a lua

25/07/2014

Eu digo lua
como quem
não diz nada

como quem subitamente
disco de prata
ser iluminasse

Renata Pallottini

noturno

23/07/2014

Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?
Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, de mim desapossar.

Diluídos na velha Luz da lua,
a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados.
Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mão…

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Águas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?

Ariano Suassuna
(16-junho-1927 – 23-julho-2014)
Seu primeiro poema, publicado a 7 de outubro 1945, no Jornal do Comércio do Recife.

sobre um poema

21/07/2014

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder

meninas sonhadas

18/07/2014

As três meninas são muito leves
cor de laranja
com seus vestidos de fina gaze
plissados.

Elas são como três grandes leques
plissados
abrindo ao sol gazes redondas
cor de laranja.

São muito leves as três meninas
cor de laranja
como brinquedos de papel fino
plissados.

Posso exibi-las no ar: seus vestidos
plissados
cheios de vento: balões, lanternas
cor de laranja.

As três meninas são muito leves
cor de laranja:
talvez não sejam mais que vestidos
plissados.

Talvez não sejam mais do que hibiscos
plissados,
flores de seda, papel de flores
cor de laranja.

Pétalas tênues, nimbo da lua
cor de laranja
por pensamentos adormecidos
plissados.

Cecília Meireles

Foi-se a Copa?

14/07/2014

Foi-se a Copa? Não faz mal.
Adeus chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
cuidar de nossos problemas.

Faltou inflação de pontos?
Perdura a inflação de fato.
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.

O povo, noutro torneio,
havendo tenacidade,
ganhará, rijo, e de cheio,
A Copa da Liberdade.

Carlos Drummond de Andrade (1978)

o gol

11/07/2014

 A esfera desce
 do espaço
              veloz
 ele a apara
 no peito
 e a para
 no ar
             depois
 com o joelho
 a dispõe a meia altura
 onde
 iluminada
 a esfera
            espera
 o chute que
 num relâmpago
 a dispara
           na direção
           do nosso
           coração.
                                            Ferreira Gullar

momento no metrô

07/07/2014

Se nos olhássemos
mais tempo,

levaríamos conosco
o duro, o instante,
o implacável diamante

que nos separou.

Hélio Pellegrino

ser, parecer

04/07/2014

Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida

Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos

Mia Couto

contemplando o monte tianmen

30/06/2014

Parece que o monte Tianmen
     partiu-se, de propósito, em dois,
     só para deixar correr
     o Grande Rio.
As águas verdes
     que se dirigiam para o leste
     voltam-se aqui, rápidas, para o norte.
As duas falésias azuis
     nas margens
     erguem-se,
e lá embaixo
     um resto de sol ilumina
um barco solitário
     nas águas ensombradas.

Li Bai

é boi ou poeira

27/06/2014

Direção a Palmeira dos Índios,
os nomes são lindos:
Coqueiro Seco, Sítio Estrela,
Chã do Pilar, Belo Monte,
assim por diante.

Pela janela rápida,
o que não é cana
– o que não é cana? –
é boi ou poeira,
ou esse

vazio
– inquilino –
em tudo mesmo
onde parece haver
uma coisa e outra.

Os donos das terras,
donos de tudo,
só não são donos dos nomes:
Dois Riachos, Água Branca,
Tanque d’Arca, Pau Ferro.

Eucanaã Ferraz


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