recorte

26/09/2016

Afastar-se de um objeto qualquer
até que se possa vê-lo inteiro.

Afastar-se mais,
até que se confundam suas formas.

Afastar-se ainda mais,
até que se torne pequeno, quase invisível.

Afastar-se, afastar-se,
até que suma por completo.

Continuar se afastando
e desaparecer lentamente.

Bruno Blum

sábado

23/09/2016

Depois de amanhã
vou recomeçar vida nova:
ao invés de subir pelas paredes
toda vez que a vejo com felicidade
vou descer a pé
ante pé
a ladeira da saudade

Carlos Vogt

ou

21/09/2016

você pode me pisar
que nem confete
você pode me morder
que nem chiclete
você pode me chupar
que nem sorvete
você pode me lanhar
que nem gilete
só não pode proibir
que nem piquete
se eu quiser escapulir
que nem pivete

Antônio Carlos Secchin

primavera

19/09/2016

A neve derrete, dias cada vez mais quentes,
o gelo desaparece, raios de sol inundam a terra,
pouco a pouco os rebentos ganham força.
A Primavera só não desfaz a geada branca em meus cabelos.

                                                   Bai Juyi

sem segredo algum

16/09/2016

Rodeio-te de nomes, água, fogo, sombra,
vagueio dentro das tuas formas nebulosas.
Como um ladrão aproximo-me entre palavras e nuvens.
Não te encontrei ainda. Falo dentro do teu ouvido?
Entre pedras lentas, oiço o silêncio da água.
A obscuridade nasce. Tens tu um corpo de água
ou és o fogo azul das casas silenciosas?
Não te habito, não sou o teu lugar, talvez não sejas nada
ou és a evidência rápida, inacessível,
que sem rastro se perde no silêncio do silêncio.
O que és não és, não há segredo algum.
Selvagem e suave, entre miséria e música,
o coração por vezes nasce. As luzes acendem-se na margem.
Estou no interior da árvore, entre negros insectos.
Sinto o pulsar da terra no seu obscuro esplendor.

António Ramos Rosa

vês?

14/09/2016

nesta página campo aberto
correm trezentos cavalos
(tanto os venero)

podes escutar o hálito?
vês como são belos
e rápidos?

alcanças o perfume da terra
que levanta abrupta
sob seus cascos?

Juliana Meira

sem

12/09/2016

Que as estrelas morrem ensina a ciência
numa espécie de obituário absoluto.

Também a felicidade é passageira dizem
pode estar agora em Porto Alegre Planaltina
Ponte Nova lugares onde o mundo não existe
(o mundo é de onde a felicidade pôs-se a caminho
e não regressa). Ser feliz sei onde passa:
dura algumas horas
nós dois
sob o céu de um hotel sem estrelas.

Eucanaã Ferraz

mignon

09/09/2016

Conheces o país onde o limão floresce,
E os laranjais se acendem na paisagem escura?
Onde uma brisa branda sobre a terra desce,
O mirto cala e o laurel o céu procura?
Conheces bem?
                           É lá que eu quero estar,
Se comigo partir quiseres, ó, meu bem.

Conheces bem a casa? Pilares amparam
O telhado, a varanda brilha, o chão fulgura,
E do mármore as faces amigas me encaram:
Que fizeram contigo, pobre criatura?
Conheces bem?
                           É lá que eu quero estar,
No doce abrigo dos teus braços, ó, meu bem.

Conheces a montanha, de trilhas nubladas?
O burro erra seu caminho sob a névoa;
Nas grutas os dragões alentam as ninhadas.
Sobre um rochedo nu, a paz da chuva ecoa.
Conheces bem?
                           Pois é p’ra lá que vai
A nossa estrada. Vamos em frente, meu pai!

Goethe

nem tudo

07/09/2016

nem tudo
que é torto
é errado
veja as pernas
do garrincha
e as árvores
do cerrado

Nicolas Behr

canção do exílio facilitada

05/09/2016

Lá?
Ah!

Sabiá…
Papá…
Maná…
Sofá…
Sinhá…

Cá?
Bah!

José Paulo Paes