programa

24/03/2017

Não queremos qualquer poesia,
Queremos mágicas, artifícios,
Procuramos tapar na existência fatais vazios
E apesar de imenso esforço, uma atrofia.

Mas o que sabem vocês outros da secreta elevação,

Dos sagrados e histéricos soluços da garganta a chorar,
Quando, consumidos pelo haxixe da alma em imersão,
Beijamos o primeiro degrau, para além de cujo limiar
Os deuses moram?

Wilhelm Klemm

o dia em que morreu Diadorim

22/03/2017

O dia em que morreu Diadorim
Todas as flores murcharam no jardim

Quatro tábuas cortadas a facão
Apregadas compuseram seu caixão

Redemoinhos se formavam no terreiro
E o vento apagava o candeeiro

Não se ouvia um pio de acauã
Labaredas arrastavam a manhã

Nem um boi mugia no curral
Nem um soluço saltava do embornal

Nem um passo, nas veredas, se ouvia
Nem a lua, que tudo alumia

Abriu seus olhos, claros, como os dela
Em cada canto da mesa uma vela

O seu corpo todo foi lavado
Pelas lágrimas de dor de Riobaldo

Todo amor, de alguma forma, tem seu fim…
O dia em que morreu Diadorim

Goulart Gomes

atlântico

20/03/2017

Mar,
Metade da minha alma é feita de maresia.

Sophia de Mello Breyner Andresen

pensamentos

17/03/2017

Diante de minha janela,
     o brilho do luar.
Ou é a geada
     cintilando no chão?

Ergo a cabeça
     e contemplo a lua.
Baixo a cabeça,
     saudades de minha terra natal!

Li Bai

leia… sempre…

15/03/2017

Ali, sentado, visitava cores, formas,
lugares, flores, cheiros, impérios, vilarejos,
seduzido pelas palavras.
Não brincava de ler…
Lia ao brincar.

Guellwaar Adún

a lua, esta

13/03/2017

Da terra,
a vista nua,
não vês,
pousados lá,
homens
e naves.

Há que supor
que a lua, esta,
é a mesma porcelana
– branco da China –
vista por Li Po, o poeta,

há mais de mil anos.

Eucanaã Ferraz

Übermensch

10/03/2017

Disse-me uma amiga
certa feita
que o máximo
da delicadeza
é entrar
num quarto vazio
onde haja um espelho
e vê-lo
vazio
livre da dívida
de nos refletir

Vampiros são muito suaves

Fábio Weintraub

saudade

08/03/2017

saudade é saber aonde ir
quando lhe roubaram todos os caminhos.
é quando cortam as asas do seu anseio de voo.
saudade é comer lembranças requentadas,
fazer planos em calendários vencidos.
quando fico assim, paro no meio da sala e me vem
essa certeza atônita, essa harmonia caótica.
fico sem saber se inexisto ou existo em demasia.

Reynaldo Bessa

aflição

06/03/2017

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
 (A noite como fera se avizinha)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

Hilda Hilst

o que vem depois de sábado

03/03/2017

você nunca vai saber
o quem vem depois de sábado
quem sabe um século
muito mais lindo e mais sábio
quem sabe apenas
mais um domingo

Paulo Leminski