homens sem livros

20/01/2017

Naquele grande prédio cinza
ficam os homens sem teses brilhantes.
No café da manhã
iniciam a ladainha dos erros,
onde poderiam ter sido melhores,
detalham cada arrependimento.
Imperfeitos, com hálito de anjo,
passeiam por outras preferências
de pães, pela inexatidão de açúcares
e açucenas desfocadas sob fundo negro.
Antes que a manhã acabe, deliciam-se
com cada ideia sem realização
sobre as duzentas páginas que jamais
foram cinco, e trocam elogios
de gravatas. Ao meio-dia, o zênite.
Silêncio, pois pensam no detalhe
de cada erro que cresce.
Fazem cálculos sobre onde podem
ser atacados e por quem.
Até escutam os estômagos
digerindo o arroz, o frango, as cenouras.
No pátio interno há um teatro
Boa parte da tarde, encenam ressentimentos
com a alegria caindo aos pedaços.
À noite, eles se recolhem em suas celas,
hora de pensar o erro seguinte.
Ali as teorias são frágeis, brilhantes, encantadoras,
mas não espere uma única linha.

Eduardo Jorge

ovo

18/01/2017

A manhã. A solidão. A fome.
O ovo.

A tarde. A tristeza. A fome.
O ovo.

A noite. A dor. A fome.
O ovo.

Os dias todos. A fome.
O ovo.

Os anos voam. A saudade. A fome.
O ovo.

As bodas de ouro. A despedida. A fome.
O ovo.

A velhice. A morte que chega,
Oferecendo um último banquete.
Peço ovo.

Se pudesse faria tudo de novo.
Como ler de trás para frente – ovo.

Eduardo Lacerda

o beijo

16/01/2017

todo mundo precisa de beijo
o ascensorista a vitrinista
a judoca o playboy
o zagueiro o bombeiro o hidrante
 
o hidrante precisa também
de cuidados água farta
analgésicos e dinheiro

todo mundo precisa de dinheiro
o maracanã o pavilhão de são cristóvão
o cristo a pedra da gávea os dois irmãos

quem não precisa de dinheiro?
todo mundo precisa de beijo.

Chacal

a cascata do monte lu

13/01/2017

Debaixo do sol escaldante,
       sobe um vapor violeta
do pico do Queima-Incenso.
       De longe, a catarata
parece um rio suspenso,
       águas em voo que se jogam
       de três mil pés.
Fico indeciso:
       não é a Via Láctea
caindo do alto do céu?

Li Bai

após o traço descrito

11/01/2017

Essa oscilação desde o nome, com efeito,
reflui até o fim
de um longe remotamente distorcido.

Algumas milhas acima
um pássaro quase todo asa
labora o silêncio do mundo,
extingue e recomeça o infinito.

Na mesma aparente imobilidade
esse maciço de pluma contra o maciço zênite:
duas minúcias de nenhum peso
acercando-se da força bruta.

Denise Martins Freitas

receita para fazer o azul

09/01/2017

Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz – eu, Abraão ben Judá Ibn Haim, iluminador de Loulé – e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.

Nuno Júdice

de todas as obras

06/01/2017

De todas as obras humanas, as que mais amo
São as que foram usadas.
Os recipientes de cobre com as bordas achatadas, e com
                         mossas
Os garfos e facas cujos cabos de madeira
Foram gastos por muitas mãos; tais formas
São para mim as mais nobres. Assim também as lajes
Polidas por muitos pés, e entre as quais
Crescem tufos de grana: estas
São obras felizes.

Admitidas no hábito de muitos
com frequência mudadas, aperfeiçoam seu formato e
                          tornam-se valiosas
Porque delas tanto se valeram.
Mesmo as esculturas quebradas
com suas mãos decepadas, me são queridas. Também
                          elas
São vivas para mim. Deixaram-nas cair, mas foram
                         carregadas.
Embora acidentadas, jamais estiveram altas demais.
As construções quase em ruína
Têm de novo a aparência de incompletas
Planejadas generosamente: suas belas proporções
Já podem ser adivinhadas, ainda necessitam porém
De nossa compreensão. Por outro lado
Elas já serviram, sim, já foram superadas. Tudo isso
Me contenta.

Bertolt Brecht

margaridas, ao amanhecer…

04/01/2017

Mesmo que o fim esteja plantado
Rego algumas sementes

Olhem!
Começou a desfolhar as margaridas…

Carmen Silvia Presotto

cá fora

02/01/2017

Abre a porta e caminha
Cá fora
Na nitidez salina do real

Sophia de Mello Breyner Andresen

canção

30/12/2016

Se não chover nem ventar,
se a lua e o sol forem limpos
e houver festa pelo mar,
– ir-te-ei visitar.

Se o chão se cobrir de flor,
e o endereço estiver claro,
e o mundo livre de dor,
– ir-te-ei ver, amor.

Se o tempo não tiver fim,
se a terra e o céu se encontrarem
à porta do teu jardim
– espera por mim.

Cantarei minha canção
com violas de eternamente
que são de alma e em alma estão.
– De outro modo, não.

Cecília Meireles