bailadera

26/04/2017

Bailadera é a criança que no passo pra correr
Levanta o pó, bola de vidro, boitatá, oi pererê

Bailadera é a menina que na reza pra chover
Olha a flor, saia que gira o suspiro amanhecer

Bailadera é a mulher com a linha pra cozer
Vai tecendo à sua espera perfumando o destecer

Diz cantigas de rendeira, faz poeira do esquecer
Brasileira madrugada ribeirando o amanhecer

Bailadera é a vida, o olho, o sangue, o fogo,
O fato, a lábia, o fruto filho tudo aquilo
Que se fez amanhecido: o meu e o teu ser.

Baila baila baila baila baila bailadera

Richard Serraria

abri subitamente

24/04/2017

Abri subitamente uma janela
e vi nascer da sombra uma cidade
feita de paz lunar e eternidade.
Na cúpula mais alta, na viela

entre casas humildes escondida,
nas árvores, jardins, em cada muro,
pairava uma esperança de um futuro
belo demais para esta amarga vida!

Abri subitamente uma janela:
uma cidade vi que distendia
os seus braços de névoa, indecisos,

e me ocorreu pensar quem poderia
perder-se em seu mistério e, através dela,
chegar até remotos paraísos!

Alphonsus de Guimaraens Filho

horizonte

21/04/2017

Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
Esplendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.

Fernando Pessoa

três formas de amor

19/04/2017

MAR
o mar é a fera em si
corpo revolto
imenso, impossível
de abarcar,
demanda toda atenção.
mas quem dele não tira
o olho, se perde da
razão: em fúria
é indomável,
em calmaria labirinto
(azul sob azul,
nenhum deserto
é tão sucinto).

ESTRELA
a estrela é a fera em nós
o desejo anfíbio
de mutar do que somos
a outro –
então mergulho,
desrazão.
a estrela não retorna
amor, silente
é a própria expressão
do não.

SELVA
a selva é a fera nos outros
a soma de desejos
que faz o seu jogo –
ritmos de corpos
devorando-se
sob a aparente calmaria.
cada delícia é
uma armadilha:
úmida de vida,
transforma quem a ama
em mais um.

Sérgio Cohn

retrato de uma princesa desconhecida

17/04/2017

Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino.

Sophia de Mello Breyner Andresen

qualquer dia

14/04/2017

Um dia não termina ao suspiro de um relógio.
Em todos os dias constroem-se janelas na vida.

Às vezes debruço dentro de mim a olhar o passado.
Dias em que esqueço em que tempo estou.

Quantas janelas teremos de fechar para valer olhar
apenas os dias em que realmente estamos?

Relógios mal varrem o tempo exterior.
Pois é o único tempo que anda.

Ronaldo José Guimarães

primeira nadificação

12/04/2017

A mente é mais do que o corpo e não dorme,
A alma é mais do que a mente e não pensa,
A vida é mais do que a existência e não vive.

Marcelo Ariel

passado

10/04/2017

Belas manhãs…
Só havia floridas!

A borboleta
beijava as rosas

e o beija-flor,
as margaridas.

Belas manhãs…
Só as via floridas!

João Gimenez

morrer

07/04/2017

Pois morrer é apenas isto:
Cerrar os olhos vazios
e esquecer o que foi visto;

é não supor-se infinito,
mas antes fáustico e ambíguo,
jogral entre a história e o mito;

é despedir-se em surdina,
sem epitáfio melífluo
ou testamento sovina;

é talvez como despir
o que em vida não vestia
e agora é inútil vestir;

é nada deixar aqui:
memória, pecúlio, estirpe,
sequer um traço de si;

é findar-se como um círio
em cuja luz tudo expira
sem êxtase nem martírio.

Ivan Junqueira

\\livro aberto//

05/04/2017

de pele é revestido o corpo, tecido
vivo \ no livro, chama-se capa
(o couro sob o título) \ abri-lo:
gráfico grito \ mas como ouvi-lo
se é branco o ruído da celulose,
– tão silenciosa? todo livro fechado
se cala \\ cada nova leitura o amplia.

de órgãos o corpo é preenchido,
de vírus, microrganismos, avisos /
no livro, diz-se texto / há páginas
em que apenas a aparência é pueril /
decifrá-las, nem sempre é fácil, há vários
níveis de sentido ou, ainda, na entrelinha,
o seu estilo // neste exercício, o mais difícil.

Alexandre Guarnieri