desamparo

02/03/2015

quando a poesia me desabita
e as palavras fogem
pássaros estarrecidos
e a luz oculta das coisas
se esvai
um trem que a noite engole
quando não há deuses nem estrelas
nada que seja diáfano
ligando as coisas
só o coração da terra
pulsando grave e amedrontador
quando isso acontece
me sinto desamparada

Roseana Murray

copacabana à tarde

27/02/2015

Não tenho tempo a perder. Por isto
perco tempo, e me disperso na rua. O azul
cobalto do céu esmalta a pele da noite
ainda impúbere. Cajado na mão, rastreio
o alfabeto das águas, sob o asfalto
escaldante. Há, na raiz da amendoeira, um poço
onde a alegria começa. Para encontrá-lo,
basta deslizar pelas vertentes da brisa
que sopra em meio ao tráfego. Aí, entre os
dedos do vento, respira o verdor da primavera,
o grito do louva-a-deus entre aflitos
semáforos, o raso clamor da grama
entre as gretas da pedra.

Hélio Pellegrino

amor pacífico e fecundo

23/02/2015

Não quero amor que não saiba dominar-se,
desse, como vinho espumante,
que parte o copo e se entorna,
perdido num instante.
Dá-me esse amor fresco e puro como a tua chuva,
que abençoa a terra sequiosa,
e enche as talhas do lar.

Amor que penetre até o centro da vida,
e dali se estenda como seiva invisível,
até os ramos da árvore da existência,
e faça nascer
as flores e os frutos.
Dá-me esse amor que conserva tranquilo o coração,
na plenitude da paz!

Rabindranath Tagore

onde o sentido

20/02/2015

onde o sentido está contido?
comigo? consigo?
onde andará o sentido?
sentado à beira do abismo?
abismado com tanto cinismo?
onde andará o sentido?
sentado no cais a ver navios?
no meio do mar à deriva?
onde o sentido se esquiva?

Chacal

eu não sei se Fernando Pessoa realmente existiu

16/02/2015

Eu não sei se Fernando Pessoa realmente existiu
(admitindo que saibamos o que existir quer dizer)
mas eu acho que ele existe à medida
que cada um de nós acha que ele existe.
E que neste sentido ele é único.
Não no sentido em que cada um de nós é único
– ou pensa ser –
mas no sentido em que Fernando Pessoa é único
isto é, como um gerânio
no meio de outros gerânios,
isto é, como todo mundo.

O que o torna tão diferente de muitos dos outros poetas
é a sua indiferença a todas as coisas,
dentre elas, a poesia e a indiferença.
Sua indiferença não é uma pose, nem uma atitude.
Ela é a expressão de uma inteligência viva.
Para Fernando Pessoa, ser inteligente é duvidar de todas as coisas,
dentre elas, da inteligência e da dúvida,
é tentar se desfazer daquilo que aprendemos.
Fernando Pessoa maneja sua inteligência
como o contrabandista de Valery Larbaud usa
seu pequeno espelho de bolso
para assegurar que os funcionários da alfândega não estão na sua cola.
Eu acho que ele tinha um olhar de mosca.
E que seus olhos de mosca lhe permitiam ver tudo
ao mesmo tempo, uma coisa e seu contrário,
mais alguma coisa que não é exatamente seu contrário
e que é, no fim das contas, a mesma coisa.

Admitindo que Fernando Pessoa tenha algum dia existido
(e que tenhamos chegado a um acordo sobre o que existir quer dizer)
eu acho que ele era do tipo que podemos chamar solitário,
e que ser solitário como eu imagino que ele tenha sido
é estar presente ao mesmo tempo em todos os lugares e em lugar nenhum
é ser ao mesmo tempo todo mundo e ninguém.
Ser Fernando Pessoa é ser tudo, para ele somente.
E alguma coisa que tem a ver com o sono.

T.S. Eliot precisava de Deus para amar
e para escrever o que ele escreveu.
A metafísica dava náuseas em Fernando Pessoa
porque a metafísica supõe uma dualidade
que lhe revolvia o estômago.
Esta náusea da alma (que ele mantinha
ao escrever o que ele escrevia)
lhe fez escrever o que ele escreveu
até não poder mais pensar, até este esgotamento
que tem a ver com o sono.

A voraz banalidade das coisas cotidianas
é seu ponto de partida e seu ponto de chegada.
Ele não pega uma coisa qualquer da realidade de todos os dias
para destacá-la e lhe dar um sentido
mais alto, nem outro sentido qualquer que esteja fora dela mesma.
Ele pega uma coisa banal que ele expõe por um momento
à luz enganosa da metafísica
para recolocá-la, inalterada – ou quase –
na banalidade voraz das coisas cotidianas.

Seigen Ishin afirmava que antes de estudar o Zen
sob a orientação de um bom mestre
as montanhas são montanhas e as águas são águas.
Que, chegando a uma certa visão interior da verdade,
as montanhas não são mais montanhas
e as águas não são mais águas.
Mas que uma vez atingido o estado de quietude,
de novo as montanhas são montanhas
e as águas são águas.
Eu não compreendo muito bem o que isso quer dizer,
mas eu acho que Fernando Pessoa teria ficado contente
de ouvir essa história.

Sem sombra de dúvida, é em torno dessa questão,
ou de alguma coisa próxima a isso, que giram sua lucidez
e sua retórica de gerânio.

Emmanuel Hocquard

nas palavras, o bálsamo

13/02/2015

desnudar
o rosto moderno
da solidão

expor a dor
o vazio

descobrir
nas palavras
o recanto
o conforto
o bálsamo
de dias perfeitos

Ozias Filho

a doença como metonímia

09/02/2015

Trabalhadores da
St. John del Rey Mining
Company, em Nova Lima,

Minas, gabam-se

de sua origem
(“mineiros duas vezes”)
Mas descon-

fiam que viver
é para nada: morrem
cedo, antes de aprenderem,

p.ex., a soletrar pneumoultra

microscopicossilicovulcanoniose
(= silicose, simpli-
ficam os que ficam).

Ricardo Aleixo

os dias de verão

06/02/2015

Os dias de Verão vastos como um reino
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo

Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo

O destino torna-se próximo e legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

Como se em tudo aflorasse eternidade

Justa é a forma do nosso corpo

Sophia de Mello Breyner Andresen

nomos

02/02/2015

No claro ou no breu
no branco, no escuro
clamo por luz
mas oro na treva

não me viro
se fujo, só celebro
o acaso que me
excita e assusta

e caio

nas conchas da mente
casa do ocaso
sono em vigília que
nada expira e tudo escuta

Alexandre Horner

sol

30/01/2015

brilhar pra sempre
brilhar como um farol
brilhar com brilho eterno
gente é pra brilhar
que     tudo     mais
vá pro inferno
este
é o meu slogan
e o do sol

Maiakóvski
(tradução de Augusto de Campos)


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