no entardecer da terra

22/08/2014

No entardecer da terra
O sopro do longo Outono
Amareleceu o chão.
Um vago vento erra,
Como um sonho mau num sono,
Na lívida solidão.

Soergue as folhas, e pousa
As folhas, e volve, e revolve,
E esvai-se inda outra vez.
Mas a folha não repousa,
E o vento lívido volve
E expira na lividez.

Eu já não sou quem era;
O que eu sonhei, morri-o;
E até do que hoje sou
Amanhã direi, quem dera
volver a sê-lo! … Mais frio
O vento vago voltou.

Fernando Pessoa

releitura

18/08/2014

Quem relê Drummond é sempre um outro.
Mesmos olhos que ganham, cada vez
lentes melhores, ou é o olhar que vê por outro ângulo.
Poesia de tantos anos, não se dissipa – muda de posição
alcança inesperado matiz na ponta do verso livre:
drummondicionário em perpétua elaboração, se reescreve
até quando a cor ecoa, livro aberto
que inaugura, iluminado de forma diferente
o sentido da página da vida em trânsito
os verbetes que vão da manhã porosa à noite emparedada.
Drummond difere, desfere, divaga, diverso
linha a linha, movendo seu traçado, de acordo
com a transformação que se imprime em nós, impressentida.

Armando Freitas Filho

gênese

15/08/2014

Há sempre uma hora,
uma hora densa,
uma hora inesperada,
em que a paisagem mais inocente
tem o fulgor de um fiat.
O tempo sonha que é espaço,
o espaço sonha que é tempo,
a realidade se compenetra de sua irrealidade.
O homem repensa o mundo.
O mundo se recompõe em sua nostalgia de Deus.

Emílio Moura

sob uma estrela pequenina

11/08/2014

Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos.
Me desculpem a gente nas estações pelo sono das cinco da manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostre magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não saber ser cada um e cada uma.
Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgues má, fala, por tomar emprestado palavras patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves.

Wislawa Szymborska

para o livro de Literatura de segundo grau

08/08/2014

Não leias odes, meu filho, lê os horários
(dos trens, dos ônibus, dos aviões):
são mais exatos. Abre os mapas náuticos
antes que seja tarde demais. Sê vigilante, não cantes.
Chegará o dia em que eles, de novo, pregarão listas
no portão e desenharão marcas no peito daqueles que dizem
não. Aprende a ir incógnito, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de passaporte, de rosto.
Entende da pequena traição,
da salvação suja de todos os dias. Úteis
são as encíclicas para se fazer fogo,
e os manifestos: para a manteiga e sal
dos indefesos. É preciso raiva e paciência
para se soprar nos pulmões do poder
o fino pó mortal, moído
por aqueles, que aprenderam muito,
que são exatos, por ti.

Hans Magnus Enzensberger

inverno

04/08/2014

A florada dos ipês,
Quando nem se espera,

Surge entre as galhas
Secas… Desnudas.

Emoldura a tristeza
De sonhos e quimera…

E faz a vida renovada
Antes da primavera!

João Gimenez

com lápis escrevo

01/08/2014

com lápis escrevo
os lapsos de família
e desenho as ilhas
do meu espírito lasso
são traços
cheios de armadilha
repertório vasto de ossos
um arcaico lastro de aço
que me faz seguir rastros
- livre escrava da palavra –
sob a vigilância
dos astros

Beatriz Azevedo

os afluentes

28/07/2014

O afluente é o que sabe e sente
Que é tamanha a distância que anda
E vigora entre o antigo e o agora.
Vê sua voz enredar-se em nós
Que lhe estende o outro rio – gente,
Ser tão vivo a sustar o grito
Do afluente que o vê de frente,
A mirar o destino, o azar
De enredar-se – enrosco sem par –
Que lhe vem no silêncio sem
Piedade, que dá o alarde
Da mudez do rio que em vez
Do barulho que deu o rumo
E a feição com que ele, então,
Afluente pequeno, sente
Desconforto por ver que o porto
Onde atraca sua voz, que é raça
De rumor, do pequeno é dor,
Ao parir de seu grito rouco
O silêncio que no outro é oco.

Alckmar Luiz dos Santos

a lua

25/07/2014

Eu digo lua
como quem
não diz nada

como quem subitamente
disco de prata
ser iluminasse

Renata Pallottini

noturno

23/07/2014

Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?
Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, de mim desapossar.

Diluídos na velha Luz da lua,
a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados.
Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mão…

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Águas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?

Ariano Suassuna
(16-junho-1927 – 23-julho-2014)
Seu primeiro poema, publicado a 7 de outubro 1945, no Jornal do Comércio do Recife.


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