cinco andares acima

Escuro ainda.
O pássaro desconhecido está em seu galho sempre.
O cachorrinho do vizinho late dormindo
em tom de pergunta, uma vez só.
Talvez dormindo, também, o pássaro indaga
uma ou duas vezes, com um vibrato.
Perguntas – se é isso o que são –
respondidas de modo simples, direto,
pelo próprio dia.

Manhã enorme, ponderosa, meticulosa;
luz gris riscando cada galho nu,
cada ramo fino, ao longo de um lado,
criando uma árvore outra, de veios vítreos…
O pássaro continua lá. Agora parece que boceja.

O cachorrinho preto corre em seu quintal.
A voz do dono se eleva, severa:
“Você não tem vergonha?”
O que foi que ele fez?
Ele saltita alegre para cima e para baixo;
corre em círculos sobre as folhas caídas.

Claro está que ele não tem vergonha alguma.
Ele e o pássaro sabem que tudo foi respondido,
tudo resolvido,
não é preciso perguntar de novo.
– Ontem se fez hoje com tal leveza!
(Um ontem para mim quase impossível de levantar.)

Elizabeth Bishop

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