monólogo do macaco

Nascido aqui na jaula, eu, babuíno,
o primeiro que aprendi foi: o mundo
por onde quer que se olhe, tem
    grades e grades.
Não consigo ver nada
que não seja entigrecido por grades.
Dizem: há macacos livres.
    Eu só vi
infinitos macacos prisioneiros
    sempre entre grades.
    E de noite sonho
com a selva ouriçada por grades.
Vivo apenas para ser visto.
Chega a multidão chamada gente.
Gostam de me atiçar. Se divertem
quando a minha fúria faz as grades ressoarem.
    Minha liberdade é minha jaula.
    Só morto
            me tirarão destas grades brutais.

José Emílio Pacheco

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