poeira sem estrelas

o mato dentro onde nasci
é oco,
como ocos são os núcleos
das células:
vazios imensos inexpugnáveis.

as rachaduras nas paredes, no chão,
nos vidros canelados,
parecem nos condenar
a um futuro sombrio.
nada pequenas,
e muitas.
os vizinhos clamam do mesmo mal.

quem chega à província
pode acreditar serem abalos sísmicos.
mas sem demora
descobre a causa.

(descobrir causas é o que nos move,
mas chegando à prima delas
o que fazer com a parede
que se interpõe em nosso caminho?)

me permito seguir
por perceber que,
malgrado os tremores cotidianos,
por todas fissuras visíveis,
vão nascendo vagarosamente
musgos, brotos de esperança,
minúsculas flores azuis.

azuis como a causa de tudo isso:
por um par de trilhos
que nos conecta ao mar
espalhamos azul
por todo planeta.

o que nos custa
frestas, frinchas, rachaduras,
buracos, crateras
– dizem, à boca miúda,
até nas almas.

(sonho um dia instalem
sensores que possam
reduzir a uma escala
o quanto balançam as paredes)

tudo relato por intuir
que mesmo nas almas
e na terra devastada
ainda brotarão flores de maio
azuis
para enfeitar o cabelo de minha amada.

Getúlio Maia

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