os livros na estante

     Sento-me diante do computador e me sinto como se estivesse no meio de um palco, diante de uma plateia invisível. Essa sensação não me chega pelo que tenho à frente, a tela iluminada, mas pelo que me cerca. A estante de livros me rodeia como se fosse o público de uma arena exigindo melhor desempenho do ator/personagem.

     Os que mais se manifestam são os livros que ainda não li. Sabem que eu sei que são indispensáveis. Carregam em seu corpo histórias criadas por escritores brilhantes, que viveram várias épocas e conheceram a humanidade em todas as suas nuances. Eles não pesam sobre minhas costas, seu reclamar é leve. Digo-lhes que minha intenção é devorá-los em breve, tanto que os comprei e os guardei em lugar privilegiado. São obras-primas reconhecidas em todo o mundo, mas os afazeres do cotidiano e as exigências da vida moderna me impedem, como desejo, de fazer amor com eles, me envolver em suas tramas, em sua linguagem inovadora. É para já, eu prometo, mas eles me observam com olhar desconfiado. Afinal, passam-se os anos, minha existência já não será tão longa como antes e eu não tenho muito tempo a perder.

     Agora o vozerio vem dos poetas encadernados em volumes do lado direito. Sentem falta de minha voz recitando seus versos em voz alta ou em respeitoso silêncio reflexivo. Mas eu não estou tão relaxado assim, busco argumentar com Drummond, Bandeira, Cabral, Lorca, Pessoa, Cecília e tantos outros que me indicam caminhos de encantamento. A poesia se entranhou em mim de tal forma, que a tenho correndo em minhas veias pela mesma estrada onde circulam as pessoas queridas que fui recebendo ao longo dos dias. Também sou cobrado pelos poetas novos, pelos romancistas e contistas, que me acusam de gastar horas com jornais, me inteirando de fatos que não vão contribuir para clarear minhas ideias nem engrandecer minha alma.

     Olho com carinho para eles, os meus livros. Não estão arrumados como deveriam estar, nesse móvel imponente de ferro e madeira que os sustenta. Quase sou vaiado quando prometo pôr ordem na bagunça: se não encontro ocasião para me deliciar com o que eles trazem de belo na carne, razão de sua permanência em minha casa, para que projetar uma organização nas prateleiras? Livro não é para ser ordenado, isso não faz falta, livro é para ser lido.

     Convencido pelas vozes da razão, faço uma pilha com o que julgo essencial e ainda não desvendei. Percebo que há um rumor de contentamento entre os volumes escolhidos. Ou a alegria será minha? De outro cômodo do lar, canções à espera de serem criadas ensaiam um protesto. Busco acalmar o burburinho, tenho tempo para todos, e mergulho na prazerosa tarefa de buscar felicidade no universo das palavras.

Fernando Brant

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