soneto

07/08/2020

Uma palavra, outra mais, e eis um verso,
Doze sílabas a dizer coisa nenhuma.
Esforço, limo, devaneio e não impeço
Que este quarteto seja inútil como a espuma.

Agora é hora de ter mais seriedade,
Senão a musa me dará o não eterno.
Convoco a rima, que me ri da eternidade,
Calço-lhe os pés, lhe dou gravata e um novo terno.

Falar de amor, oh pastora, é o que eu queria,
Mas os fados já perseguem teu poeta,
Deixando apenas a promessa da poesia,

Matéria bruta que não cabe no terceto.
Se o deus frecheiro me jogasse a sua seta,
Eu tinha a chave pra trancar este soneto.

Antonio Carlos Secchin

lambari

05/08/2020

lambari é um tipo
de pássaro aquático
que vive
dentro da terra
mas sonha em voar
como os peixes

Nicolas Behr

o coração

03/08/2020

O coração é o colibri dourado
Das veigas puras do jardim do céu.
Um – tem o mel da granadilha agreste,
Bebe os perfumes, que a bonina deu.

O outro – voa em mais virentes balsas,
Pousa de um riso na rubente flor.
Vive do mel – a que se chama – crenças –,
Vive do aroma – que se diz – amor. –

Castro Alves

eu, militante, me confesso

31/07/2020

O que eu sei sobre a causa que me carcome
O tempo e os nervos é de orelhada. O que não
Sei não dou conta de procurar saber nem mesmo

Por alto. Discordo de tudo com veemência e estri-
Dência para não ter que refletir sobre o que ouço
Ou leio. Empáfia poderia ser o nome do país de

Onde eu nunca saí de todo. Trago de lá a mania
De andar olhando só para a frente (para trás?) &
Praticamente todas as solidões do mundo.

Ricardo Aleixo

trinteoito

29/07/2020

Marcelo Sahea

aqui

27/07/2020

aqui

nesta pedra

alguém sentou
olhando o mar

o mar
não parou
pra ser olhado

foi mar
pra tudo quanto é lado

Paulo Leminski

linhas paralelas

24/07/2020

Um presidente resolve
Construir uma boa escola
Numa vila bem distante.
Mas ninguém vai nessa escola:
Não tem estrada para lá.
Depois ele resolveu
Construir uma estrada boa
Numa outra vila do Estado.
Ninguém se muda pra lá
Porque lá não tem escola.

Murilo Mendes

furos de fuzil atravessam

22/07/2020

Furos de fuzil atravessam a cidade sitiada
onde a exceção é a regra
ondas arrastam o resto
arrasam nos becos
se arrastam a esmo
e esmolam no sinal.
Funis separam os bens do mal
Funis dividem os bons e o não
Funis cercam negros com fuzis
80 tiros nos bandidos
80 tiros nos banidos
na mirada ira certeira
na cegueira das mãos
que assassinam.
Os braços do Cristo
ergueram um corpo
da Guanabara
para o infinito
e naquele rito
fúnebre
outros tantos
pobres meninos
vieram extintos.
Menos augúrio que urro
a bala cravada na vala
no barro a maré escura
o charco em ossuário
de vidas cruas.
Nas ruas, capitães
do mato do estado
ainda caçam escravos.

Ângela Castelo Branco

meio-dia

20/07/2020

Choque de claridades
Palmas paradas
Brilhos saltando nas pedras enxutas.
Batendo de chofre na luz
as andorinhas levam o sol na ponta das asas!

Ronald de Carvalho

rogando pragas

17/07/2020

Dizia o velho Agostinho
que este mundo é cheio de arte
e se encontra em toda parte
pedaços de mau caminho
um pessoal meu vizinho,
sem amor e sem moral,
atrás de fazer o mal,
para feijão cozinhar,
começaram a roubar
as varas do meu quintal.

Toda noite e todo dia
iam as varas roubando
e eu já não suportando
aquela grande anarquia
pois quem era eu não sabia
pra poder denunciar,
com aquele grande azar
vivia de saco cheio,
até que inventei um meio
pra do roubo me livrar

Eu dei a cada freguês,
com humildade o perdão
e lancei a maldição
em quem roubasse outra vez
e com muita atividez
na minha pena peguei,
umas estrofes rimei
sobre as linhas de uns papéis
rogando pragas cruéis
e lá na cerca botei.

Deus permite que o safado,
sem-vergonha ignorante,
que roubar de agora em diante
madeira do meu cercado,
se veja um dia atacado
com um cancro no toitiço,
toda espécie de feitiço e
em cima do mesmo caia
e em cada dedo lhe saia
um olho de panariço

O santo Deus de Moisés
lhe mande bexiga roxa
saia carbúnculo na coxa,
cravo na sola dos pés,
sofra os incômodos cruéis
da doença hidropsia
icterícia e anemia
tuberculose e diarreia
e a lepra da morfeia
seja a sua companhia

Deus lhe dê reumatismo
com a sinusite crônica
a sezão, o impaludismo
e os ataques da bubônica,
além de quatro picadas
de quatro cobras danadas
cada qual a mais cruel
de veneno fatal
a urutu, a coral
jararaca e cascavel

Eu já perdoei bastante
o que puderam roubar,
para ninguém censurar
que sou muito extravagante
mas de agora por diante,
ninguém será perdoado,
Deus queira que cão danado
um dia morda na cara
de quem roubar uma vara
na cerca do meu cercado

E o que não ouvir o rogo
que faço neste momento
tomara que tenha aumento
como correia ao fogo,
dinheiro em mesa de jogo
e cana no tabuleiro
e no dia derradeiro
a vela pra sua mão
seja um pequeno tição
de vara de marmeleiro.

Patativa de Assaré