Islândia e a luz

No extremo norte da Islândia, a partir de determinada altura do ano, eis o que sucede: luz natural interminável! Às quatro da manhã começa o sol em ato de profissão iluminadora, e só sai de serviço perto das onze da noite. O escuro torna-se raridade, a noite fica quase sinónimo de continuação firme de uma iluminação central. Há mesmo momentos em que o sol da meia-noite se torna um facto, e não uma expressão de filme.

Pois sim, o certo é que depois de anos sucessivos com a saúde dos habitantes a deteriorar-se – excesso de sol, excesso de sol! – as centrais elétricas adaptaram-se.

Agora, diz-se que produzem escuro em vez de luz, grandes quantidades de escuro. Como produzir escuro a partir da água? Eis uma questão. Qual a nova metodologia, que máquina foi necessário construir e inventar para que as centrais eléctricas começassem a distribuir subtilmente escuro pelas casas mas não só, escuro também pelas ruas, pelos espaços públicos – candeeiros, por exemplo, que escurecem uma grande área em seu redor. Que nova maquinaria foi necessária?

E sim, tal mudança foi abrupta.

– A quanto está o escuro por mês? – Pergunta alguém que chegou ali há pouco tempo e ainda não se actualizou nos preços. Pois sim, o facto é que o preço da escuridão aumenta a cada ano. É um bem cada vez mais raro. Demasiada luz, sol infernal que não para de fustigar as costas, a nuca, os olhinhos sensíveis e claros daqueles islandeses, habitantes-vítimas do excesso de luz em certas alturas do ano.

Nas casas, famílias recebem contas elevadíssimas de escuridão. É caro, murmuram, mas vale a pena.

Com a escuridão produzida pelo Estado ainda se conseguem manter as conversas íntimas, os murmúrios, os sussurros, os segredos que só podem mesmo ser ditos na ausência evidente de clareza na atmosfera.

No fundo, diz alguém, a amizade não foi suspensa da cidade nem do país graças às novas centrais eléctricas que produzem electricidade-escura; electricidade-íntima como já carinhosamente lhe chamam.

Gonçalo M. Tavares

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