poeira sem estrelas

28/08/2015

o mato dentro onde nasci
é oco,
como ocos são os núcleos
das células:
vazios imensos inexpugnáveis.

as rachaduras nas paredes, no chão,
nos vidros canelados,
parecem nos condenar
a um futuro sombrio.
nada pequenas,
e muitas.
os vizinhos clamam do mesmo mal.

quem chega à província
pode acreditar serem abalos sísmicos.
mas sem demora
descobre a causa.

(descobrir causas é o que nos move,
mas chegando à prima delas
o que fazer com a parede
que se interpõe em nosso caminho?)

me permito seguir
por perceber que,
malgrado os tremores cotidianos,
por todas fissuras visíveis,
vão nascendo vagarosamente
musgos, brotos de esperança,
minúsculas flores azuis.

azuis como a causa de tudo isso:
por um par de trilhos
que nos conecta ao mar
espalhamos azul
por todo planeta.

o que nos custa
frestas, frinchas, rachaduras,
buracos, crateras
– dizem, à boca miúda,
até nas almas.

(sonho um dia instalem
sensores que possam
reduzir a uma escala
o quanto balançam as paredes)

tudo relato por intuir
que mesmo nas almas
e na terra devastada
ainda brotarão flores de maio
azuis
para enfeitar o cabelo de minha amada.

Getúlio Maia

falar contigo

24/08/2015

Falo contigo
e é como se falasse
com essa qualidade
de luz das árvores

É perfurar o verde
e emergir do outro lado
(o úmido porvir
dos vegetais).

Falo contigo
e compreendo o estado
dos sons que surgem
à noite, noite-em-claro.

Falo contigo
e entendo
o que não tem sentido.

Amor é assim, palavra:
lume comovido.

Renata Pallottini

voltar a encontrar-se

21/08/2015

Dos nossos medos
nascem as nossas coragens,
e em nossas dúvidas,
vivem as nossas certezas.
Os sonhos anunciam
outra realidade possível,
e os delírios outra razão.
Nos descaminhos
esperam-nos surpresas,
porque é preciso perder-se
para voltar a encontrar-se.

Eduardo Galeano

encantada

17/08/2015

I
Você sabia que a lua
Ainda não foi visitada?
Que há sempre uma lua nova
… Dentro de outra, e encantada

É lá que vivem as graças
Que nesta quadra de ano
A gente sonha e deseja
A todo gênero humano

Mas a lua, preguiçosa,
Nem sempre atende a pedida?
A gente pede assim mesmo
Até melhorar a vida

II
É tempo de pesquisar no tempo
Uma estrela nova, um sorriso;
De dizer à nuvem: sê escultura.
E a escultura: sê nuvem.

Tempo de desejar, tempo de pensar
Madura e docemente o bom de acontecer
(e mesmo não acontecendo fica desejado),
pássaro-mensageiro, traço
entre vida e esperança
como satélite no espaço.

III
Na volta da esperança
um princípio de vida:
ser outra vez criança
por toda, toda vida.

Carlos Drummond de Andrade

desafio

14/08/2015

via bloqueada
instiga o teimoso viajante
a abrir nova estrada.

Helena Kolody

lundu do escritor difícil

10/08/2015

Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.
 
Cortina de brim caipora,
Com teia caranguejeira
E enfeite ruim de caipira,
Fale fala brasileira
Que você enxerga bonito
Tanta luz nesta capoeira
Tal-e-qual numa gupiara.

Mas gaúcho maranhense
Que pára no Mato Grosso,
Bate este angu de caroço
Ver sopa de caruru;
A vida é mesmo um buraco,
Bobo é quem não é tatu!
 
Eu sou um escritor difícil,
Porém culpa de quem é!…
Todo difícil é fácil,
Abasta a gente saber.
Bajé, pixé, chué, ôh “xavié”
De tão fácil virou fóssil,
O difícil é aprender!
 
Virtude de urubutinga
De enxergar tudo de longe!
Não carece vestir tanga
Pra penetrar meu caçanje!
Você sabe o francês “singe”
Mas não sabe o que é guariba?
— Pois é macaco, seu mano,
Que só sabe o que é da estranja.

Mário de Andrade

fragmento do cadastro

07/08/2015

Entretanto morriam aos pacotes como
algas em maré baixa
Eles morriam aos cachos como a vinha na
cuba
Eles morriam qual medusas sobre a praia
Tal se os germanos os irmãos fossem nascidos
Só pra inventar aquelas novas hecatombes
Uma incrível maneira de nos fazer morrer

Os cantoneiros olhos de noite e nevoeiro
Carbonizaram os montões de pele mortas
Em novembro em meio aos restos das castanheiras

E em toda parte
O Hessen a Baviera e a Saxônia e a Prússia
Onde as aldeias têm nome de ossário

Michel Deguy

admirável pálpebra do dia

03/08/2015

Admirável pálpebra do dia
estranha ao poeta que,
insone, esgueira-se sob
a fina chuva de melancolia

a perseguir palavras
como se pérolas
incrustadas na pele,
no mármore, na pupila

e nem percebe a estatuária
disposta na praça
de cuja proa partem
imagens vazias

de modernidades tardias

Fabrício Marques

cataclismo

31/07/2015

ostra,
cismo
sobre-
tudos:

o fulgor
da aurora
boreal,

a solidão
das horas
mudas,

o esplendor
do vulcão
em chamas.

no negror
das abissais,
cataclismo.

esmurro
muros,
em vão.

Getúlio Maia

memória

27/07/2015

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão
 
Carlos Drummond de Andrade


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