a gota

05/05/2021

A
Gota
Alíquota
De água líquida
Em formato peculiar
Fruto da ação gravitacional
Das forças de tensão superficial
Vapor de água, partículas discretas
Condensada pela pressão atmosférica
Precipita, semeando vida, homérica
Brota no chão esperança concreta
Ciclicamente, absorvendo energia
Agita-se, rompe a interação
Aumenta a entropia
Evaporação

Wilmo Francisco Jr.

meu maio

03/05/2021

A todos
Que saíram às ruas
De corpo-máquina cansado,
A todos
Que imploram feriado
Às costas que a terra extenua –
Primeiro de Maio!
Meu mundo, em primaveras,
Derrete a neve com sol gaio.
Sou operário –
Este é o meu maio!
Sou camponês – Este é o meu mês.
Sou ferro –
Eis o maio que eu quero!
Sou terra –
O maio é minha era!

Maiakóvski

alpaca, vicunha ou lhama

30/04/2021

Vaso, talha ou moringa
Plaina, cinzel ou cunha
Samba, xaxado e ginga
A encravada da minha unha
Tamba, cachaça ou pinga
Só o sol por testemunha
Búzios, runas e mandinga
Alpaca, lhama ou vicunha

Estrada, viela ou rua
Cutelo, adaga ou faca
Roldana, iça ou grua
Resina, verniz ou laca
A verdade crua e nua
Nada a ela escapa
Nem a Gonzaga, o Lua
Vicunha, lhama ou alpaca

Ataúde, esquife ou caixão
Bento Rodrigues na lama
Febre, maleita ou sezão
Navio Negreiro ou Derrama
Portanto, assim, então
Tudo é da mesma rama
Tudo escapa à razão
Alpaca, vicunha ou lhama

Da vicunha as vestes reais
Ao povo só o fardo chama
E aos guerreiros leais
Alpacas forram a cama
Às lhamas cargas demais
Sem descanso, sem alfama
Somos assim todos iguais
Alpaca, vicunha ou lhama

Getúlio Maia

canto brasileiro

28/04/2021

Meu coração é o violão de espanha
Meu sangue quente é o banjo americano
A minha voz é o cello da alemanha
Meu sentimento é o bandolim cigano

A minha mágoa é o som francês do acordeon
Meu crânio é a gaita de fole escocesa
Meus nervos são como bandoneon
Minha calma é igual guitarra portuguesa

Meu olho envolve como flauta indiana
Minha loucura é como harpa romana
Meu grito é o corne inglês de desespero

Maldito ou bíblico, demônio ou santo
Cada país foi me emprestando um canto
E assim nasceu meu canto brasileiro

Paulo César Pinheiro

o haver

26/04/2021

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido…

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história…

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada…

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

Vinícius de Moraes

25 de abril

23/04/2021

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen

poema didático

21/04/2021

Já tive um país pequeno,
tão pequeno
que andava descalço dentro de mim.
Um país tão magro
que no seu firmamento
não cabia senão uma estrela menina,
tão tímida e delicada
que só por dentro brilhava.

Eu tive um país
escrito sem maiúscula.
Não tinha fundos
para pagar a um herói.
Não tinha panos
para costurar bandeira.
Nem solenidade
para entoar um hino.
Mas tinha pão e esperança
para os viventes
e sonhos para os nascentes.

Eu tive um país pequeno,
tão pequeno
que não cabia no mundo.

Mia Couto

hai-kai

19/04/2021

hora do recreio
folhas brincam com o vento
no pátio vazio

Conrado Falbo

alegria

16/04/2021

Já ouço gritos ao longe
Já diz a voz do amor
A alegria do corpo
O esquecimento da dor

Já os ventos recolheram
Já o verão se nos oferece
Quantos frutos quantas fontes
Mais o sol que nos aquece

Já colho jasmins e nardos
Já tenho colares de rosas
E danço no meio da estrada
As danças prodigiosas

Já os sorrisos se dão
Já se dão as voltas todas
Ó certeza das certezas
Ó alegria das bodas

José Saramago

o crise

14/04/2021

chorei durante toda manhã
planejava uma rota de fuga
imaginando a vida noutras
chorei porque já não sabia
quem sobrava no decantar
mas sabia ser um pouco só
o que sobrava era já nesga
flutuava–me o olho adiante
e podia apalpar o futuro ali
ele sólido e um tanto febril

Liv Lagerblad