roda da fortuna

27/04/2015

roda da fortuna giramundo
quem perdeu agora vai ganhar
nada do que foi e sobretudo
sei que agora o mundo vai mudar

quem perdeu a vez e ficou mudo
vai poder se manifestejar
quem ficou sem voz ou sem agudos
essa é a sua hora de cantar

essa ciranda vai e vem de banda
como fosse onde na beira do mar
essa ciranda é sonar e sonda
bate e volta pronta ela é pendular

a vida é o sumo do absurdo
tudo pode, basta duvidar
os sinais trocados num segundo
e o que era menos vem somar

do espelho d´água ao mais fundo
da escuridão à luz solar
do trabalhador ao vagabundo
e a terra gira em rota circular

Makely Ka

bryaxis,11

24/04/2015

A discreta datilografia noturna
aclara ainda mais o papel branco
que a recebe: retira do escuro
do pensamento por meio das teclas pretas
as linhas do texto cerrado do raciocínio.

Datiloscrito em tinta negra iluminando
melhor do que a lâmpada da mesa acesa
a textura da literatura inteira
que aparece escorreita na folha que sai
do ânimo, que azeitou a máquina.

Armando Freitas Filho

a cor da liberdade

20/04/2015

deixar na pele o sol da servidão
é possível
deixar no corpo o frio da solidão
é possível

é possível apagar o banzo que é sinete
no coração
trocar de nomes, idioma, país
é possível

até achar que a lua do senegal
tem a mesma claridade do luar
que penetra sorrateiro e clandestino
nos porões da senzala

tudo é possível

impossível é calar no homem
o vento da liberdade

Ronald Claver

saber e prazer

17/04/2015

[Saber]

Nada é mais
Ao mesmo tempo

Tão pretenso
E tão capaz!

[Prazer]

Nada é mais
Ao mesmo tempo

Tão intenso
E tão fugaz!

João Gimenez

percurso

13/04/2015

Em cada ser, repara
a dança
que, na sombra, prepara a
mudança

Em tudo quanto muda,
alcança
aquilo que não muda na
mudança.

Duda Machado

o espelho

10/04/2015

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

Mia Couto

quanto do erro é acerto

06/04/2015

Sem que fabriquemos
na procura do cristalino
o tão-somente incolor,

sem que, à procura do estrito,
bebamos a estricnina
do sensabor,

quanto de erro
é acerto
na fórmula de fingirmos?

Eucanaã Ferraz

adeus a meng haoran

03/04/2015

A oeste do pavilhão da Grua Amarela,
        despedimo-nos, velho amigo.
Entre as flores e a bruma de março,
        desce rumo à aldeia de Yang.
A vaga silhueta de tua solitária vela
        desaparece no espaço esmeralda,
e só resta o Grande Rio
        a correr para os confins do céu.

Li Bai

o templo na montanha

30/03/2015

Passo a noite
       no Templo da Montanha.
Se estender a mão,
       posso tocar as estrelas,
mas falar não ouso:
       tenho medo de incomodar
os que moram no céu.

Li Bai

o homem; as viagens

27/03/2015

O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.

Lua humanizada: tão igual à terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte – ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro – diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em vênus,
Vê o visto – é isto?
Idem
Idem
Idem.

O homem funde a cuca se não for a júpiter
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
Do solar a col-
Onizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver.

Carlos Drummond de Andrade


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