Archive for the ‘Ana Martins Marques’ Category

visitas ao lugar-comum 7

28/10/2020

Tirar fotografias
e depois devolvê-las
àqueles de quem as tiramos
à mulher fora de foco
em seu vestido violeta
à casa de janelas verdes
às paisagens
tomadas emprestadas
à casca
de cada coisa
aos vários ângulos
da Torre Eiffel
ao cachorro morto
na praia

Ana Martins Marques

visitas ao lugar-comum 4

21/10/2020

Perder a hora
e encontrá-la depois
num intervalo
de teatro
nos cantos empoeirados
do domingo
entre um telefonema e outro
dentro do táxi

Ana Martins Marques

o encontro

14/10/2020

Combinamos de nos encontrar num livro
na página 20, linhas 12 e 13, ali onde se diz que
privar-se de alguma coisa
também tem seu perfume e sua energia

combinamos de nos encontrar num mapa
depois da terceira dobra
entre as manchas de umidade
e a cidade circulada de azul

combinamos de nos encontrar
na primeira carta
entre a frase estúpida em que reclamo da falta de dinheiro
e a única palavra escrita à mão

combinamos de nos encontrar
no jornal do dia, em algum lugar
entre os acidentes de automóveis
e as taxas de câmbio

combinamos de nos encontrar
neste poema, na última palavra
da segunda linha
da segunda estrofe de baixo para cima

Ana Martins Marques

visitas ao lugar-comum 3

07/10/2020

Dobrar a língua
e ao desdobrá-la
deixar cair
uma a uma
palavras
não ditas

Ana Martins Marques

memória

25/09/2019

Podemos atear fogo
à memória da casa
desaprender um idioma
palavra por palavra
podemos esquecer uma cidade
suas ruas pontes armarinhos
armazéns guindastes teleféricos
e se ela tiver um rio
podemos esquecer o rio
mesmo contra a correnteza
mas não podemos proteger com o corpo
um outro corpo do envelhecimento
lançando-nos sobre a lembrança dele

Ana Martins Marques

a descoberta do mundo

11/09/2019

Procuro alcançar-te
com palavras
com palavras
conhecer-te

como quem
com uma lanterna e um mapa
crê empreender
a descoberta do mundo

levanto-me
estou sozinha no escuro
com dois pés
no cimento frio

(onde estás
no que escrevi?)

Ana Martins Marques

até então

31/07/2019

E então você chegou
como quem deixa cair
sobre um mapa
esquecido aberto sobre a mesa
um pouco de café uma gota de mel
cinzas de cigarro
preenchendo
por descuido
um qualquer lugar até então
deserto

Ana Martins Marques

o amor

15/07/2019

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se

Ana Martins Marques

jardim inglês

08/07/2019

Aprendi que tudo o que vive
tudo o que cresce
vive e cresce
contra o cálculo

desde então
alamedas amplas me dividem
não exatamente
ao meio

Ana Martins Marques

belo horizonte

06/05/2019

(1)

Um dia vou aprender a partir
vou partir
como quem fica

(2)

Um dia vou aprender a ficar
vou ficar
como quem parte

Ana Martins Marques