mapa

    Plano como a mesa
    na qual está colocado.
    Debaixo dele nada se move
    nem busca vazão.
    Sobre ele —meu hálito humano
    não cria vórtices de ar
    e deixa toda a sua superfície
    em silêncio.

    Suas planícies, vales, são sempre verdes,
    os planaltos, montanhas, amarelos e marrons
    e os mares, oceanos, de um azul delicado
    nas margens fendidas.

    Tudo aqui é pequeno, próximo, acessível.
    Posso tocar os vulcões com a ponta da unha,
    acariciar os polos sem luvas grossas.
    Com um olhar posso
    abarcar cada deserto
    junto com o rio logo ali ao lado.

    Selvas são assinaladas com arvorezinhas
    entre as quais seria difícil se perder.

    No Ocidente e Oriente
    acima e abaixo do equador —
    assentou-se um manso silêncio.
    Pontinhos pretos significam
    que ali vivem pessoas.
    Valas comuns e súbitas ruínas
    não cabem nesse quadro.

    As fronteiras dos países mal são visíveis
    como se hesitassem entre ser e não ser.

    Gosto dos mapas porque mentem.
    Porque não dão acesso à dura verdade.
    Porque, generosos e bem-humorados,
    estendem-me na mesa um mundo
    que não é deste mundo.

Wisława Szymborska

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