elegia 18

Mais de cem relógios
nas paredes da sala
tocam as horas adiante.

Um relógio, entanto,
invertido em sua ronda
anda com os ponteiros
voltando para o ontem.

Vibram os relógios
em coro, tiquetaque,
e taquetique ele torna
ao refluxo do tempo.

Seus ponteiros pacientes
passo a passo pingando
gota a gota destilam
incensos na lembrança.

Hipnotizam, acenam
para o regresso do homem
aos olhos da criança.

O relógio fantasma
em sentido leste-oeste
impõe com jornada
viajar o viajado.

Vou reviver lugares,
essas visões familiares
presentes no passado.
São valores perenes
longe e bem lembrados:

as manhãs ressoando
veredas da juventude,
as noites orvalhando
trilhas lá da infância.

Aonde mais, tão leve,
me quer levar o relógio
em seu contrário tempo?

Um nevoeiro me enleia
nuvens me enovelam
no chão, amorosamente.

Vou fluir o rego-dágua
para mover o monjolo
em seu compasso longo.

Reerguer os galos
revoar os gaviões
patear os cavalos
e as éguas no rebanho.

Vou uivar os cães
ruminar os bois
adormecer no pai
e no calor da mãe.

Mas, ao final, é este
o relógio do sonho:

não acompanha a sombra
nem o clarão do dia
ou o soar do vento.

No amplo da sala
ponteiam-se as horas
compassadamente.

Libério Neves

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