despojamento

26/08/2016

Eliminei o excesso de paisagem
simplifiquei toda a decoração
retirei quadros flores ornamentos
apaguei velas copos guardanapos
e a música

Bani a inutilidade do discurso

Na mesa de madeira
nua
apenas dois pratos
brancos
sem talheres

O banquete será tua presença

Ivo Barroso

leve

24/08/2016

Que o breve
seja de um longo pensar

Que o longo
seja de um curto sentir

Que tudo seja leve
de tal forma
que o tempo nunca leve.

Alice Ruiz

carcará em ruína

22/08/2016

Feitiço lampejante que fulmina
Ao rasgar estrela e orvalho minha sina
Frágil, ancorada, mestiça, manca e feia
Maldição profetiza a cinza teia

Assim, como espreito este raso
Aguardo furtivo o gato negro do acaso
Carregando consigo a lâmina do meu fim
Diga-me adubo o que será de mim

Sepulcro sem reza, nunca ser flor
Jamais flor, porque perfumaria o meu horror
Jamais rosas, jamais jasmim, jamais manacá
Não tive flor aqui, não terei lá

Fui regado para florescer o ódio
Noutros tantos rancores que dariam um pódio
Nominando-me o campeão do sentimento trágico
Quase grego helênico e dramático

Abasteci de sensações que não desejei
Molharam-me a boca seca e transformaram-me em rei
As emoções iludiam-me e eu sonhava alcançar o topo
Fazendo desta história meu vão escopo

Até que a sorte acabou repentina
Despenquei lá de cima, como um carcará em ruína
Estava machucado, quebrado, e inteiramente falido
Fui alvejado, caçado e atingido

Quando retomei do quase eterno coma
Percebi que não haviam tratado do principal sintoma
A ganância e os sentimentos podres voltaram a afligir
Nesse momento desejei parar de sentir

Somente existi desde então sem ambição
Apenas continuando uma caminhada, sem nenhuma emoção
Como um inseto a contar os segundos a espera da aranha
Nas sombras esperando a última façanha

Daniel Cruz

tarde quieta…

19/08/2016

Tarde quieta de domingo,
quieta, quieta…
Joga ao ar a bola preta
o menino.

Só a música
inquieta um pouco….
(o perpassar talvez do espírito louco
do Músico-Poeta…)

E, na varanda,
as rosas brancas
pendem sobre a estrada.

– Quem acendeu as luzes
em pleno dia?

Tanto de quase nada!…

Saúl Dias

ou a gente…

17/08/2016

Ou a gente se Raoni
Ou a gente se Sting

Uma metade passa fome
Outra metade faz regime

Minha vida é uma novela
Minha casa um tele-cine

No meu quarto tem uma cama
Que às vezes vira um ringue

Quem não sabe cala a boca
Quem não conhece só finge

Você só pensa em tarô
Mas meu caso é com I-Ching

O teu corpo é escultura
Minha alma sua vitrine

Uns preferem a linha reta
Outros vão pelo suingue

No amor somos sinceros
Na morte somos esfinges

Ainda me mando pros ares
Vou montado no estilingue

A vida não dá replay
Aproveite e não se vingue

Ou a gente se Raoni
Ou a gente se Sting

Luis Turiba

cenário

15/08/2016

No jardim
O anúncio da primavera
Abelhas, cinderelas, personagens, o lugar.
Com o amanhecer as casas se multiplicam,
O café (água de cheiro),
O sol nos vértices do céu.

Os olhos grandes da criança,
Imaginando o gosto da maçã.
A cantoria é majestosa:
Dos bichos, das folhas ao vento,
Inspirando uma ensaiada orquestra.

E da janela, eram dela aqueles olhos
Que dão à tarde a morada
Que eu sonhava um dia ver.
A gaivota, nas páginas da história,
Voa a cantar no horizonte
Com seu modo de trinar.
Um buquê borboletas,
Um arco-íris que se vê passar.
E todo um ritual se repete:
As flores sempre dançarinas
Agradecem o sabor do vento.

As folhas secas chegam lentas ao cenário,
São as lágrimas dos galhos
Que se arrastam nos quintais.

Tony Primo

poema para meu pai

12/08/2016

Meu pai morreu longe de mim
(eu é que estava longe dele).
Tantos anos se passaram
e ainda não lhe vi a sepultura.
Continuo longe. Mas sua presença
me sacode como um choque elétrico,
uma bebida forte que me arde
por dentro.
Está vivo nos meus dedos,
nos cabelos ralos
— a nuca, dá arrepios de se ver.
Está cada vez mais perto de mim
(eu é que estou mais perto dele).

Ivo Barroso

que cansa, estafa

10/08/2016

tramonta o artifício da eternidade
no plágio lacustre o eriçar dos juncos
do pai rendeu loas a lago e abade
a mãe resiste coberta de fungos

a crocitar do bosque turva o vento
em árdua razão a palma se alonga
quase lanha o friúme do sereno
enquanto a azenha a pilar toda ôntica

à beira da várzea múrmuro anuro
arredado da própria circunstância
ele se excede no que é sem augúrio
e assoma ao extremo da sua lâmina

Ronald Augusto

receita

08/08/2016

Tome-se um poeta não cansado,
Uma nuvem de sonho e uma flor,
Três gotas de tristeza, um tom dourado,
Uma vela sangrando de pavor.
Quando a massa já ferve e se retorce
Deita-se a luz dum corpo de mulher,
Duma pitada de morte se reforce,
Que um amor de poeta assim requer.

José Saramago

vesperal

05/08/2016

Campos, ravinas verdejantes, arvoredo
vestindo os montes como um fofo terciopelo…
A tarde, um sino ao longe erguendo o seu apelo
ao vesperino azul, fundo como um segredo…

A tarde, um sino ao longe… Estrelas ambarinas
na limpidez do céu acordam, vacilantes…
Mugem num tom suave os bois pelas colinas;
afogam-se na sombra os contornos distantes…

Paisagem vesperal que palpitante espia
a estrela do pastor, que já no azul flutua…
A saudade sem causa, a vaga nostalgia
que enche como um perfume este apagar do dia,
gerou-se na minha alma ou acordou na tua?

Roberto de Mesquita


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