Archive for the ‘Affonso Ávila’ Category

os remédios do amor e o amor sem remédio

12/06/2015

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OS REMÉDIOS DO AMOR E O AMOR SEM REMÉDIO SÃO AS
[[QUATRO COISAS E UMA SÓ
O PRIMEIRO REMÉDIO É O TEMPO
TUDO CURA O TEMPO, TUDO FAZ ESQUECER, TUDO GASTA,
[[TUDO DIGERE, TUDO ACABA,
ATREVE-SE O TEMPO A COLUNAS DE MÁRMORE, QUANTO
[[MAIS A CORAÇÕES DE CERA?
SÃO AS AFEIÇÕES COMO AS VIDAS, QUE NÃO HÁ MAIS CERTO
[[SINAL DE HAVEREM DE DURAR POUCO, QUE TEREM
[[DURADO MUITO
SÃO COMO AS LINHAS QUE PARTEM DO CENTRO PARA A
[[CIRCUNFERÊNCIA, QUE QUANTO MAIS CONTINUADAS,
[[TANTO MENOS UNIDAS
POR ISSO OS ANTIGOS SABIAMENTE PINTARAM O AMOR
[[MENINO, PORQUE NÃO HÁ AMOR TÃO ROBUSTO QUE
[[CHEGUE A SER VELHO
DE TODOS OS INSTRUMENTOS COM QUE O ARMOU A
[[NATUREZA, O DESARMA O TEMPO
AFROUXA-LHE O ARCO, COM QUE JÁ NÃO TIRA
EMBOTA-LHE AS SETAS, COM QUE JÁ NÃO FERE
ABRE-LHE OS OLHOS, COM QUE VÊ O QUE NÃO VIA
E FAZ-LHE CESCER AS ASAS, COM QUE VOA E FOGE
Y SÓLO DE EL AMOR QUEDA EL VENENO

2
O SEGUNDO REMÉDIO DO AMOR É A AUSÊNCIA
MUITAS ENFERMIDADES SE CURAM SÓ COM A MUDANÇA
[[DO AR, AMOR COM A DA TERRA
É O AMOR COMO A LUA, QUE EM HAVENDO TERRA EM MEIO,
[[DAI-O POR ECLIPSADO
E QUE TERRA HÁ QUE NÃO SEJA A TERRA DO ESQUECIMENTO,
[[SE VOS PASSASTES A OUTRA TERRA?
SE OS MORTOS SÃO TÃO ESQUECIDOS, HAVENDO TÃO POUCA
[[TERRA ENTRE ELES E OS VIVOS, QUE PODEM ESPERAR E
[[QUE SE PODE ESPERAR DOS AUSENTES?
SE QUATRO PALMOS DE TERRA CAUSAM TAIS EFEITOS,
[[TANTAS LÉGUAS QUE FARÃO?
EM OS LONGES PASSANDO DE TIRO DE SETA, NÃO CHEGAM
[[LÁ AS FORÇAS DO AMOR
ESTES PODERES TEM A VICE-MORTE, A AUSÊNCIA
OS QUE MUITOS SE AMARAM APARTARAM-SE ENFIM: E SE
[[TOMARDES LOGO O PULSO AO MAIS ENTERNECIDO,
[[ACHAREIS QUE PALPITAM NO CORAÇÃO AS SAUDADES,
[[QUE REBENTAM NOS OLHOS AS LÁGRIMAS E QUE SAEM
[[DA BOCA ALGUNS SUSPIROS QUE SÃO AS ÚLTIMAS
[[RESPIRAÇÕES DO AMOR
MAS SE TORNARDES DEPOIS DESTES OFÍCIOS DE CORPO
PRESENTE, QUE ACHAREIS?
OS OLHOS ENXUTOS, A BOCA MUDA, O CORAÇÃO SOSSEGADO
Y LA MÁS FUERTE CONQUISTA
EM ESCURO SE HACÍA

3
O TERCEIRO REMÉDIO DO AMOR É A INGRATIDÃO
E FERIDO O AMOR NO CÉREBRO E FERIDO NO CORAÇÃO,
[[COMO PODE VIVER?
QUIEN SUFFRIRA TAN ASPERA MUDANÇA
DEL BIEN AL MAL? O CORAÇON CANSADO!

