a cavalgada

08/12/2017

A lua banha a solitária estrada…
Silêncio… Mas além, confuso e brando,
O som longínquo vem-se aproximando
Do galopar de estranha cavalgada…

São fidalgos que voltam da caçada;
Vêm alegres, vêm rindo, vêm cantando;
E as trompas a soar vão agitando
O remanso da noite embalsamada…

E o bosque estala, move-se, estremece…
Da cavalgada o estrépito só aumenta
Perde-se após no centro da montanha…

E o silêncio outra vez soturno desce…
E límpida, sem mácula, alvacenta,
A lua a estrada solitária banha.

Raimundo Correia

 

Anúncios

dulcineia del toboso

06/12/2017

              “(…)
            – Se é, pois, essencial que todo cavaleiro andante seja enamorado – disse o caminhante –, deve a gente supor que vosmecê também o seja, já que é da profissão. E se não se preza vosmecê de ser tão secreto como Dom Galaor, com todo o empenho lhe suplico, no meu nome e no de toda esta companhia, que nos revela o nome, a pátria, a qualidade e a formosura da sua dama. E ela há de se dar por feliz de que todo o mundo saiba que é querida e servida por um cavaleiro tal como parece sê-lo vosmecê.
              Aqui soltou Dom Quixote um grande suspiro, e disse:
            – Não poderei afirmar se a minha doce inimiga aprecia ou não, que o mundo saiba que a sirvo; só sei dizer (respondendo ao que tão respeitosamente se me pede) que o seu nome é Dulcineia, sua pátria Toboso, um lugar da Mancha: sua qualidade, pelo menos, há de ser a de princesa, já que é rainha e senhora minha; sua formosura, sobre-humana, pois nela se fazem verdadeiros todos os impossíveis e quiméricos atributos da beleza, que os poetas emprestam às suas damas; seus cabelos são de ouro; sua testa, campos elísios; suas sobrancelhas, arcos celestes; seus olhos são sóis, suas faces rosas, seus lábios corais; pérolas os seus dentes, alabastro o seu colo, mármore o seu peito, marfim suas mãos, de neve sua brancura; e as partes que à vista humana encobriu a honestidade são tais que, segundo penso e entendo, só a discreta consideração pode encarece-las, sem compará-las.
             (…)”

Miguel de Cervantes

 

melhor seria

04/12/2017

Podaste à vida ramos sem seiva
sonhos despidos, mágoas de amor
regaste tudo com as lágrimas e o fogo
e das cinzas, só o vento foi senhor.

Melhor seria
que mergulhados na terra os deixasses
ao embalo das chuvas
poiso das aves do ciclo novo

seriam hoje raiz profunda, braços florindo
e logo mais, ao entardecer
um doce néctar tocando os lábios
do moribundo que quer viver.

Helena Figueiredo

pedra nua

01/12/2017

extrair da pedra tudo
o que pedra não for
tudo que a ela pelo tempo cego
ao seu exterior
se aderiu
por força alheia
forma e peso
volume e cor
tudo que se
pedra não for
nem areia ou cal
só de silêncio
por dentro
reste de cada palavra oca
a pele seca
a pedra nua no vazio campo de silêncio
só seu eco surdo ecoa

João Evangelista Rodrigues

autobiografía

29/11/2017

Gloria Fuertes nació en Madrid
a los dos días de edad,
pues fue muy laborioso el parto de mi madre
que si se descuida muere por vivirme.
A los tres años ya sabía leer
y a los seis ya sabía mis labores.
Yo era buena y delgada,
alta y algo enferma.
A los nueve años me pilló un carro
y a los catorce me pilló la guerra;
A los quince se murió mi madre, se fue cuando más falta me hacía.
Aprendí a regatear en las tiendas
y a ir a los pueblos por zanahorias.
Por entonces empecé con los amores,
– no digo nombres -,
gracias a eso, pude sobrellevar
mi juventud de barrio.
Quise ir a la guerra, para pararla,
pero me detuvieron a mitad del camino.
Luego me salió una oficina,
donde trabajo como si fuera tonta,
– pero Dios y el botones saben que no lo soy -.
Escribo por las noches
y voy al campo mucho.
Todos los míos han muerto hace años
y estoy más sola que yo misma.
He publicado versos en todos los calendarios,
escribo en un periódico de niños,
y quiero comprarme a plazos una flor natural
como las que le dan a Pemán algunas veces.

Gloria Fuertes

dança

27/11/2017

Sim, existe a dança:
o corpo solto avança
e recua leve nos passos
matemáticos, um, dois, um,
como se fosse mais fácil
viver num tempo menor,
brincadeira de criança
que sabe de cor o roteiro
e ri na hora marcada.

Fora da dança, o infinito
nos convida, nos seduz
com passos improváveis,
mas temos dois olhos,
apenas duas pernas,
e, sobretudo, duas mãos
onde só cabe um punhado
de estrelas.

Ricardo Silvestrin

fria geografia

24/11/2017

se mergulho no rio em rio
me transformo
com ele não me confundo
corpo e alma o rio mesmo
profundo ou raso me alicia

do rio me distingo

se seu nome pronuncio
afago seu coração de abismos
minha sede nunca se alivia

não há como apenas pelo nome
fixar seu canto
interromper o fluxo
de sua vasta e fria geografia

João Evangelista Rodrigues

a veces quiero preguntarte cosas

22/11/2017

A veces quiero preguntarte cosas,
y me intimidas tú con la mirada,
y retorno al silencio contagiada
del tímido perfume de tus rosas.

A veces quise no soñar contigo,
y cuanto más quería más soñaba,
por tus versos que yo saboreaba,
tú el rico de poemas, yo el mendigo.

Pero yo no adivino lo que invento,
y nunca inventaré lo que adivino
del nombre esclavo de mi pensamiento.

Adivino que no soy tu contento,
que a veces me recuerdas, imagino,
y al írtelo a decir mi voz no siento.

Gloria Fuertes

só, eu

20/11/2017

Entardeceu…
Anjos de asas quebradas
Ladeiras na ida e na volta
Anoiteceu e continuo só, eu

Carlos Nagib Monteiro

zumbi

17/11/2017

Eu-Zumbi
Rei de Palmares
tenho terreiros e tambores
e danço a dança do Sol.

Eu-Zumbi enfrento o vento
que ainda tarda
dessas cartas de alforria.

Eu-Zumbi jogo por terra
a caneta de ouro
de todas as Leis-Áureas.

Eu-Zumbi
Rei de Palmares
Tenho terreiros
e tambores
e danço a dança do Sol.

Adão Ventura