o rei e o palhaço

18/07/2018

Sua coroa é de ouro,
O meu chapéu é de palha.
A sua cota é de malha,
O meu gibão é de couro.
Sua justiça é no foro,
Minha lei é o consenso.
O seu reinado é imenso,
Minha casa é meu país.
Você é preso ao que diz,
Eu digo tudo o que penso.

Você vem com a arma erguida,
Eu vou abaixando a guarda.
Você vem vestindo a farda,
Eu de roupa colorida.
Você disputa corrida,
Eu corro pra relaxar.
Sua marcha é militar,
A minha é de carnaval.
Seu traje é de general,
Eu visto pena e cocar.

Você liga a motosserra,
Eu planto flor no cerrado.
Você só anda calçado,
Eu piso com o pé na terra.
Você quer vencer a guerra,
Eu quero ganhar a paz.
Você busca sempre mais,
Eu só quero o que é meu.
Você se acha europeu,
Eu sou dos canaviais.

Você vem com a força bruta,
Eu vou com a ginga mansa.
Você vem erguendo a lança,
E eu erguendo a batuta.
Você me traz a cicuta,
Eu lhe dou chá de limão.
Você diz que é capitão,
Eu só sou um mensageiro.
Você é um brigadeiro,
Eu sou só um folgazão.

Antonio Nóbrega/Bráulio Tavares

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revolta

16/07/2018

Todos foram saindo, de mansinho,
tão calados,
que eu nem sei
se fiquei mesmo só.

Não trouxe mensagem
e nem deram senha…

Disseram-se que não iria perder nada,
porque não há mais céu.
E agora, que tenho medo,
e estou cansado,
mandam-me embora…

Mas não quero ir para mais longe,
desterrado,
porque a minha pátria é a minha memória.
Não, não quero ser desterrado,
que a minha pátria é a memória…

Guimarães Rosa

obituário literário com figuras de gatos e ratos

13/07/2018

os ratos roeram a vida dos poetas
– livres do peso das letras, os estetas

em outras esferas escreverão, pois,
no cavo, vácuo profundo, sem voz, à foice

(esta persiana a zerar o ar dos distraídos),
não mais poemas, já que lidos os labirintos,

nada mais resta, nada, nem a quem se
amar ou refutar, não esfria, nem aquece,

a luta com palavras já não faz parte de
paixões ou razões puras, nenhum alarde,

nada de metáforas, nenhuma metonímia
– a menina de lá não dá mesmo a mínima.

os ratos, rudes e arrogantes orates,
gorjeiam na goela os corpos dos vates

e, ainda assim, nas estantes, talhados,
ficam os poemas – como nos telhados

gatos de gostos e colmilhos afiados, à leitura
nasal do rastro dos ratos, vigiam venturas.

de um pulo a outro salto, uma gangue
de gatos retalha a noite com sangue

de restos de ratos que das tripas, as tropas
de versos, vazam as mais soberbas sopas.

Fabiano Calixto

teofania

11/07/2018

além do bem e do mal
com seu amor fatal
está o ser que sabe quem sou
no tempo que é um lugar
no espaço que é um passar
espreita-nos um olhar criador

muitos me dirão: que não!
que nada é divino: nem o pão, o vinho, a cruz
outros rezarão: em vão!
pois nada responde e tudo se esconde – em luz

deus do roseiral, do sertão
do ramo de oliveira e do punhal
deus dos temporais, dos tufões
da dúvida, da vida e a morte vã

quanta solidão e eu não sei
se homem só suportarei
um sinal, um não,
e silencie, aqui e além, a dor

deus das catedrais, dos porões,
da bíblia, do alcorão, da torá
deus de ariel e caliban
da chuva de enxofre, do maná

quanta solidão e eu não sei
se homem só suportarei
um sinal, um não,
e silencie, aqui e além, a dor

Chico César/Bráulio Tavares

visita ao monge taoísta

09/07/2018

Os latidos do cão se perdem
     no barulho da água
     de depois da chuva.
A flor do pessegueiro
     cobre-se de orvalho.
No fundo da floresta,
     vez em quando,
     aparece um cervo.
Perto da torrente,
     ao meio-dia,
     sinos emudecidos.
A ponta fina dos bambus perfura
     a névoa azulada.
A cascata se agarra
     ao pico de esmeralda.
Ninguém sabe dizer
     aonde ele foi,
e eu aqui, triste,
     apoiado
ao tronco do pinheiro.

Li Bai

soneto

06/07/2018

Caro Rocha Miranda e companhia,
Muzzi, Melo, Cibrão, Arnaldo e Andrade,
Enfim, a toda a mais comunidade
Manda saudades o Joaquim Maria.

Sou forçado a não ir à freguesia;
Tenho entre mãos, com pressa e brevidade,
Um trabalho de grande seriedade
Que hei de acabar mais dia menos dia.

Esta é a razão mais clara e pura
Pela qual, meus amigos, vos remeto
Uma insinuação de vagatura.

Mas, na segunda-feira, vos prometo
Que haveis de ter (minha barriga o jura)
Mais uma canja e menos um soneto.

Machado de Assis

o que é bonito

04/07/2018

O que é bonito?
É o que persegue o infinito
Mas eu não sou
Eu gosto do inacabado
Do imperfeito, o estragado
O que dançou
Eu quero mais erosão
Menos granito
Namorar o zero e o não
Escrever o que desprezo
E desprezar o que acredito
Eu não quero a gravação
Eu quero o grito
É que a gente vai
E fica a obra
Mas eu persigo o que falta
Não o que sobra
Eu quero tudo que dá e passa
Quero tudo que se despe
Se despede
E despedaça

Lenine/Bráulio Tavares

de

02/07/2018

Tentei prender um guizo
no pescoço da hora.
Mas ela sobre nós arremeteu
um fogo tão frio e tão afoito
que não pude salvar um só instante
de nossa pele se quebrando.

Eucanaã Ferraz

minha mãe

29/06/2018

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.

Vinícius de Moraes

choveu

27/06/2018

Não tem nada mais bonito
Lá na terra já choveu
E não tem verde mais bonito
Nos teus olhos bonitos

Não distrai o pensamento
Lá na terra já choveu
Meu coração é deserto
Lá na terra choveu

Beto Guedes/Ronaldo Bastos