Archive for the ‘Ana Martins Marques’ Category

memória

25/09/2019

Podemos atear fogo
à memória da casa
desaprender um idioma
palavra por palavra
podemos esquecer uma cidade
suas ruas pontes armarinhos
armazéns guindastes teleféricos
e se ela tiver um rio
podemos esquecer o rio
mesmo contra a correnteza
mas não podemos proteger com o corpo
um outro corpo do envelhecimento
lançando-nos sobre a lembrança dele

Ana Martins Marques

a descoberta do mundo

11/09/2019

Procuro alcançar-te
com palavras
com palavras
conhecer-te

como quem
com uma lanterna e um mapa
crê empreender
a descoberta do mundo

levanto-me
estou sozinha no escuro
com dois pés
no cimento frio

(onde estás
no que escrevi?)

Ana Martins Marques

até então

31/07/2019

E então você chegou
como quem deixa cair
sobre um mapa
esquecido aberto sobre a mesa
um pouco de café uma gota de mel
cinzas de cigarro
preenchendo
por descuido
um qualquer lugar até então
deserto

Ana Martins Marques

o amor

15/07/2019

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se

Ana Martins Marques

jardim inglês

08/07/2019

Aprendi que tudo o que vive
tudo o que cresce
vive e cresce
contra o cálculo

desde então
alamedas amplas me dividem
não exatamente
ao meio

Ana Martins Marques

belo horizonte

06/05/2019

(1)

Um dia vou aprender a partir
vou partir
como quem fica

(2)

Um dia vou aprender a ficar
vou ficar
como quem parte

Ana Martins Marques

espelho

19/10/2018

Dentro do armário
do seu quarto de dormir
deve haver um espelho.

Se você sai
e deixa o armário aberto
durante todo o dia
o espelho reflete
um pedaço da sua cama
desfeita.

Se você sai
e deixa a porta fechada
durante todo o dia
o espelho reflete o escuro
do seu armário de roupas,
a luz contida dos vidros
de perfume.

Do outro lado do poema
não há nada.

Ana Martins Marques

história

19/03/2018

Tenho 39 anos.
Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos.
Meus seios têm cerca de 12 anos a menos.
Bem mais recentes são meus cabelos
e minhas unhas.
Pela manhã como um pão.
Ele tem uma história de 2 dias.
Ao sair do meu apartamento,
que tem cerca de 40 anos,
vestindo uma calça jeans de 4 anos
e uma camiseta de não mais do que 3,
troco com meu vizinho
palavras
de cerca de 800 anos
e piso sem querer numa poça
com 2 horas de história
desfazendo
uma imagem
que viveu
alguns segundos.

Ana Martins Marques

coleção

05/02/2018

Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções

Ana Martins Marques

último poema

31/07/2017

Agora deixa o livro
volta os olhos
para a janela
a cidade
a rua
o chão
o corpo mais próximo
tuas próprias mãos:
aí também
se lê

Ana Martins Marques