Archive for the ‘Arnaldo Antunes’ Category

nada resiste

29/07/2016

para quem
desiste
da luta

tem circo
tem pão
tem pulga

nada
resiste
à lupa

nem cisco
nem grão
nem culpa

Arnaldo Antunes

nada

19/10/2015

 nada
com um vidro na frente
já é alguma coisa

nada
com um vento batendo
já é alguma coisa

nada
com o tempo passando
já é alguma coisa

mas
não é nada

Arnaldo Antunes

alma

23/07/2012

Alma, deixa eu ver sua alma
A epiderme da alma, superfície.
Alma, deixa eu tocar sua alma
Com a superfície da palma da minha mão, superfície  

Easy, fique bem easy, fique sem nem razão
Da superfície livre
Fique sim, livre
Fique bem com razão ou não, aterrize  
Alma, isso do medo se acalma
Isso de sede se aplaca
Todo pesar não existe  

Alma, como um reflexo na água
Sobre a última camada
Que fica na superfície, crise
Já acabou, livre  

Já passou o meu temor do seu medo
Sem motivo, riso, de manhã, riso de neném
A água já molhou a superfície  

Alma, daqui do lado de fora
Nenhuma forma de trauma sobrevive
Abra a sua válvula agora
A sua cápsula, alma
Flutua na superfície lisa, que me alisa, seu suor
O sal que sai do sol, da superfície
Simples, devagar, simples, bem de leve
A alma já pousou na superfície

Arnaldo Antunes/Pepeu Gomes

extrair

18/06/2012

ex
trair
do tempo improvável, do improvável,
de suas maquinações, ações,
do ato regular que se dissipa em método, todo
hábito que habito, repito,
da meta inalcançável que me fita, cripta
do incontável número dos dias vividos, idos,
da inumerável cota dos dias por vir, ir,
da engrenagem que não pára, dispara,
sacode o chão que piso, piso
de um ônibus em movimento, momento
em que me agarro ao cilindro de metal do alto 

– 

a vida 

– 

não nos resta ainda, indo,
mas a que transborda de cada ar expirado, inspirado,
até que arrebente, vente. 

Arnaldo Antunes

inspirado

24/05/2010

Inspirado como um boi no pasto
Inspirado bem alimentado e casto
Inspirado como um boi sem saco
Pacato capado sem pecado

Como um boi mascando seu amido
Tudo lindo e semi-adormecido
Som macio e gosto colorido
E o vazio lotado de infinito

Inspirado e gordo como gado
Carne fresca recheando o couro
Com um olho para cada lado

Inspirado como nenhum touro
Inspirado como um boi pesado
Esperando amor no matadouro

Arnaldo Antunes/Edvaldo Santana

um acidente

05/04/2010

O mal estar que exala quem discorda
Porque não sente quase ou não entende
Concorda bem com o de quem assente
Sem romper a casca, e não acorda.

Somente se distar de estar de frente
Distrai a sua mente da derrota.
Distante como diante de uma porta
Destrói na letra preta o branco ausente.

A vida do sentido o incomoda –
Vigor de ponta a ponta da serpente
Que o branco ovo a cada dia lota.

Suporta, não se importa ou então mente,
Não compreende o que o prende à borda –
O ouro da palavra, um acidente.

Arnaldo Antunes

armazém!

19/03/2010

Segredo não se diz.
Mentira não se diz.
O que não se sabe não se diz.
O que não se pode dizer não se diz.
Palavrão não se diz.
Coisa com coisa não se diz.
Armazém não se diz.

Armazém!
Armazém!!

Arnaldo Antunes

asa de pé

24/12/2009

                                                                    asa de pé     
                                                                    gaso azul     
                                                                    ado e lumi    
                                                                    noso mas par  
                                                                    ado como      
                                                                    o céu         
                                                                 re              
                                                         feito no              
                                                                 ar              
                                                                rar              
                                                            efeito              
                                                        do papel              
                                          
                                            Arnaldo  Antunes

maneiras

16/07/2009

Os sábios ficam em silêncio quando os outros falam
Crianças gostam de fazer perguntas sobre tudo
As máquinas de fazer nada não estão quebradas
Nem todas as respostas cabem num adulto

As pedras são muito mais lentas do que os animais
As chuvas vêm da água que o sol evapora
As músicas dos índios fazem cair chuva
Os dedos dos pés evitam que se caia

Os rabos dos macacos servem como braços
Os rabos dos cachorros servem como risos
Palavras podem ser usadas de muitas maneiras
As vacas comem duas vezes a mesma comida

Arnaldo Antunes/David Calderoni

Lançado em 02/02/2009

eternidade

13/07/2009

arnaldo antunes_eternidade

 Arnaldo Antunes

Lançado em 24/03/2008