exausto

25/05/2015

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Adélia Prado

as cidades e seus donos

22/05/2015

há cidades desconfiadas
impessoais misteriosas
recife são paulo
em que se mora por empréstimo
de aluguel de passagem
sem se sentir dono
como inquilino temporário
mas que ninguém tem

há cidades que por mistério
se entregam por inteiro
salvador rio de janeiro
em que cada morador
é proprietário verdadeiro
em que todo o povo
sente-se e afirma-se dono
em todo gesto no menor jeito

Frederico Barbosa

inibição

18/05/2015

Vou cantar uma cantiga,
vou cantar – e me detenho:
porque sempre alguma coisa
minha voz está prendendo.

Pergunto à secreta Música
porque falha o meu desejo,
porque a voz é proibida
ao gosto do meu intento.

E em perguntar me resigno,
me submeto e me convenço.
Será tardia, a cantiga?
Ou ainda não será tempo…

Cecília Meireles

o poeta

15/05/2015

O poeta não gosta de palavras
escreve para se ver livre delas.

A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.

Quando
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.

Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.

Com raiva
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.

O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.

Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.

Mia Couto

das biografias

11/05/2015

em negro
teceram-me a pele.
enormes correntes
amarram-me ao tronco
de uma Nova África.

carrego comigo
a sombra de longos muros
tentando impedir
que meus pés
cheguem ao final
dos caminhos.

mas o meu sangue
está cada vez mais forte,
tão forte quanto as imensas pedras
que os meus avós carregaram
para edificar os palácios dos reis .

Adão Ventura

ser mãe

08/05/2015

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo!  É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!  
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

Coelho Neto

o trabalho e o sonho

04/05/2015

Claro: acima de sentinelas e
terraços, é a estrela que dirige
a faina do padeiro – no albor
da madrugada.

Todo trabalho é a véspera
de um sonho.

Hélio Pellegrino

Talvez a minha vocação não seja esta

30/04/2015

Talvez a minha vocação não seja esta
ou seja esta por ter perdido o espaço que nunca tive
Era algo selvagem algo violentamente vivo
o espaço na sua integridade deslumbrante
o mar na sua plenitude de felina substância
as ilhas de ouro verde as ilhas solares
as grandes pradarias com os seus cavalos vagarosos e tranquilos
a liberdade de ser o fogo com as suas veias indolentes
Sim eu perdi todo esse espaço que nunca tive
e se escrevo é para inventar um espaço a partir desta perda
na ficção de respirar o que há de mais selvagem e mais nu
como se estivesse entre escarpas verdes inundado pela espuma
ou como se estivesse no esplendor do deserto à hora do meio-dia
Mas o que faço não é mais do que um trabalho de insecto
que perfura a cal e as páginas dos livros
para traçar a sua caligrafia insignificante
na nulidade de uma matéria árida e anónima

António Ramos Rosa

roda da fortuna

27/04/2015

roda da fortuna giramundo
quem perdeu agora vai ganhar
nada do que foi e sobretudo
sei que agora o mundo vai mudar

quem perdeu a vez e ficou mudo
vai poder se manifestejar
quem ficou sem voz ou sem agudos
essa é a sua hora de cantar

essa ciranda vai e vem de banda
como fosse onde na beira do mar
essa ciranda é sonar e sonda
bate e volta pronta ela é pendular

a vida é o sumo do absurdo
tudo pode, basta duvidar
os sinais trocados num segundo
e o que era menos vem somar

do espelho d´água ao mais fundo
da escuridão à luz solar
do trabalhador ao vagabundo
e a terra gira em rota circular

Makely Ka

bryaxis,11

24/04/2015

A discreta datilografia noturna
aclara ainda mais o papel branco
que a recebe: retira do escuro
do pensamento por meio das teclas pretas
as linhas do texto cerrado do raciocínio.

Datiloscrito em tinta negra iluminando
melhor do que a lâmpada da mesa acesa
a textura da literatura inteira
que aparece escorreita na folha que sai
do ânimo, que azeitou a máquina.

Armando Freitas Filho


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