Archive for the ‘Cecília Meireles’ Category

a língua de nhem

04/10/2017

Havia uma velhinha
que andava aborrecida
pois dava a sua vida
para falar com alguém.

E estava sempre em casa
a boa velhinha
resmungando sozinha:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

O gato que dormia
no canto da cozinha
escutando a velhinha,
principiou também

a miar nessa língua
e se ela resmungava,
o gatinho a acompanhava:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

Depois veio o cachorro
da casa da vizinha,
pato, cabra e galinha
de cá, de lá, de além,

e todos aprenderam
a falar noite e dia
naquela melodia
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

De modo que a velhinha
que muito padecia
por não ter companhia
nem falar com ninguém,

ficou toda contente,
pois mal a boca abria
tudo lhe respondia:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

Cecília Meireles

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epigrama nº 9

13/09/2017

O vento voa,
A noite toda se atordoa,
A folha cai.

Não haverá mesmo algum pensamento
Sobre essa noite?
Sobre esse vento?
Sobre essa folha que se vai?

Cecília Meireles

canção

30/12/2016

Se não chover nem ventar,
se a lua e o sol forem limpos
e houver festa pelo mar,
– ir-te-ei visitar.

Se o chão se cobrir de flor,
e o endereço estiver claro,
e o mundo livre de dor,
– ir-te-ei ver, amor.

Se o tempo não tiver fim,
se a terra e o céu se encontrarem
à porta do teu jardim
– espera por mim.

Cantarei minha canção
com violas de eternamente
que são de alma e em alma estão.
– De outro modo, não.

Cecília Meireles

sugestão

05/06/2015

Sede assim — qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,
sem pergunta.

Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.

Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.

À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.

Cecília Meireles

inibição

18/05/2015

Vou cantar uma cantiga,
vou cantar – e me detenho:
porque sempre alguma coisa
minha voz está prendendo.

Pergunto à secreta Música
porque falha o meu desejo,
porque a voz é proibida
ao gosto do meu intento.

E em perguntar me resigno,
me submeto e me convenço.
Será tardia, a cantiga?
Ou ainda não será tempo…

Cecília Meireles

as palavras estão com seus pulsos imóveis

17/11/2014

As palavras estão com seus pulsos imóveis.
Caminharia a morte – e sempre o mesmo peso
e a mesma sombra fechariam meus pedidos.

Mas o sangue do amor tem sonos e silêncios,
sabe do que aparece apenas porque passa:
espera sem temer que o universo se explique.

Mando-te um som de vida, em meus rios de espanto,
solitária de mim, repentina exilada,
com os enigmas ardendo entre inconstantes ondas.

Nada somos. No entanto, há uma força que prende
o instante da minha alma aos instantes da terra,
como se os mundos dependessem desse encontro,

desses prelúdios sobressaltados.

Cecília Meireles

meninas sonhadas

18/07/2014

As três meninas são muito leves
cor de laranja
com seus vestidos de fina gaze
plissados.

Elas são como três grandes leques
plissados
abrindo ao sol gazes redondas
cor de laranja.

São muito leves as três meninas
cor de laranja
como brinquedos de papel fino
plissados.

Posso exibi-las no ar: seus vestidos
plissados
cheios de vento: balões, lanternas
cor de laranja.

As três meninas são muito leves
cor de laranja:
talvez não sejam mais que vestidos
plissados.

Talvez não sejam mais do que hibiscos
plissados,
flores de seda, papel de flores
cor de laranja.

Pétalas tênues, nimbo da lua
cor de laranja
por pensamentos adormecidos
plissados.

Cecília Meireles

tanta tinta

28/02/2014

Tanta tinta
Ah! Menina tonta
Toda suja de tinta
Mal o céu desponta!

(Sentou-se na ponte,
Muito desatenta…
E agora se espanta:
Quem é que a ponte pinta
Com tanta tinta?…)

A ponte aponta
E se desaponta
A tontinha tenta
Limpar a tinta
Ponto por ponto
E pinta por pinta…
Ah! A menina tonta!
Não viu a tinta da ponte.

Cecília Meireles

leveza

30/12/2013

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.

E o que lembra, ouvindo-se

deslizar seu canto,
mais leve.

E o desejo rápido

desse mais antigo instante,
mais leve.

E a fuga invisível

do amargo passante,
mais leve.
 
Cecília Meireles

canção mínima

05/08/2013

No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.

Cecília Meireles