matéria de poesia – 2

Muita coisa se poderia fazer em favor da poesia:

a – Esfregar pedras na paisagem.

b – Perder a inteligência das coisas para vê-las.
       (Colhida em Rimbaud)

c – Esconder-se por trás das palavras para mostrar-se.

d – Mesmo sem fome, comer as botas. O resto em Carlitos.

e – Perguntar distraído: – O que há de você na água?

f – Não usar colarinho duro. A fala de furnas bre-
      nhentas de Mário-pega-sapo era nua. Por isso as
      crianças e as putas do jardim o entendiam.

g – Nos versos mais transparente enfiar pregos sujos,
       teréns de rua e de música, cisco de olho, moscas  de pensão…

h – Aprender a capinar com enxada cega.

i – Nos dias de lazer, compor um muro podre para os caramujos.

j – Deixar os substantivos passarem anos no esterco,
      deitados de barriga, até que eles possam carrear
      para o poema um gosto de chão – como cabelos
      desfeitos no chão – ou como o bule de Braque
–     áspero de ferrugem, mistura de azuis e ouro
–     um amarelo grosso de ouro da terra, carvão de folhas.

l – Jogar pedrinhas nim moscas…

….

Manoel de Barros

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