Archive for the ‘Armando Freitas Filho’ Category

vidas secas

09/05/2016

Romance em rosácea
desde que rosa sumária
de pétalas contadas, de
páginas onde se conta
o essencial sem floreios.

O tempo curto da vida
em dias decalcados, acres
na ida e na vinda circu-
lares, no mesmo lugar:
andar de dentro para

fora, ou vice-versa – fuga
debaixo do mesmo céu
em cima da terra parada
via sentenças-sinas, retas
escritas por partes – arte.

Armando Freitas Filho

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escrito

04/12/2015

A mão passa espremida
por entre as grades
[a sensação é essa]
e apanha a caneta
do outro lado, e escreve
assim, constrangida
sobretudo, sobre o mundo
de dentro, de fora, mas
sempre sobra, falta alguma coisa
quando já se largou
a caneta para a mão sair
do aperto, e quando se tenta
apanhá-la de novo para
o acréscimo, corte, reparo
ela rolou, longe do meu alcance.

Armando Freitas Filho

bryaxis,11

24/04/2015

A discreta datilografia noturna
aclara ainda mais o papel branco
que a recebe: retira do escuro
do pensamento por meio das teclas pretas
as linhas do texto cerrado do raciocínio.

Datiloscrito em tinta negra iluminando
melhor do que a lâmpada da mesa acesa
a textura da literatura inteira
que aparece escorreita na folha que sai
do ânimo, que azeitou a máquina.

Armando Freitas Filho

primeira impressão

12/09/2014

O poema novo é dos insurgentes.
Surde, subterrâneo
e somente eles o escutam.
Não parece poema, parece
que todos podem escrevê-lo
mas não o escrevem
nem o escreverão nunca.

Não tem cabeça e pé
princípio ou fim definidos
mas não são sem pé nem cabeça.
Tem peito, plexo solar, e dois
dedos de prosa quebrados.
Só vai ser poesia, depois.
Quando muitos o terão lido
relido e estabelecido.

Armando Freitas Filho

releitura

18/08/2014

Quem relê Drummond é sempre um outro.
Mesmos olhos que ganham, cada vez
lentes melhores, ou é o olhar que vê por outro ângulo.
Poesia de tantos anos, não se dissipa – muda de posição
alcança inesperado matiz na ponta do verso livre:
drummondicionário em perpétua elaboração, se reescreve
até quando a cor ecoa, livro aberto
que inaugura, iluminado de forma diferente
o sentido da página da vida em trânsito
os verbetes que vão da manhã porosa à noite emparedada.
Drummond difere, desfere, divaga, diverso
linha a linha, movendo seu traçado, de acordo
com a transformação que se imprime em nós, impressentida.

Armando Freitas Filho

laudo

06/06/2014

Sua mão de enxada imprópria
para a pena, cheia de nós e veias
não combina com a magreza
do braço, do corpo, do corte reto
do perfil que o nariz conduz na face
feita a traço, com a linha fina
da boca, da voz travada, taquigráfica
com os olhos de bola de gude azul
atrás do aro dos óculos de tartaruga.

Sua mão grossa é para medir
o espaço das perdidas fazendas
e anotar no livro-razão, não o ar
o céu que as cobre, o sublime
controle das nuvens, a palavra
precisa e preciosa descoberta
mas o deve & haver da criação
no dia corriqueiro que a vida
e a morte transpassam indiferentes.

Armando Freitas Filho