onde?

19/04/2014

Onde_Marcelo Sahea

lições

17/04/2014

Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.

Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.

Trêmula, a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.

Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?

Mia Couto

elegia 18

14/04/2014

Mais de cem relógios
nas paredes da sala
tocam as horas adiante.

Um relógio, entanto,
invertido em sua ronda
anda com os ponteiros
voltando para o ontem.

Vibram os relógios
em coro, tiquetaque,
e taquetique ele torna
ao refluxo do tempo.

Seus ponteiros pacientes
passo a passo pingando
gota a gota destilam
incensos na lembrança.

Hipnotizam, acenam
para o regresso do homem
aos olhos da criança.

O relógio fantasma
em sentido leste-oeste
impõe com jornada
viajar o viajado.

Vou reviver lugares,
essas visões familiares
presentes no passado.
São valores perenes
longe e bem lembrados:

as manhãs ressoando
veredas da juventude,
as noites orvalhando
trilhas lá da infância.

Aonde mais, tão leve,
me quer levar o relógio
em seu contrário tempo?

Um nevoeiro me enleia
nuvens me enovelam
no chão, amorosamente.

Vou fluir o rego-dágua
para mover o monjolo
em seu compasso longo.

Reerguer os galos
revoar os gaviões
patear os cavalos
e as éguas no rebanho.

Vou uivar os cães
ruminar os bois
adormecer no pai
e no calor da mãe.

Mas, ao final, é este
o relógio do sonho:

não acompanha a sombra
nem o clarão do dia
ou o soar do vento.

No amplo da sala
ponteiam-se as horas
compassadamente.

Libério Neves

anseio

11/04/2014

Ah, eu quisera ser aquela árvore
coberta pelas garças brancas de voo incerto!
Árvore plantada pelo acaso
à margem do rio enorme!
Árvore de frondes anantos,
desejosa, quase humana,
que se arrepia ao contato
das penas dos papagaios que passam!
Árvore que tem o grande amor do vento
e que da sombra para o gado descansar.
Árvore estéril, árvore bela, árvore fresca,
árvore amante de todos os crepúsculos,
no solstício do inverno ou do verão,
Árvore do pensamento das outras árvores!

Adalcinda Camarão

não posso adiar o amor para outro século

07/04/2014

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

estranheza do mundo

04/04/2014

Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.
Pervago em um mundo estranho.
Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro;
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.
Olho a árvore e já
não pergunto “para quê”?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.

Ferreira Gullar

balada do velho cedro

31/03/2014

Diante da cabana, às margens do ribeirão, havia um cedro.
As pessoas mais velhas diziam que tinha mais de duzentos anos.
Só por causa dele rocei o mato e construí aqui minha casa.
No quinto mês do ano parece que ouvias as cigarras com frio.
E então, do sudeste, soprou um vento violento, estremecendo a terra.
O rio ergueu-se, as pedras se puseram a correr,
[as nuvens despedaçaram-se.
O tronco lutou com todas as forças que tinha para afastar raios e trovões.
Mas hoje, suas raízes estão separadas da fonte de água
[– vontade do céu?

Eu gostava do azul moroso dessa velha árvore,
da sua luxuriante e verde sombra sobre o rio.
Os viajantes que temiam a neve não raro aqui paravam.
Os passantes aqui se detinham para escutar esse som de flauta
[e de gaita.
Tigre caído, dragão arqueado, entregue às ervas,
com marcas de lágrimas e de sangue que escorreram de seu peitoral.
Onde recitarei meus novos poemas?
Minha cabana perdeu a sua cor.

Du Fu

imaginassem as amendoeiras

28/03/2014

Imaginassem as amendoeiras
que estamos em pleno outono.
Vestem-se como.

Púrpura, ouro,
estão perfeitas como estão:
erradas.

Pudesse um poema, um amor,
pudesse qualquer esperança
viver assim o engano:

beleza, beleza,
beleza,
mais nada.

Eucanaã Ferraz

abadá

24/03/2014

eu quero a massa
o topo da borrasca
eu quero nada
eu quero nunca
eu quero o azul da Prússia
e o jazz do Adzerbaijão

O que eu quero passa
fica o gosto de auasca
eu quero nada
eu quero sempre
eu quero os girassóis da Rússia
e o luar do meu sertão

eu quero a massa
a farpa e não a lasca
eu quero vida
eu quero gente
eu quero gente em toda praça
neste início de estação

Getúlio Maia
(musica por Tony Primo)

fagulha

21/03/2014

Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.

Ana Cristina Cesar


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