03/10/2014

ou pra emendar um osso,
ou pra não morrer de repouso,
ou pra vazar até o coração se insaciar,
ou pra tapar o poço
no fundo do corpo,
mudança pra chafurdar
e beber o mar
(o pelo dela rosnava),
ou pra pensar os caroços

mudança pra espremer a medula
e refundir o cascalho
em pedra bruta.

Edson Coelho

mudo convite

29/09/2014

Tenho uma folha branca
          e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma cama branca
          e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma vida branca
          e limpa à minha espera:

Ana Cristina Cesar

brado

26/09/2014

das árvores
sou limo

ao sabor do vento
não gorjeio
nem voo

me silencio
entre folhas

choro
ao machado
que me corta

Luiz Otávio Oliani

a festa do silêncio

22/09/2014

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se de ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa

épico

19/09/2014

Uma cobra largou a pele
e em carne viva se arrastou
por botequins e becos
até se embriagar.

Julgam-na morta
sob a hera

mas logo acordará
da grande noite
do sono hibernante

vestindo a primavera.

Helena Figueiredo


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