4
É POIS O QUARTO E ÚLTIMO REMÉDIO DO AMOR E COM O
[[QUAL NINGUÉM DEIXOU DE SARAR O MELHORAR
[[DE OBJETO
DIZEM QUE UM AMOR COM OUTRO SE PAGA E MAIS CERTO
[[É QUE UM AMOR COM OUTRO SE APAGA
GRANDE COISA DEVE SER O AMOR, POIS SENDO ASSIM QUE
[[NÃO BASTAM A ENCHER UM CORAÇÃO MIL MUNDOS
[[NÃO CABEM EM UM CORAÇÃO DOIS AMORES
SE ACASO SE ENCONTRAM E PLEITEIAM SOBRE O LUGAR,
[[SEMPRE FICA A VITÓRIA PELO MELHOR OBJETO
O MAIOR CONTRÁRIO DE UMA LUZ É OUTRA LUZ MAIOR
AS ESTRELAS NO MEIO DAS TREVAS LUZEM E RESPLANDECEM
[[MAIS, MAS EM APARECENDO O SOL QUE É LUZ MAIOR
[[DESAPARECEM AS ESTRELAS
O MESMO LHE SUCEDE AO AMOR POR GRANDE E EXTREMADO
[[QUE SEJA
EM APARECENDO O MAIOR E MELHOR OBJETO, LOGO SE
[[DESAMOU O MENOR
AMOR

                                                                         HUMOR

Affonso Ávila

outono

01/06/2015

 

cantar o sol em solilóquio

.

Affonso Ávila

.

improviso

24/02/2014

A palavra justa
a mim não pertence,
busco-a nessa luta
em que não se vence,
trabalho diário,
pelo amor de sempre.
 
A palavra triste
a mim não pertence,
perco-a numa lide
cujo amor me vence,
trabalho diário
pelo amor de sempre.
 
A palavra louca
a mim não pertence,
bebo-a noutra boca
e ela me convence,
trabalho diário
pelo amor de sempre.
 
Affonso Ávila

a carne é fraca

27/05/2011

Com seus anteparos
– os pendões de breu
– o torso de barro
– os valos de medo
– os caules de chumbo
– o bolor de acaso
os néscios e o mundo
com seus anteparos.

Com sua argamassa
– as frontes do jugo
– as ocras da farsa
– as escândeas do uso
– as larvas do tédio
– as fráguas da graça
os ímpios e os céus
com sua argamassa.

Affonso Ávila

a arte de furtar

10/01/2011

O poeta declarou que toda criação é tributária de outras
    criações no permanente processo de linguagem da poesia

O poeta afirmou que todo criador é tributário de outros
    no processo de linguagem da poesia

O poeta se confessou um criador tributário de outros na
    linguagem da poesia

O poeta não esconde que sua poesia é tributária da linguagem
    de outros criadores

O poeta não esconde que sua poesia é influenciada pela
    linguagem de outros criadores

O poeta não faz segredo de que se utiliza da linguagem de
    outros poetas

O poeta fala abertamente que se apropria da linguagem de
    outros poetas

O poeta é um deslavado apropriador de linguagens

O POETA É UM PLAGIÁRIO

Affonso Ávila

com prudência

14/07/2009

dirija      com prudência
divirja     com prudência
divida     com prudência
desdiga   com prudência
desfira    com prudência
destinja  com prudência
desvista  com prudência
digira     com prudência
divirta    com prudência
desiniba com prudência

Affonso Àvila

Lançado em 13/06/2008