o homem; as viagens

27/03/2015

O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.

Lua humanizada: tão igual à terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte – ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro – diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em vênus,
Vê o visto – é isto?
Idem
Idem
Idem.

O homem funde a cuca se não for a júpiter
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
Do solar a col-
Onizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver.

Carlos Drummond de Andrade

outono

23/03/2015

Outono
Maçãs repousam dentro de nós.
E o rubro tom, na vidraça.

Nydia Bonetti

princípio de outono

20/03/2015

O cricrilar dos grilos na cabana
       apressa o outono.
O canto da cigarra nos montes
       lamenta o crepúsculo que se esvai.
Deserta a porta de madeira:
       ninguém por perto.
No bosque vazio,
       encontro marcado
com nuvens brancas.

Wang Wei

quotidiano (reflexão)

16/03/2015

Por exemplo, as coisas que faltam neste lugar:
uma enxada para que as mãos não toquem na terra,
um ninho de pardais no canto da relha,
para que um ruído de asas se possa abrigar,
um pedaço de verde no monte que ainda vejo,
por detrás dos prédios que invadem tudo.

Mas se estas coisas estivessem aqui,
também faria falta um copo de água para ver,
através do vidro, um horizonte desfocado;
e ainda os restos de madeira com que,
no inverno, é costume atiçar o fogo
e a imaginação que ele consome.

Como se tudo estivesse no lugar,
pronto para ser usado na data prevista,
sento-me à janela, e fixo a única coisa
que não se move:
o gato, hipnotizado por um olhar
que só ele pressente.

Nuno Júdice

Viste o cavalo varado a uma varanda?

13/03/2015

Viste o cavalo varado a uma varanda?
Era verde, azul e negro e sobretudo negro.
Sem assombro, vivo da cor, arco-irís quase.
E o aroma do estábulo penetrando a noite.
Do outro lado da margem ascendia outro astro
como uma lua nua ou como um sol suave
e o cavalo varado abria a noite inteira
ao aroma de Junho, aos cravos e aos dentes.
Uma língua de sabor para ficar na sombra
de todo um verão feliz e de uma sombra de água.
Viste o cavalo varado e toda a noite ouviste
o tambor do silêncio marcar a tua força
e tudo em ti jazia na noite do cavalo.

António Ramos Rosa

sortilégio

09/03/2015

Há um pensamento chorando dentro da noite erma.
Há um pensamento virgem, solitário,
apalpando a floresta,
roçando no rio largo,
por onde bóia, em cada estirão,
o sortilégio da mãe-d’água.
O jurutai canta para a lua cheia,
Os grilos arremedam o assobio do vento,
As nuvens sacodem chuva e tristeza
só porque eu quero luar nos meus pés.
E vem lá de dentro da mata,
lá de onde eu não sei como está,
a voz rouca do silêncio amazônico
consolando as umbaubeiras perdidas
que a trovoada vergou.
Há um pensamento chorando dentro da noite esquecida…
Descendo pela correnteza,
pedindo a mão das estrelas…
Há um pensamento com sono e sem poder dormir…
Marinheiro, vê se tu podes compreender
esse pensamento de mulher.

Adalcinda Camarão

não tem cor

06/03/2015

Meu nome não tem cor. Meus olhos são claros embora sejam escuros, são olhos em busca do firmamento.
Minha pele é mutante. Minha pele é como eu a vejo, do branco ao preto, azul, marrom, pele sem geografia e atenta, pele de ritmos e linhas.
É uma pele com asas de borboleta, um tecido que é um ninho e também o seu abandono. Minha pele me descasca, queima, acaricia, faz-me sombra e chuva. Minha pele não existe quando eu sinto e escrevo. Quando eu escrevo,
minha pele cede lugar à minha carne e à minha substância, e minha carne e minha substância são a minha pele e o meu nome. O meu nome não tem cor, tem amor, assim como a minha pele.

Helena Terra

desamparo

02/03/2015

quando a poesia me desabita
e as palavras fogem
pássaros estarrecidos
e a luz oculta das coisas
se esvai
um trem que a noite engole
quando não há deuses nem estrelas
nada que seja diáfano
ligando as coisas
só o coração da terra
pulsando grave e amedrontador
quando isso acontece
me sinto desamparada

Roseana Murray

copacabana à tarde

27/02/2015

Não tenho tempo a perder. Por isto
perco tempo, e me disperso na rua. O azul
cobalto do céu esmalta a pele da noite
ainda impúbere. Cajado na mão, rastreio
o alfabeto das águas, sob o asfalto
escaldante. Há, na raiz da amendoeira, um poço
onde a alegria começa. Para encontrá-lo,
basta deslizar pelas vertentes da brisa
que sopra em meio ao tráfego. Aí, entre os
dedos do vento, respira o verdor da primavera,
o grito do louva-a-deus entre aflitos
semáforos, o raso clamor da grama
entre as gretas da pedra.

Hélio Pellegrino

amor pacífico e fecundo

23/02/2015

Não quero amor que não saiba dominar-se,
desse, como vinho espumante,
que parte o copo e se entorna,
perdido num instante.
Dá-me esse amor fresco e puro como a tua chuva,
que abençoa a terra sequiosa,
e enche as talhas do lar.

Amor que penetre até o centro da vida,
e dali se estenda como seiva invisível,
até os ramos da árvore da existência,
e faça nascer
as flores e os frutos.
Dá-me esse amor que conserva tranquilo o coração,
na plenitude da paz!

Rabindranath Tagore


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