antidelação

19/04/2019

A noite veio,
disfarçada em dia,
e ofereceu-me a luz,
diáfana como a Aurora.

Mas eu disse que não.

Depois veio a serpente
disfarçada em virgem
e ofereceu-me os seios e os braços nus.

Mas eu disse que não.

Por fim veio Pilatos,
disfarçado em Cristo,
e numa voz humana e doce
disse: “se quiseres eu dou-te o paraíso
mas conta a tua historia…”

Mas eu disse que não,
que não, não, não!

E continuei um Homem!
E eles continuaram
os abutres do medo e do silêncio.

Vasco Cabral

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a máscara do mal

17/04/2019

Na minha parede há uma escultura de madeira japonesa.
Máscara de um demônio mau, coberta de esmalte dourado.
Compreensivo observo
As veias dilatadas da fronte, indicando
Como é cansativo ser mal.

Bertolt Brecht

lembrança

15/04/2019

Lembro o pudor da paisagem
e a fanfarra de perfumes
que o claro clarim dos lírios
abria na madrugada.

Lembro o susto dos insetos
na castidade das águas,
e as asas do pó fugindo
atrás da luz desnudada.

Lembro a fala dos caminhos
ao longo dos passos cegos,
e os ventos enovelados
na cabeleira das nuvens.

Lembro o bulício da palha
quando pisavas a tarde,
os olhos cheios de folhas
e as mãos repletas de ninhos.

Lembro a noite dos meus olhos
sem luas no seu silêncio,
quando ficavas na sombra
e a sombra ficava estrela.

Lembro a palavra parada
na flor adiada da boca,
e lembro o beijo retido
ao gesto alado de adeuses.

Guilherme de Almeida

macieira

12/04/2019

Amanheci arbórea,
raízes longas,
um ninho
novo
em cada braço.

(Janela aberta.
Um farfalhar de ramos.)

Eu agito
meu cabelo:
o quarto se enche de maçãs.

Ana Santos

a excepção e a regra

10/04/2019

Estranhem o que não for estranho.
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos ante o quotidiano.
Tratem de achar um remédio para o abuso
Mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra.

Bertolt Brecht

o sol é grande, caem co’a calma as aves

08/04/2019

O sol é grande, caem co’a calma as aves
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d’alto cai acordar-m’-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu’em vós confia?
Passam os tempos vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d’amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
Também mudando-m’eu fiz doutras cores:
E tudo o mais renova, isto é sem cura!

Francisco Sá de Miranda

a pesca

05/04/2019

O anil
o anzol
o azul

o silêncio
o tempo
o peixe

a agulha
vertical
mergulha

a água
a linha
a espuma

o tempo
o peixe
o silêncio

a garganta
a âncora
o peixe

a boca
o arranco
o rasgão

aberta a água
aberta a chaga
aberto o anzol

aquelíneo
agil-claro
estabanado

o peixe
a areia
o sol

Affonso Romano de Sant’Anna

aqueles dois

03/04/2019

andaram lado a lado
cheios de doçuras a dizer

mas como era duro dizer

falaram do tempo frio
de como tudo é inútil
e calaram o que sentiam –

os anos se foram e aqueles dois

sentindo o tempo passar
não disseram o que queriam

Bertolt Brecht

hoje

01/04/2019

Wesley Duke Lee

seu metaléxico

29/03/2019

economiopia
desenvolvimentir
utopiada
consumidoidos
patriotários
suicidadãos

José Paulo Paes