Archive for the ‘Antônio Siúves’ Category

quinta

23/05/2014

O magma do dia escorre
ao sol no asfalto
e enlameia os passeantes;

entre vinagre e açúcar
se liquefazem
quando a sarjeta atrai
o capricho de um
e a esperança malfadada
de quem sobrará.

Todos os dias são fronteiriços,
espaço e tempo entre impotência
e saudade refeita,
onde o desejo
e a velha ordem guerreiam.

Doce é embriagar-se de brisa noturna,
o riso ingênuo
e a espuma do mar,
fiéis que somos
às partículas que nos soldam.

Antônio Siúves

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quem escreve nunca alcança

25/03/2013
  1. Escrever é porejar doeres.
  2. Quem escreve nunca alcança. Procura e não acha; quando acha, passa. Quem escreve, escreve, é bem sabido, para preencher o oco do oco de entre(estre)linhas. Melhor era pescar no ribeirão ou cortar lenha para o jantar. Mas, veja-se, quando escrevo pescar no ribeirão e cortar lenha para o jantar, obrigo-me a refletir que não há mais ribeirão, não há mais peixe, não há mais fogão nem mata há. Logo, furo a batida metafórica pela saúde do artesanato – o bom fado de quem sabe confeccionar com as mãos algo relevante, mesa, cadeira, carretilha.
  3. Quem escreve nunca alcança. Não é a glória nem a posteridade nem o poder nem a fama.
  4. Quem escreve quer ser lido e quem não é lido não deixa de escrever, pois se deixa, alcança menos. Quem publica e não é lido e quem publica e é mais-vendido nunca alcançam.
  5. Quem escreve menospreza os sentidos ou vive as sensações no sentido translato, em sua capa vicária.
  6. Quem escreve nunca alcança e se cansa, mas escreve; se não escreve, padece do não escrever, um padecer pior.
  7. Melhor do que escrever é tirar leite, pastorear ou, como disse o Raduam, o cheiro do alho frito no azeite vale mais que qualquer romance. Tem razão esse autor. Pena, não tem razão esse autor.
  8. Quem escreve às vezes fosforece.
  9. Quem escreve às vezes dança.
  10. Quem escreve às vezes vê. Mas quem escreve nunca alcança.

     Antônio Siúves

segunda feira

08/08/2011

Olhar nos olhos da
segunda e notar a farsa
do fluxo e refluxo.

Arrastar-se ao escritório,
balcão ou oficina e
pensar no sábado seguinte
como campo de morte

onde descansará em paz.
Então, vivinho, saberá,
– é iniludível –
que o tempo escorre; os

dias de mar e manhã
dourados encontraram
o pântano da saudade.

Antônio Siúves