Archive for the ‘Cecília Meireles’ Category

retrato

10/04/2020

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida
A minha face?

Cecília Meireles

lua adversa

13/03/2020

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

Cecília Meireles

a belém!

04/01/2019

– A Belém! A Belém! – E pela estrada
Vão, silenciosamente, os caminhantes,
Sob a inefável, diáfana e abençoada
Luz dos trêmulos astros cintilantes.

Nem um murmúrio quebra a noite. Nada
Se ouve. E os magos, noctívagos viandantes,
Têm, dos céus à sidérea luz prateada,
Claridades argênteas nos semblantes.

– A Belém! A Belém! – E seguem pelos
Ermos caminhos, graves e calados,
No dorso corcovado dos camelos,

Que sem rumor avançam devagar,
– Mirra, incenso e oiro em cofres sobraçados,
Os reis Gaspar, Melchior e Baltasar.

Cecília Meireles

epigrama nº 1

30/11/2018

Pousa sobre esses espetáculos infatigáveis
uma sonora ou silenciosa canção:
flor do espírito, desinteressada e efêmera.

Por ela, os homens te conhecerão:
por ela, os tempos versáteis saberão
que o mundo ficou mais belo, ainda que inutilmente,
quando por ele andou teu coração.

Cecília Meireles

morena, pena de amor – 122

26/11/2018

Lâmpada acesa
no velho jardim,
há, na tua luz, tristeza?
ou a tristeza vem de mim?

Pela areia silenciosa,
cai uma flor.
Assim, na noite, se desfolha a rosa
e o amor.

Cecília Meireles

morena, pena de amor – 104

23/11/2018

A chuva que a noite molha
veio ver-me até aqui.
Disse que tudo desfolha,
– menos meu amor por ti.
Já no amanhecer do dia,
veio o vento, seu irmão.
Perguntei-lhe se o faria,
respondeu que também não.

Veio o sol e veio a lua,
e tudo falava assim:
“Não há nada que destrua
as coisas que não têm fim.”

Cecília Meireles

morena, pena de amor – 42

19/11/2018

(Não me digas nada:
só no teu sorriso
me dás a alvorada
e o paraíso.)

Cecília Meireles

morena, pena de amor – 40

16/11/2018

De dia, te andei buscando,
de noite, a buscar-te andei.
De tanto andar procurando,
perdi-me e não te encontrei.

Cecília Meireles

cântico ix

12/11/2018

Os teus ouvidos estão enganados.
E os teus olhos.
E as tuas mãos.
E a tua boca anda mentindo
Enganada pelos teus sentidos.
Faze silêncio no teu corpo.
E escuta-te.
Há uma verdade silenciosa dentro de ti.
A verdade sem palavras.
Que procuras inutilmente,
Há tanto tempo,
Pelo teu corpo, que enlouqueceu.

Cecília Meireles

cântico ii

09/11/2018

Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens…
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade…
É a eternidade.
És tu.

Cecília Meireles