Archive for the ‘Affonso Romano de Sant'Anna’ Category

assombros

12/10/2015

Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

Affonso Romano de Sant’Anna

adágio de mendelsohn

14/03/2014

E como eu tivesse de sair do escritório
e o rádio tocasse o adágio do Concerto para Violino
de Mendelsohn
decidi deixar ligado o aparelho
embora ninguém estivesse ali para apreciar o que se ouvia.

Deixei os livros, o computador, objectos na estante, as canetas,
grampeadores, tesoura, folhas de papel em branco,
deixei tudo entregue
à responsabilidade musical de Mendelsohn.

Quando voltei daí a dez minutos
todos os objectos, absolutamente todos,
olhavam-me agradecidos
e até na paisagem da janela
havia uma densa, muda e imponderável melodia.

Affonso Romano de Sant’Anna

os bois

01/04/2013

De madrugada matam os bois
Que comemos ao amanhecer.

No entanto, eles tinham seus projetos:
comer a erva da manhã,
mascar o azul do entardecer
e cercados de aves e borboletas
ir adubando o dia por nascer.

Affonso Romano de Sant’Anna

amor vegetal

22/03/2013

Não creio que as árvores
fiquem em pé, em solidão, durante a noite.
Elas se amam. E entre as ramagens e raízes
se entreabrem em copas
em carícias extensivas.
Quando amanhece,
não é o cantar de pássaros que pousa em meu ouvidos,
mas o que restou na aurora
de seus agrestes gemidos.

Affonso Romano de Sant’Anna

analfabético

10/12/2010

Nunca direi a palavra completa
Pois entre Alfa e Ômega
sou beta.

Nunca direi a verdade absoluta
pois o que exponho
não é sequer vitória,
mas uma parte da luta.

Affonso Romano de Sant’Anna

arte-final

24/09/2010

Não basta um grande amor
          para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
          que o amor da gente.

O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.

Uma coisa é a letra,
e o outra o ato,

          quem toma uma por outra
          confunde e mente.

Affonso Romano de Sant’Anna

cena familiar

20/07/2009

Densa e doce paz na semiluz da sala.
Na poltrona, enroscada e absorta, uma filha
desenha patos e flores.
Sobre o couro, no chão, a outra viaja silenciosa
nas artimanhas do espião.
Ao pé da lareira a mulher se ilumina numa gravura
flamenga, desenhando, bordando pontos de paz.
Da mesa as contemplo e anoto a felicidade
que transborda da moldura do poema.
A sopa fumegante sobre a mesa, vinhos e queijos,
relembranças de viagens e a lareira acesa.
Esta casa na neblina, ancorada entre pinheiros,
é uma nave iluminada.
Um oboé de Mozart torna densa a eternidade.

Affonso Romano de Sant’Anna

Lançado em 17/04/2009

o homem e sua sombra

20/07/2009

Era um homem com sombra de cachorro,
que sonhava ter sombra de cavalo,
mas era um homem com sombra de cachorro.
E isto, de algum modo me incomodava.
Por isto, aprisionou-se num canil.
E altas horas da noite,
enquanto a sombra lhe ladrava,
sua alma em pêlo galopava.

Affonso Romano de Sant’Anna

Lançado em 13/04/2009

reflexivo

20/07/2009

O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeus-se.

Affonso Romano de Sant’Anna

Lançado em 08/04/2009