párias

07/12/2016

Somos poucos
cada vez menos

Somos loucos
cada vez mais

Somos além
dessa matéria óbvia
que nos faz dizer
– tá tudo bem

Celso Borges

tem que ter

05/12/2016

Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa – a inteira – cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa conseqüência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como é que se põe, em teatro, para cada representador – sua parte, que antes já foi inventada, num papel…

Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas – 1956

as pessoas sensíveis

02/12/2016

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

“Ganharás o pão com o suor do teu rosto”
Assim nos foi imposto
E não
“Com o suor dos outros ganharás o pão”

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem

Sophia de Mello Breyner Andresen

hai-kai

30/11/2016

Fim da tempestade
o pote de ouro
é o próprio arco-íris

Laís Chaffe

entender

28/11/2016

não entendo de muitas coisas
de poesia eu não entendo
eu só escrevo não entendo
de religião eu só rezo
nem entendo de filosofia eu só
penso e também não entendo
de ar eu só respiro sem entender
do sono eu só durmo e nem entendo
dessa vida eu só morro de amar-te
eu não entendo só amo-te
sem entender de mim apenas sendo-me

Bernardo Caldeira

para ter certeza

25/11/2016

para não morrer
em desterro escrevo
leio para ter certeza
de que no livro alheio
permaneço vivo

João Evangelista Rodrigues

quero

23/11/2016

Quero 1 verso
Q possibilite
q o salto
não seja
mais sedutor
q o poema

Aroldo Pereira

dois vultos

21/11/2016

Dois vultos no templo:

o que achou o céu
e o que se perdeu

qual deles é o pássaro
qual deles sou eu?

Helena Figueiredo

soneto da vida nova

18/11/2016

Tão discreta e gentil que me afigura
ao saudar, quando passa, a minha amada,
que a língua não consegue dizer nada
e a fitá-la, o olhar não se aventura.

Ela se vai sentindo-se louvada
envolta de modéstia nobre e pura.
Parece que do céu essa criatura
para atestar milagre foi baixada.

Ao que a contempla infunde tal prazer,
pelos olhos transmite tal doçura,
que só quem prova pode compreender.

E assim, parece, o seu semblante inspira
um delicado espírito de amor
que vai dizendo ao coração, suspira

Dante Alighieri

de vento

16/11/2016

que batuta rege os sons
das latarias
nas noites de vento?

Sandra Santos