herança

23/05/2016

O pegar o touro à unha,
o dar o boi e a boiada
pela guerra ou pela paz,
a tempestade num copo
e a festa na tempestade,
vontade como de ferro,
coração como borracha,
compreensão inesperada,
o verso nunca converso
e a intensidade do ódio
com o amor mais desbragado,
noite adentro, tardo dia,
acolhida e rebeldia,
esse legado de ti.

Lígia Cademartori

poeta é…

20/05/2016

O inimigo do mundo (Baudelaire)
Ladrão de fogo (Rimbaud)
Um fingidor (Fernando Pessoa)
Pilar da ponte de tédio (Sá-Carneiro)
Um pulso ferido que sonda as coisas do outro lado (García Lorca)
Lúcido sim, eleito não (Manuel Bandeira)
Um homem sem profissão (Oswald)
Gauche na vida (Drummond)
Irmão das coisas fugidias (Cecília Meireles)
A palavra gatilho/violação luminosa/efêmero azul nas veias (Paul Éluard)
Um anjo alegre e um diabo sem conceito (Jorge de Lima)
Simples e complicado, humilde e orgulhoso, casto e sensual, equilibrado e louco (Murilo Mendes)
A linguagem do homem, a retorcer as formas do pensamento (Dylan Thomas)
Eterno errante dos caminhos (Vinícius de Moraes)
Incapaz de ser cristal raro/vale pelo que tem de cacto (João Cabral)
Coluna sem ornamento, geralmente partida (Mário Faustino)
Um plagiário (Affonso Ávila)
O fim da picada (Torquato Neto)
Um cachorro louco (Leminski)
O que se esqueceu de viver (Régis Bonvicino)

Etc. Etc. Etc. Ad infinitum.

Carlos Ávila

o haicai

16/05/2016

Lava, escorre, agita
a areia. E enfim, na bateia,
fica uma pepita.

Guilherme de Almeida

choro de vagas

13/05/2016

Não é de águas apenas e de ventos,
No rude som, formada a voz do Oceano:
Em seu clamor – ouço um clamor humano;
Em seu lamento – todos os lamentos.

São de náufragos mil estes acentos,
Estes gemidos, este aiar insano;
Agarrados a um mastro, ou tábua, ou pano,
Vejo-os varridos de tufões violentos;

Vejo-os na escuridão da noite, aflitos,
Bracejando, ou já mortos e debruços,
Largados das marés, em ermas plagas…

Ah! que são deles estes surdos gritos,
Este rumor de preces e soluços
E o choro de saudades destas vagas!

Alberto de Oliveira

vidas secas

09/05/2016

Romance em rosácea
desde que rosa sumária
de pétalas contadas, de
páginas onde se conta
o essencial sem floreios.

O tempo curto da vida
em dias decalcados, acres
na ida e na vinda circu-
lares, no mesmo lugar:
andar de dentro para

fora, ou vice-versa – fuga
debaixo do mesmo céu
em cima da terra parada
via sentenças-sinas, retas
escritas por partes – arte.

Armando Freitas Filho

espiral

06/05/2016

No oculto do ventre,
o feto se explica como o Homem:
em si mesmo enrolado
para caber no que ainda vai ser.

Corpo ansiando ser barco,
água sonhando dormir,
colo em si mesmo encontrado.

Na espiral do feto,
o novelo do afecto
ensaia o seu primeiro infinito.

Mia Couto

canto de regresso à pátria

02/05/2016

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá

Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra

Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá

Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo

Oswald de Andrade

quem

29/04/2016

Cheguei à mais absoluta baixeza:

usei da lógica; segui em linha reta
até ao chão da certeza;

fui à razão, bebi suas regras;
delimitei o que era e o que não era.

Hoje, porém, posso vender a crédito
todos os meus pensamentos;

mas quem confiaria num comerciante
que a própria filosofia fia?

Minha pele, fiquem com ela,
é de graça e já não é minha.

Eucanaã Ferraz

incontáveis linhas

25/04/2016

incontáveis linhas  
como que dispersas  
impensáveis línguas  
como que dos persas  
cruzam-se no infinito:  
ou tornam-se linguagem  
ou deixam o dito  
                por não dito

Ricardo Aleixo

descobrimento

22/04/2016

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

Mário de Andrade


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