Archive for the ‘Alejandra Pizarnik’ Category

estar

08/11/2019

Vigias desde este quarto
onde a sombra temível é a tua.

Não há silêncio aqui
mas frases que evitas ouvir.

Símbolos nos muros
narram a bela distância.

(Não deixes que morra
sem voltar a ver-te.)

Alejandra Pizarnik

lanterna surda

01/11/2019

Os ausentes sopram e a noite é densa. A noite tem a cor
das pálpebras do morto.

Toda a noite faço a noite. Toda a noite escrevo. Palavra
a palavra eu escrevo a noite.

Alejandra Pizarnik

como água por sobre uma pedra

27/02/2019

a quem regressa em busca da sua antiga busca
a noite se fecha como água por sobre uma pedra
como ar por sobre um pássaro
como se fecham dois corpos quando se amam

Alejandra Pizarnik

resgate

20/02/2019

E é sempre o jardim de lilases do outro lado do rio.
Se a alma pergunta se fica longe responder-se-lhe-á:
do outro lado do rio,
não deste lado.

Alejandra Pizarnik

cantora nocturna

13/02/2019

A que morreu sobre o seu vestido azul está cantando.
Canta imbuída de morte ao sol de sua ebriedade.
Dentro da sua canção há um vestido azul,
há um cavalo branco, há um coração verde tatuado
com os ecos do pulsar do seu coração morto.
Exposta a todas as perdições, ela canta
junto a uma menina extraviada que é ela:
o seu amuleto de boa sorte.
E, apesar da névoa verde nos lábios
e do frio cinzento nos olhos,
a sua voz corrói a distância que se abre
entre a sede e a mão que procura o copo.
Ela canta.

Alejandra Pizarnik

vertigens ou contemplações de qualquer coisa que termina

06/02/2019

Este lilás desfolha-se.
De si mesmo cai
e oculta a sua oculta sombra.
Hei-de morrer de coisas assim.

Alejandra Pizarnik

o medo

13/08/2018

No eco de minhas mortes
ainda há medo.
Você percebe o medo?
Sei do medo quando digo meu nome.
É o medo,
O medo com um chapéu preto
escondendo ratos em meu sangue,
ou o medo com lábios mortos
bebendo meus desejos.
Sim. No eco de minhas mortes
ainda há medo.

Alejandra Pizarnik