Archive for the ‘Cecília Meireles’ Category

canção

30/12/2016

Se não chover nem ventar,
se a lua e o sol forem limpos
e houver festa pelo mar,
– ir-te-ei visitar.

Se o chão se cobrir de flor,
e o endereço estiver claro,
e o mundo livre de dor,
– ir-te-ei ver, amor.

Se o tempo não tiver fim,
se a terra e o céu se encontrarem
à porta do teu jardim
– espera por mim.

Cantarei minha canção
com violas de eternamente
que são de alma e em alma estão.
– De outro modo, não.

Cecília Meireles

sugestão

05/06/2015

Sede assim — qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,
sem pergunta.

Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.

Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.

À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.

Cecília Meireles

inibição

18/05/2015

Vou cantar uma cantiga,
vou cantar – e me detenho:
porque sempre alguma coisa
minha voz está prendendo.

Pergunto à secreta Música
porque falha o meu desejo,
porque a voz é proibida
ao gosto do meu intento.

E em perguntar me resigno,
me submeto e me convenço.
Será tardia, a cantiga?
Ou ainda não será tempo…

Cecília Meireles

as palavras estão com seus pulsos imóveis

17/11/2014

As palavras estão com seus pulsos imóveis.
Caminharia a morte – e sempre o mesmo peso
e a mesma sombra fechariam meus pedidos.

Mas o sangue do amor tem sonos e silêncios,
sabe do que aparece apenas porque passa:
espera sem temer que o universo se explique.

Mando-te um som de vida, em meus rios de espanto,
solitária de mim, repentina exilada,
com os enigmas ardendo entre inconstantes ondas.

Nada somos. No entanto, há uma força que prende
o instante da minha alma aos instantes da terra,
como se os mundos dependessem desse encontro,

desses prelúdios sobressaltados.

Cecília Meireles

meninas sonhadas

18/07/2014

As três meninas são muito leves
cor de laranja
com seus vestidos de fina gaze
plissados.

Elas são como três grandes leques
plissados
abrindo ao sol gazes redondas
cor de laranja.

São muito leves as três meninas
cor de laranja
como brinquedos de papel fino
plissados.

Posso exibi-las no ar: seus vestidos
plissados
cheios de vento: balões, lanternas
cor de laranja.

As três meninas são muito leves
cor de laranja:
talvez não sejam mais que vestidos
plissados.

Talvez não sejam mais do que hibiscos
plissados,
flores de seda, papel de flores
cor de laranja.

Pétalas tênues, nimbo da lua
cor de laranja
por pensamentos adormecidos
plissados.

Cecília Meireles

tanta tinta

28/02/2014

Tanta tinta
Ah! Menina tonta
Toda suja de tinta
Mal o céu desponta!

(Sentou-se na ponte,
Muito desatenta…
E agora se espanta:
Quem é que a ponte pinta
Com tanta tinta?…)

A ponte aponta
E se desaponta
A tontinha tenta
Limpar a tinta
Ponto por ponto
E pinta por pinta…
Ah! A menina tonta!
Não viu a tinta da ponte.

Cecília Meireles

leveza

30/12/2013

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.

E o que lembra, ouvindo-se

deslizar seu canto,
mais leve.

E o desejo rápido

desse mais antigo instante,
mais leve.

E a fuga invisível

do amargo passante,
mais leve.
 
Cecília Meireles

canção mínima

05/08/2013

No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.

Cecília Meireles

reinvenção

09/11/2012

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! tudo bolhas
que vêm de fundas piscinas
de ilusionismo… – mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios de tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço…
Só – no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só – na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Cecília Meireles

colar de carolina

09/12/2011

Com seu colar de coral,
Carolina
corre por entre as colunas
da colina.

O colar de Carolina
colore o colo de cal,
torna corada a menina.

E o sol, vendo aquela cor
do colar de Carolina,
põe coroas de coral

nas colunas da colina.

Cecília Meireles