d. quixote

17/12/2018

Assim à aldeia volta o da “triste figura”
Ao tardo caminhar do Rocinante lento:
No arcaboiço dobrado — um grande desalento,
No entrestecido olhar — uns laivos de loucura…

Sonhos, a glória, o amor, a alcantilada altura
Do ideal e da Fé, tudo isto num momento
A rolar, a rolar, num desmoronamento,
Entre os risos boçais do Bacharel e o Cura.

Mas, certo, ó D. Quixote, ainda foi clemente
Contigo a sorte, ao pôr nesse teu cérebro oco
O brilho da Ilusão do espírito doente;

Porque há cousa pior: é o ir-se a pouco e pouco
Perdendo, qual perdeste, um ideal ardente
E ardentes ilusões — e não se ficar louco!

Euclides da Cunha

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o enxoval

14/12/2018

De vez em quando
o meu pai ajeitava-me no bolso
um punhado de sementes
como quem oferece um tesouro.

eu, criança
prisioneira dos girassóis
e das espigas
abria os braços
para tocar o arco-íris.

Um dia, decerto
vou entender-lhe
a estoicidade
a eloquência
quando com voz serena
me disser:
filho, podes partir.

E assim farei.

Helena Figueiredo

fado tropical

12/12/2018

(…)
Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa
Mas o meu peito se desabotoa

E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa…
(…)

Chico Buarque de Hollanda/Ruy Guerra

acerca do amor

10/12/2018

Do amor só digo isto:
o sol adormece ao crepúsculo
no oferecido colo do poente
e nada é tão belo e íntimo,

O resto é business dos amantes.
Dizê-lo seria fragmentar a lua inteira.

Filinto Elísio

cidade visível

07/12/2018

Quando alegre passante eu te percorria,
entregue à imediata invasão dos sentidos,
meu olhar sequestravas sem pedir resgate,
impregnando meu paladar e olfato
em ilusão de posse em que eu te domino.
Mas nunca te habitei. Tu, sim, me habitaste,
inconcluso amor não há tempo que mate.
Mesmo agora, que és paisagem interna,
quando te visito, não mais estrangeira,
tuas vias se confundem em minhas veias.

Ligia Cademartori

fortaleza

05/12/2018

A minha tristeza não é feita de angústias
A minha tristeza não é feita de angústias
A minha surpresa
A minha surpresa é só feita de fatos
De sangue nos olhos e lama nos sapatos
Minha fortaleza
Minha fortaleza é de um silêncio infame
Bastando a si mesma, retendo o derrame
A minha represa

Chico Buarque de Hollanda/Ruy Guerra

lá estão os trens

03/12/2018

Lá estão os trens, sob o calor da ausência, num isolamento de ferro. Eles carregam a dor, a indagação dos caminhos, a tristeza, a alegria, o espelho vivo das memórias. Viajamos todos num mesmo vagão de carga. Lá vão os trens em sua estrada interminável.

Luiz de Miranda

epigrama nº 1

30/11/2018

Pousa sobre esses espetáculos infatigáveis
uma sonora ou silenciosa canção:
flor do espírito, desinteressada e efêmera.

Por ela, os homens te conhecerão:
por ela, os tempos versáteis saberão
que o mundo ficou mais belo, ainda que inutilmente,
quando por ele andou teu coração.

Cecília Meireles

a flor e o espinho

28/11/2018

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh’alma à sua
O sol não pode viver perto da lua

É no espelho que eu vejo a minha mágoa
A minha dor e os meus olhos rasos d’água
Eu na sua vida já fui uma flor
Hoje sou espinho em seu amor

Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito/Alcides Caminha

morena, pena de amor – 122

26/11/2018

Lâmpada acesa
no velho jardim,
há, na tua luz, tristeza?
ou a tristeza vem de mim?

Pela areia silenciosa,
cai uma flor.
Assim, na noite, se desfolha a rosa
e o amor.

Cecília Meireles