Archive for the ‘Bóris Pasternak’ Category

definição de poesia

04/02/2013

Um risco maduro de assobio.
O trincar do gelo comprimido.
A noite, a folha sob o granizo.
Rouxinóis num dueto desafio.

Um doce ervilhal abandonado
A dor do universo numa fava.
Fígaro: das estantes e flautas –
Geada no canteiro, tombado.

Tudo o que para a noite releva
Nas funduras da casa de banho,
Trazer para o jardim uma estrela
Nas palmas úmidas, tiritando.

Mormaço: como pranchas na água,
Mais raso. Céu de bétulas, turvo.
Se dirá que as estrelas gargalham,
E no entanto o universo está surdo.

Bóris Pasternak

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quero chegar

10/12/2012

Quero chegar em tudo ao cerne,
ao mais oculto.
Buscando a rota, no afazer, no
peito em tumulto.

Ao bojo dos dias de outrora,
ao próprio centro,
justo às raízes e às escoras,
medula adentro.

Sempre agarrando toda a série
de sinas, fatos,
sentir, pensar, amar, viver e
fazer achados.

E escreveria, ah, se o lograsse,
sobre os diversos
dons da paixão, de todo ou quase,
em oito versos.

Seus crimes, fugas e caçadas,
seus atropelos
acidentais, mãos espalmadas
e cotovelos.

Deduziria a essência inata
e as suas leis,
diria a inicial de cada
nome outra vez.

Dispondo cantos em canteiros,
com veias tensas, veria as tílias:
o horto inteiro
posto em sequência.

E verteria, em verso, aromas
de rosa e menta,
prado, flor, feno e quanto assoma
numa tormenta.

Assim Chopin verteu – portento
vivo – seu mundo,
sítios, jazigos, bosques, dentro
de seus estudos.

O jogo e o suplício do afã de
vencer de fato –
a corda retesa e vibrante
do arco dobrado.

Bóris Pasternak

só um instante

08/10/2012

Também a vida é só um instante,
apenas um dissolver-se,
de nós mesmos nos outros,
Como um dom que se faz.
Apenas um rumor de bodas que, debaixo,
irrompe pelas janelas,
nada além de um canto, um sonho,
uma pomba azul-acinzentada.

Bóris Pasternak

é indecoroso ser famoso

24/09/2012

É indecoroso ser famoso
Porque não é isso que eleva.
E não vale a pena montar arquivos
Nem perder tempo com manuscritos  antigos.  

O caminho da criação é a entrega total,
E não fazer barulho ou ter sucesso.
Isso, infelizmente, nada significa
E é como uma alegoria a viajar de boca em boca.  

É preciso, porém, viver sem pretensões,
Viver de tal modo que no fim das contas
Um amor ideal nos alcance
E ouçamos o apelo dos anos que virão.  

O que é preciso rever
É o destino, não velhos papéis;
Nem parágrafos e capítulos de uma vida
Anotar ou emendar.

E mergulhar no anonimato,
Silenciar nele os nossos passos,
Como foge a paisagem na neblina
Em plena escuridão.  

Outros, nesse rastro vivo,
Seguirão o teu caminho passo a passo,
Mas tu mesmo não deves distinguir
Derrota de vitória.  

E não deves nem por um instante
Recuar ou trair o que tu és,
Mas estar vivo, só vivo,
E só vivo — até o fim.

Bóris Pasternak

o dom da poesia

21/07/2009

Deixa a palavra escorregar,
Como um jardim o âmbar e a cidra,
Magnânimo e distraído,
Devagar, devagar, devagar.

Bóris Pasternak

Lançado em 18/05/2009