Archive for the ‘Alphonsus de Guimaraens Filho’ Category

soneto dos quarenta anos

22/03/2019

Não me ficou da vida mágoa alguma
de que possa lembrar aos quarenta anos
senão esses cansados desenganos
que o mar que trouxe leva como espuma.

Foram-se os anos, mas que são os anos?
Chama que em sombra esfaz-se, apenas bruma.
As horas que eu vivi, de uma em uma,
deixaram sonhos e deixaram danos.

Muita morte passou n’alma ferida:
meu pai e meus irmãos, mortos amados.
Mas pela minha vida passou vida,

passou amor também, passou carinho.
E pelos dias claros ou magoados
não fui feliz e nem sofri sozinho.

Alphonsus de Guimarães Filho

abri subitamente

24/04/2017

Abri subitamente uma janela
e vi nascer da sombra uma cidade
feita de paz lunar e eternidade.
Na cúpula mais alta, na viela

entre casas humildes escondida,
nas árvores, jardins, em cada muro,
pairava uma esperança de um futuro
belo demais para esta amarga vida!

Abri subitamente uma janela:
uma cidade vi que distendia
os seus braços de névoa, indecisos,

e me ocorreu pensar quem poderia
perder-se em seu mistério e, através dela,
chegar até remotos paraísos!

Alphonsus de Guimaraens Filho

há é o homem

29/08/2011

(…)

Não há poema isento.
Há é o homem.
Há é o homem e o poema.
Fundidos

Alphonsus de Guimaraens Filho

perplexidade II

14/07/2009

Que imperceptível clamor rói as muralhas do tempo?
Quem nos impõe essa expectativa diante do dia que não chega,
essa efusão diante da inércia e da indiferença das coisas,
essa ternura pelo que não se confia,
essa ternura pelo que nunca será senão um breve relâmpago
no fundo dos olhos indormidos?
 
Por que, nessa viagem através do que resiste,
em torno das fortalezas impenetráveis
onde para sempre resta adormecida a grande resposta,
por que não se revela o que apenas escutamos
como suspiro de vento,
leve suspiro de aragem?
 
Por que permitem que contornemos as montanhas solitárias
que se erguem dentro de nós, trágicas e altas,
como um silencioso apelo inexorável?
Por que as coisas se conservam assim, esfíngicas e hirtas,
se nelas pressentimos palpitar
o sentido de nossa própria solidão?
 
Alphonsus de Guimaraens Filho

Lançado em 10/11/2008

e o reino para além do mar

14/07/2009

Que o amor me possa dar tudo que espero:
a cálida manhã, o aflito, esquivo
carinho, que se faça mais sincero
quanto o meu corpo reclamá-lo vivo…
 
Que me dê a alegria de uma infância
molhada de um abril fresco e macio.
Que me traga um perfume de distância,
de frutos, flores, sombras quentes, frio…
 
Que o amor me seja a luz doendo em lentas
oscilações de adeus na montanha…
Que o amor me seja a escada, o meu pomar,
 
o pouso, as madrugadas friorentas,
o corpo claro, a voz, a febre estranha,
e o reino, e o reino para além do mar…

Alphonsus de Guimaraens Filho (poeta marianense)

Lançado em 07/11/2008