carcará em ruína

Feitiço lampejante que fulmina
Ao rasgar estrela e orvalho minha sina
Frágil, ancorada, mestiça, manca e feia
Maldição profetiza a cinza teia

Assim, como espreito este raso
Aguardo furtivo o gato negro do acaso
Carregando consigo a lâmina do meu fim
Diga-me adubo o que será de mim

Sepulcro sem reza, nunca ser flor
Jamais flor, porque perfumaria o meu horror
Jamais rosas, jamais jasmim, jamais manacá
Não tive flor aqui, não terei lá

Fui regado para florescer o ódio
Noutros tantos rancores que dariam um pódio
Nominando-me o campeão do sentimento trágico
Quase grego helênico e dramático

Abasteci de sensações que não desejei
Molharam-me a boca seca e transformaram-me em rei
As emoções iludiam-me e eu sonhava alcançar o topo
Fazendo desta história meu vão escopo

Até que a sorte acabou repentina
Despenquei lá de cima, como um carcará em ruína
Estava machucado, quebrado, e inteiramente falido
Fui alvejado, caçado e atingido

Quando retomei do quase eterno coma
Percebi que não haviam tratado do principal sintoma
A ganância e os sentimentos podres voltaram a afligir
Nesse momento desejei parar de sentir

Somente existi desde então sem ambição
Apenas continuando uma caminhada, sem nenhuma emoção
Como um inseto a contar os segundos a espera da aranha
Nas sombras esperando a última façanha

Daniel Cruz

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