Archive for the ‘Bráulio Tavares’ Category

o marco marciano

25/07/2018

Pelos auto-falantes do universo
Vou louvar-vos aqui na minha loa
Um trabalho que fiz noutro planeta
Onde nave flutua e disco voa:
Fiz meu marco no solo marciano
Num deserto vermelho sem garoa

Este marco que eu fiz é fortaleza.
Elevando ao quadrado Gibraltar!
Torreão, levadiça, raio-laser
E um sistema internet de radar:
Não tem sonda nem nave tripulada
Que consiga descer nem decolar.

Construi o meu marco na certeza
Que ninguém, cibernético ou humano.
Poderia romper as minhas guardas
Nem achar qualquer falha no meu plano
Ficam todos em Fobos ou em Deimos
Contemplando o meu marco marciano

O meu marco tem rosto de pessoa
Tem ruínas de ruas e cidades
Tem muralhas, pirâmides e restos
De culturas, demônios, divindades:
A história de Marte soterrada
Pelo efêmero pó das tempestades

Construi o meu marco gigantesco
Num planalto cercado por montanhas
Precipícios gelados e falésias
Projetando no ar formas estranhas
Como os muros Ciclópicos de Tebas
E as fatais cordilheiras da Espanha

Bem na praça central. um monumento
Embeleza meu marco marciano:
Um granito em enigma recortado
Pelos rudes martelos de Vulcano:
Uma esfinge em perfil contra o poente
Guardiã mortal do meu arcano..

Lenine/Bráulio Tavares

o rei e o palhaço

18/07/2018

Sua coroa é de ouro,
O meu chapéu é de palha.
A sua cota é de malha,
O meu gibão é de couro.
Sua justiça é no foro,
Minha lei é o consenso.
O seu reinado é imenso,
Minha casa é meu país.
Você é preso ao que diz,
Eu digo tudo o que penso.

Você vem com a arma erguida,
Eu vou abaixando a guarda.
Você vem vestindo a farda,
Eu de roupa colorida.
Você disputa corrida,
Eu corro pra relaxar.
Sua marcha é militar,
A minha é de carnaval.
Seu traje é de general,
Eu visto pena e cocar.

Você liga a motosserra,
Eu planto flor no cerrado.
Você só anda calçado,
Eu piso com o pé na terra.
Você quer vencer a guerra,
Eu quero ganhar a paz.
Você busca sempre mais,
Eu só quero o que é meu.
Você se acha europeu,
Eu sou dos canaviais.

Você vem com a força bruta,
Eu vou com a ginga mansa.
Você vem erguendo a lança,
E eu erguendo a batuta.
Você me traz a cicuta,
Eu lhe dou chá de limão.
Você diz que é capitão,
Eu só sou um mensageiro.
Você é um brigadeiro,
Eu sou só um folgazão.

Antonio Nóbrega/Bráulio Tavares

teofania

11/07/2018

além do bem e do mal
com seu amor fatal
está o ser que sabe quem sou
no tempo que é um lugar
no espaço que é um passar
espreita-nos um olhar criador

muitos me dirão: que não!
que nada é divino: nem o pão, o vinho, a cruz
outros rezarão: em vão!
pois nada responde e tudo se esconde – em luz

deus do roseiral, do sertão
do ramo de oliveira e do punhal
deus dos temporais, dos tufões
da dúvida, da vida e a morte vã

quanta solidão e eu não sei
se homem só suportarei
um sinal, um não,
e silencie, aqui e além, a dor

deus das catedrais, dos porões,
da bíblia, do alcorão, da torá
deus de ariel e caliban
da chuva de enxofre, do maná

quanta solidão e eu não sei
se homem só suportarei
um sinal, um não,
e silencie, aqui e além, a dor

Chico César/Bráulio Tavares

o que é bonito

04/07/2018

O que é bonito?
É o que persegue o infinito
Mas eu não sou
Eu gosto do inacabado
Do imperfeito, o estragado
O que dançou
Eu quero mais erosão
Menos granito
Namorar o zero e o não
Escrever o que desprezo
E desprezar o que acredito
Eu não quero a gravação
Eu quero o grito
É que a gente vai
E fica a obra
Mas eu persigo o que falta
Não o que sobra
Eu quero tudo que dá e passa
Quero tudo que se despe
Se despede
E despedaça

Lenine/Bráulio Tavares