se

28/06/2017

::
se falasse
como quem desfalecesse
talvez não merecesse
a muda dicção
de quem calasse

se calasse
como quem não esclarece
talvez esfacelasse
o som da voz
de quem falasse
::

Diego Petrarca

a ser feito

26/06/2017

sobre brasas
caminhar

sobre espinhos
e brasas
caminhar

sobre ácidos
facas e tédios

amores tumores
incêndios

caminhar

em direção
a si ao fora
ao fato

a vida é
algo a ser
feito

Carlos Moreira

a solidão

23/06/2017

a solidão não é um vazio
a solidão é um cheio de tudo
um abarrotamento dentro da gente
no grande silêncio de fora

Vera Lúcia de Oliveira

afetivo e efetivo

21/06/2017

no alarde das dobras marginalizadas
a imensidão sempre é mais
carente

João Pedro Wapler

batismo

19/06/2017

Manhã de junho
Eu, criança-objeto,
dou as mãos ao
menino boina-bombachinha
e seguimos nós,
eu e o menino,
a caminhar por uma rua disforme
paralelepípedos angulares,
solares fios dos cabelos infantis,
sem trocar palavras
seguíamos no percurso atemporal
e apertávamos as nossas mãos
nas leves descidas.
Sorrisos entreabertos nos tropecinhos.
A rua terminou no azul
E nós, eu e o menino,
mergulhamos no mais
silencioso e nevrálgico
dos países: o dos Andrade.

Simone de Andrade Neves

os nomes

16/06/2017

Duas vezes se morre:
Primeiro na carne, depois no nome.
A carne desaparece, o nome persiste mas
Esvaziando-se de seu casto conteúdo
– Tantos gestos, palavras, silêncios –
Até que um dia sentimos,
Com uma pancada de espanto (ou de remorso?)
Que o nome querido já nos soa como os outros.

Santinha nunca foi para mim o diminutivo de Santa.
Nem Santa nunca foi para mim a mulher sem pecado.
Santinha eram dois olhos míopes, quatro incisivos claros à flor da boca.
Era a intuição rápida, o medo de tudo, um certo modo de dizer “Meu Deus, valei-me”.

Adelaide não foi para mim Adelaide somente
Mas Cabeleira de Berenice, Inominata, Cassiopéia.
Adelaide hoje apenas substantivo próprio feminino.
Os epitáfios também se apagam, bem sei.
Mais lentamente, porém, do que as reminiscências
Na carne, menos inviolável do que a pedra dos túmulos.

Manuel Bandeira

ilha

14/06/2017

só porque vive no mar
não quer dizer
que um pescador não conheça a terra
um pescador conhece muito bem a sua ilha

sabe que um lado
é sempre diferente do outro
sabe que os homens
preparam muito bem suas fogueiras
sendo que as mulheres
já possuem seu próprio fogo

Pedro Marodin

os livros na estante

12/06/2017

     Sento-me diante do computador e me sinto como se estivesse no meio de um palco, diante de uma plateia invisível. Essa sensação não me chega pelo que tenho à frente, a tela iluminada, mas pelo que me cerca. A estante de livros me rodeia como se fosse o público de uma arena exigindo melhor desempenho do ator/personagem.

     Os que mais se manifestam são os livros que ainda não li. Sabem que eu sei que são indispensáveis. Carregam em seu corpo histórias criadas por escritores brilhantes, que viveram várias épocas e conheceram a humanidade em todas as suas nuances. Eles não pesam sobre minhas costas, seu reclamar é leve. Digo-lhes que minha intenção é devorá-los em breve, tanto que os comprei e os guardei em lugar privilegiado. São obras-primas reconhecidas em todo o mundo, mas os afazeres do cotidiano e as exigências da vida moderna me impedem, como desejo, de fazer amor com eles, me envolver em suas tramas, em sua linguagem inovadora. É para já, eu prometo, mas eles me observam com olhar desconfiado. Afinal, passam-se os anos, minha existência já não será tão longa como antes e eu não tenho muito tempo a perder.

     Agora o vozerio vem dos poetas encadernados em volumes do lado direito. Sentem falta de minha voz recitando seus versos em voz alta ou em respeitoso silêncio reflexivo. Mas eu não estou tão relaxado assim, busco argumentar com Drummond, Bandeira, Cabral, Lorca, Pessoa, Cecília e tantos outros que me indicam caminhos de encantamento. A poesia se entranhou em mim de tal forma, que a tenho correndo em minhas veias pela mesma estrada onde circulam as pessoas queridas que fui recebendo ao longo dos dias. Também sou cobrado pelos poetas novos, pelos romancistas e contistas, que me acusam de gastar horas com jornais, me inteirando de fatos que não vão contribuir para clarear minhas ideias nem engrandecer minha alma.

     Olho com carinho para eles, os meus livros. Não estão arrumados como deveriam estar, nesse móvel imponente de ferro e madeira que os sustenta. Quase sou vaiado quando prometo pôr ordem na bagunça: se não encontro ocasião para me deliciar com o que eles trazem de belo na carne, razão de sua permanência em minha casa, para que projetar uma organização nas prateleiras? Livro não é para ser ordenado, isso não faz falta, livro é para ser lido.

     Convencido pelas vozes da razão, faço uma pilha com o que julgo essencial e ainda não desvendei. Percebo que há um rumor de contentamento entre os volumes escolhidos. Ou a alegria será minha? De outro cômodo do lar, canções à espera de serem criadas ensaiam um protesto. Busco acalmar o burburinho, tenho tempo para todos, e mergulho na prazerosa tarefa de buscar felicidade no universo das palavras.

Fernando Brant

crisálida

09/06/2017

agora já não pedes
meus nervos em pasto

agora já te afastas
crescida em beleza

agora me contas piadas
que aprendes ou inventas

agora pressinto tuas asas

Paulo Glenadel

falamos de amor

07/06/2017

falamos de amor
para deter o tempo
fundear num golfo
de pura duração

falamos de amor
para sedar o medo
sensação de osso
em oxidação

então fixamos
no silêncio em nós
murmúrios de luas
gorjeios de flores

então laboramos
figuras de cor
mas poesia não é
|garantem doutores|
geléia d’amores

Luiz Roberto Guedes