algo ainda que nos una

12/02/2016

se o dia a dia nesta terra é um caroço
e toda a tribo se pinta para a guerra
e todos índios erguem sua borduna
os facões retinindo os seus aços
na defesa de seu sagrado quinhão de terra:
haverá algo ainda que nos una?

se aos sem terra se juntaram os sem espaço
mas também os pregoeiros da baderna
espalhando o terror como um cangaço
nos mais distantes rincões de nossa terra
floresta, pontal, canguçu, pontes de lacerda:
haverá algo ainda que nos una?

se escavam com furor a nossa serra
as máquinas perfurando sem cansaço
e ainda exportamos ferro pra comprar aço
nessa lógica cruel que nos emperra
e há quem pense que é discurso de comuna:
haverá algo ainda que nos una?

se os discursos não comovem a moto-serra
e a floresta se definha de cansaço
e o ar que respiramos é só fumaça
o meu peito uma imensa de uma borra
e a esperança não enche a lacuna:
haverá algo ainda que nos una?

se aqui bom cabrito é o que mais berra
e todos querem do algodão maior chumaço
os eleitos nos iludem com a baderna
algaravia de uma feira de embaraços
todos nós surdos em meio a bruma:
haverá algo ainda que nos una?

Getúlio Maia

boi de haxixe

08/02/2016

Meu bem, eu cheguei agora
Mas eu te peço tu não vá chorar
Por favor, me dê a sua mão,
Entre no meu cordão, venha participar

Quando piso em flores
Flores de todas as cores
Vermelho-sangue, verde-oliva, azul colonial
Me dá vontade de voar sobre o planeta
Sem ter medo da careta
Na cara do temporal

Desembainho a minha espada cintilante
Cravejada de brilhante
Peixe-espada vou pro mar
O amor me veste com o terno da beleza
E o saloon da natureza
Abre as portas pr’eu dançar
Diz o que tu quer – que eu dou
Se tu quer que eu vá – eu vou

Meu bem meu bem-me-quer
Te dou meu pé, meu não
Um céu cheio de estrelas
Feitas com caneta bic num papel de pão

Zeca Baleiro

poema do aviso final

05/02/2016

É preciso que haja alguma coisa
alimentando o meu povo:
uma vontade
uma certeza
uma qualquer esperança.

É preciso que alguma coisa atraia
a vida ou a morte:
ou tudo será posto de lado
e na procura da vida
a morte virá na frente
e abrirá caminhos.

É preciso que haja algum respeito,
ao menos um esboço:
ou a dignidade humana se afirmará
a machadadas.

Torquato Neto

não procures verdade

01/02/2016

Não procures verdade no que sabes
Nem destino procures nos teus gestos
Tudo quanto acontece é solitário
Fora de saber fora das leis
Dentro de um ritmo cego inumerável
Onde nunca foi dito nenhum nome.

Sophia de Mello Breyner Andresen

o monte tong

29/01/2016

Gosto do monte Tong
           porque ele me deixa alegre.
Fico por aqui bem uns mil anos.
          Danço ao meu gosto:
minha manga solta roça
          de uma só vez
todos os pinheiros aqui em cima.

Li Bai

rio

25/01/2016

o rio é basicamente o mar
o mar e o amor
amor e mar
atlanticamente amar
 
o rio é basicamente o riso
humor amor
amor humor
para rolar de rir
 
água na boca é a guanabara
e o arpoador é jóia rara
 
pelas curvas desse rio
ninguém vai morrer de frio
porque é só se espreguiçar
no sol que sai detrás do mar

Chacal

idílica estudantil

22/01/2016

Nossa geração teve pouco tempo
começou pelo fim
mas foi bela a nossa procura
ah! moça, como foi bela a nossa procura
mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,
mesmo com tanto caco de sonho
onde até hoje
a gente se corta.

Alex Polari de Alverga

a arte e a vida

18/01/2016

Como encontrar a cor exata da pintura?
Como escolher a palavra certa do poema?
Qual a clave deverei usar na partitura?
Qual enigma decifrarei no teorema?

A arte não é pressuposto do fato
Nem é relato obscuro e sem razão
Não é cálculo matemático do problema
Muito menos é o inteiro da fração

A arte é o ponto do equilíbrio
Exílio da prisão inadequada
E se a dúvida precisa da certeza
É porque a vida, sem a arte não é nada!

Marçal Filho

atravessa

15/01/2016

o trem cargueiro

a   t   r   a   v   e   s   s   a

todos
os dias

três vezes a cidade

o forte ruído sacode a mente

o alumínio vem da bauxita?

isso não pode ser verdade

Murilo Leal Cruz

pessoa

11/01/2016

(para os heterônimos de Fernando)

Sou entre tantos
e quase não existo
um cheiro estranho
não mais que isso.

Sei,
devo estar
em algum lugar
escondido
(entre esta úmida
sensação de chuva
e a ventofresca
impressão de secar)

Amanhã,
talvez,
ganhe um resfriado
e um pouco mais
de existência.

Jefferson Vasques


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