no centenário de Mondrian

22/07/2016

1 OU 2

Quando a alma já se dói
do muito corpo a corpo
com o em-volta confuso,
sempre de mais, amorfo,

se dói do lutar contra
o que é inerte e a luta,
coisas que lhe resistem
e estão vivas, se mudas;

para chegar ao pouco
em que umas poucas coisas
revelem-se, compactas,
recortadas e todas,

e chegar entre as poucas
à coisa-coisa e ao miolo
dessa coisa, onde fica
seu esqueleto ou caroço;

que então tem de arear
ao mais limpo, ao perfil
asséptico e preciso
do extremo do polir,

ou senão despolir
até o texto da estopa
ou até o grão grosseiro
da matéria de escolha;

pois quando a alma já arde
da afta ou da azia
que dá a lucidez brasa,
a atenção carne-viva,

quando essa alma já tem
por sobre e sob a pele
queimaduras do sol
que teve de incender-se,

e começa a ter cãibras
pelo esforço de dentro
de manter esse sol
que lhe mantém o incêndio,

centrada na ideia-fixa
de chegar ao que quer
para o quê que ela faz
seja como quer ser:

então, só esse objecto
de que foste capaz
apaga as equimoses
que a carne da alma traz,

e apaga na alma a luz,
ácida, do sol de dentro:
mostrando-lhe o impossível
que é atingir teu extremo.

2 OU 1

Quando a alma se dispersa
em todas as mil coisas
do enredado e prolixo
do mundo à sua volta,

ou quando se dissolve
nas modorras da música,
no invertebrado vago,
sem ossos, de água em fuga,

ou quando se empantana
num alcalino de mais
que adorme o ácido vivo
que rói porém que faz,

ou quando a alma borracha
tem os músculos lassos
e é já incapaz de molas
para atirar-se ao faço:

então, só esse objecto
de que foste capaz,
de que excluíste até
o nada, por de mais,

e onde só conservaste
o léxico conciso
de teus perfis quadrados
a fio, e também fios,

pois que, por bem cortados,
ficam cortantes ainda
e herdam a agudeza
dos fios que os confinam,

então, só esse objecto
de cores em voz alta,
cores em linha reta,
despidas, cores brasa,

só teu objecto claro,
de clara construção,
desse construir claro
feito a partir do não,

objecto em que ensinaste
a moral pela vista
deixando o pulso manso
dar mais tensão à vida,

só esse objecto pode,
com sua explosão fria,
incitar a alma murcha,
de indiferença ou acídia,

e lançar ao fazer
a alma de mãos caídas,
e ao fazer-se, fazendo
coisas que a desafiam.

João Cabral de Melo Neto

1972

noite e dia

18/07/2016

Não me agradam
essas coisas que despertam
barulho, susto, água fria
tudo na minha cara
mas nenhum sonho por perto.

Não me agradam
essas coisas que adormecem
vazio, escuro, calmaria
tudo que lembra morte
quando nada mais dá certo.
Não me agradam essas
coisas sem poesia
uma noite só noite
um dia só dia.

Alice Ruiz

o meu olhar

15/07/2016

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.  Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender …

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)                  
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar …
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

Alberto Caeiro

fogo posto

11/07/2016

Agora, que te lembro
já o trigo dorme no silêncio das arcas
e os frutos tombam maduros nos pomares.
Há um tempo talhado para todos os amores
e quando me vires chegar
por restolhos
onde outrora esvoaçaram borboletas
não julgues crime
se atear fogo no teu peito

é apenas a súplica de um cobarde
que pensava ser deus.

Helena Figueiredo

saravá, Poetinha

08/07/2016

Porque a terra está úmida
Porque o céu está limpo
Porque o óvulo vinga
Porque o fruto é vermelho
Porque o favo respinga
Porque a mata respira
Porque o mar espreguiça
Porque a lua é castiça
Porque o barco navega
Porque o vento não nega
Porque o corpo está ávido
Porque o sonho está crédulo
Porque o beijo está cúpido
Porque o mágico é lúdico.
E olha que hoje nem é sábado…

Flora Figueiredo

a árvore

04/07/2016

na primeira vez
eu passei por ela
e sorri

na segunda vez
ela passou por mim
chorei

Ozias Filho

quase

01/07/2016

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo … e tudo errou…
– Ai a dor de ser – quase, dor sem fim…
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…

Momentos de alma que, desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Mário de Sá-Carneiro

riobaldo diadorim

27/06/2016

RiobaldoDiadorim_André ValliasAndré Vallias

a palavra tarda

24/06/2016

a palavra tarda
na longa a espera
força-se o parto
nasce a quimera

a palavra tarda
sê paciente
embala a tarde
crê no poente

a palavra chega
de peito aberto
pássaro novo
com rumo certo

Helena Figueiredo

incontrolável

20/06/2016

Tem dia de manga rosa,
tem dia de limão azedo;

tem tempo de gardênia
e tempo de galho seco;

tem hora de salmo
e hora de maledicência;

tem palavra de falar
e palavra de ficar quieta.

É tudo poesia na palma da mão.

Flora Figueiredo


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 334 outros seguidores