pensamento da primavera

24/09/2018

Nos desfiladeiros do Norte,
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dia da árvore

21/09/2018

     Eu só queria ser uma árvore. Magrinha, baixinha, gorduchinha ou estrábica. Qualquer uma, contanto que vegetasse. Podia ser um exemplar desgrenhado como o do cerrado ou latifoliado como o amazônico. Contanto que vegetasse, que bailasse ao vento, que inventasse um tempo só de amoras, morou? Podia ser um bouganville ou um flamboyant que, só pelo nome, são frondosos. Ou quem sabe um exemplar de gravatá? Só para alfinetar o bom senso. Ou uma louca papoula? Que servisse de ópio aos aventureiros ou, who knows, apenas um tamarineiro para azedar a doce vida, para fazer puxa ou apenas para tamarinar.

     Entretanto só sei ser bombril, vim ou sapóleo radium. Eu só sei ser embalagens plásticas, invólucros, outdoors. Eu sou só sabão em pó. Minha brancura é um loucura porque tenho sempre omo à mão, rinso ao lado e minerva na reserva. Eu, como você, sou um enlatado. Me lubrifico com lubrax. Me danifico com bardhal. Me tonifico com varsol. Meu nariz é um aspirador walita e o ouvido é marca philco. Enxergo através de lindas lentes policrômicas telefunken. Ando mais rápido porque meus pés são good year. Às vezes não ando, salto com minhas botas melissas e meus amortecedores cofap. Minha língua é ora áspera, ora felpuda, dependendo do controle remoto do meu toshiba. Meus cabelos são flexíveis e duráveis porque neles só produtos wella, a beleza dos seus cabelo revela. Às vezes elimino pelos poros um fio sintético de alto teor explosivo. É o excesso de tetracloretileno que utilizo para enxaguar minhas mágoas. Pensas que exagero? Que devaneio para iludir o Tempo? Absolutamente. Tudo isso é a verdade metaforizada assim como é sanforizado o vinco inalterável da minha perna feita de tergal pervinc setenta, aquele que não amargura nem perde o cinto.

     Eu sou como tu, plastic people, supermercantilista, embrulhadinho como drops dulcora. Bat gente, detergente, meio demente.

     Gostaria de ser uma árvore. Especialmente hoje. Dessas que não se importam com a pontuação e nem suspeitam do plural de energúmeno. Um imenso baobá que contemplasse de cima de suas raízes milenares a sofisticação da indústria. Uma frondosa secóia que passasse o tempo, bebendo água de canudinho, totalmente tola. Ou um carvalho assombroso que dançasse, bizarro, com a rosa dos ventos. Ou uma amendoeira do sul da Bahia, carregada de nós e nozes, olhando de soslaio o fogo fátuo. Ou então seria uma jaqueira a abrigar passarinho nos seus braços vegetais. Não, hoje eu não queria ser um rio, um tufão, um destroyer, um gigolô. Não me tenta tampouco, ser esmeralda, topázio ou turmalina. Mineral algum faria a minha cabeça hoje. O mundo animal com suas lontras, bezerros gritando mamãe, besouros ou focas não me emocionam today. Apenas uma coisa salvaria meu domingo e o leitor sabe o que é. Pois é. É isso aí. Apenas ser vegetal e viver de fotossíntese, bebendo da terra, oxigenando o ar. Essa é a única homenagem que se pode fazer a uma árvore. É se metamorfosear num coqueiro, se travestir em mangueira, se transmutar numa jabuticabeira. Mas com certeza hoje, muitas árvores serão mostradas pelo vídeo em tapes e slides. Milhares de informações serão dadas sobre as diversas espécies vegetais e não faltará também o tradicional plantio de palmeiras ou pés de goiaba. Mas ninguém, nenhum ser humano conseguirá nem por um segundo ser árvore. Muito menos eu, miserável comedor de kolinos com clorofila, um bebedor de pinho sol, um fã de soda cáustica. Como tu, pessoa, como tu.

Chacal

o riso e a faca

19/09/2018

Quero ser o riso e o dente
quero ser o dente e a faca
quero ser a faca e o corte
em um só beijo vermelho

Eu sou a raiva e a vacina
procura de pecado e conselho
espaço entre a dor e o consolo
a briga entre a luz e o espelho

Fiz meu berço na viração
eu só descanso na tempestade
só adormeço no furacão

Tom Zé

gerês

17/09/2018

Quando me levantei já as minhas sandálias andavam a passear lá fora na relva

Esta noite até os atacadores dos sapatos floriram

Jorge Sousa Braga

arte poética

14/09/2018

Pousa o tempo
sobre os ombros
e (d)escreve
apenas
erosões
dum rasto
de Sol
na pedra lisa

David Mestre

multiplicar-se única

12/09/2018

Toda a canção quer se multiplicar
na multidão única se tornar.

Simples prazer
de ressoar
no ar
o som da voz.
Canta por nós:
cordas vocais
sem cais,
cordas ou nós.

Tom Zé

saudade e espanto

10/09/2018

Bebo um barco que ao longe passa
e traz-me inevitavelmente
uma sensação de infância.

À saudade entrego o meu coração
E às espumas o meu espanto roxo.

Mark Dennis Velhinho

interferências

07/09/2018

Entre a sombra projetada sobre os desvãos da calçada
                                                         [e quem vem do outro
lado da rua, um ônibus.
Um ônibus trazendo setenta e cinco passageiros.
E o pior:
isso ainda não nos leva a nada.

Bruno Blum

cego com cego

05/09/2018

eu vi o cego lendo a corda da viola
cego com cego no duelo do sertão
eu vi o cego dando nó cego na cobra
vi cego preso na gaiola da visão
pássaro preto voando pra muito longe
e a cabra cega enxergando a escuridão

eu vi a lua na cacunda do cometa
vi a zabumba e o fole a zabumbá
eu vi o raio quando o, céu todo corisca
e o triângulo engulindo faiscá
via galáctea branca na galáctea preta
eu vi o dia e a noite se encontrá

eu vi o pai eu vi a mãe eu vi a filha
via novilha que é filha da novilhá
eu vi a réplica da réplica da bíblia
na invenção dum cantador de ciençá
vi o cordeiro de deus num ovo vazio
fiquei com frio te pedi pra me esquentá

eu via a luz da luz do preto dos seus olhos
quando o sertão num mar de flor esfloresceu
sol parabelo parabelo sobre a terra
gente só morre para provar que viveu
eu vi o não eu vi a bala matadeira
eu vi o cão, fui nos óio e era eu

Tom Zé/José Miguel Wisnik

água forte

03/09/2018

Girando
ritmadamente

(ela submersa
no inferno denso e negro
do café)

esta pequena
colher de prata

da qual
vês apenas
— preso entre teus dedos —
o cabo
sem grandes
arabescos

fazes emergir
em torvelinho

a partir da tona
líquida
escura

uma nuvem de fumaça
até teu rosto

que a recebe
sorrindo

Carlito Azevedo