Archive for the ‘Cecília Meireles’ Category

a belém!

04/01/2019

– A Belém! A Belém! – E pela estrada
Vão, silenciosamente, os caminhantes,
Sob a inefável, diáfana e abençoada
Luz dos trêmulos astros cintilantes.

Nem um murmúrio quebra a noite. Nada
Se ouve. E os magos, noctívagos viandantes,
Têm, dos céus à sidérea luz prateada,
Claridades argênteas nos semblantes.

– A Belém! A Belém! – E seguem pelos
Ermos caminhos, graves e calados,
No dorso corcovado dos camelos,

Que sem rumor avançam devagar,
– Mirra, incenso e oiro em cofres sobraçados,
Os reis Gaspar, Melchior e Baltasar.

Cecília Meireles

epigrama nº 1

30/11/2018

Pousa sobre esses espetáculos infatigáveis
uma sonora ou silenciosa canção:
flor do espírito, desinteressada e efêmera.

Por ela, os homens te conhecerão:
por ela, os tempos versáteis saberão
que o mundo ficou mais belo, ainda que inutilmente,
quando por ele andou teu coração.

Cecília Meireles

morena, pena de amor – 122

26/11/2018

Lâmpada acesa
no velho jardim,
há, na tua luz, tristeza?
ou a tristeza vem de mim?

Pela areia silenciosa,
cai uma flor.
Assim, na noite, se desfolha a rosa
e o amor.

Cecília Meireles

morena, pena de amor – 104

23/11/2018

A chuva que a noite molha
veio ver-me até aqui.
Disse que tudo desfolha,
– menos meu amor por ti.
Já no amanhecer do dia,
veio o vento, seu irmão.
Perguntei-lhe se o faria,
respondeu que também não.

Veio o sol e veio a lua,
e tudo falava assim:
“Não há nada que destrua
as coisas que não têm fim.”

Cecília Meireles

morena, pena de amor – 42

19/11/2018

(Não me digas nada:
só no teu sorriso
me dás a alvorada
e o paraíso.)

Cecília Meireles

morena, pena de amor – 40

16/11/2018

De dia, te andei buscando,
de noite, a buscar-te andei.
De tanto andar procurando,
perdi-me e não te encontrei.

Cecília Meireles

cântico ix

12/11/2018

Os teus ouvidos estão enganados.
E os teus olhos.
E as tuas mãos.
E a tua boca anda mentindo
Enganada pelos teus sentidos.
Faze silêncio no teu corpo.
E escuta-te.
Há uma verdade silenciosa dentro de ti.
A verdade sem palavras.
Que procuras inutilmente,
Há tanto tempo,
Pelo teu corpo, que enlouqueceu.

Cecília Meireles

cântico ii

09/11/2018

Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens…
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade…
É a eternidade.
És tu.

Cecília Meireles

canção desilusória

05/11/2018

Já não se pode mais falar!…
O encantamento está perdido…
Tudo são frases sem sentido
e palavras dispersas no ar…
O encantamento está perdido!…
Já não se pode mais falar…

Já não se pode mais sonhar!…
Em vão se canta ou se deplora!
Todos os sonhos são de outrora…
Vêm de um sonho preliminar…
Em vão se canta ou se deplora…
Já não se pode mais sonhar!…

Já não se pode mais amar!…
Oh! soturna monotonia…
A saudade e a melancolia
são de todo tempo e lugar!
Oh! soturna monotonia!…
Já não se pode mais amar…

Já não se pode mais findar!
Numa interminável miséria,
depois do opróbrio da matéria,
surge o castigo do avatar!
Numa interminável miséria…
Já não se pode mais findar!…

Já não se pode mais chorar!
É o Destino…o Alfa-Ômega… a Sorte…
É melhor não pensar na morte,
ao sentir a vida passar…
É o destino…o Alfa-Ômega… a Sorte…
E só nos resta renunciar!…

Cecília Meireles

átila

02/11/2018

É um frêmito espontâneo. O vento cessa
A carreira, espantado. Um calafrio
De horror percorre a terra. E o próprio rio
O grande Reno as águas retrocessa,

Num ímpeto de susto. Arfante, opressa,
Prostra-se a natureza. Em fugidio
Voo, as aves se vão… – Já no ar sombrio,
Que a poeira em turbilhões negreja e espessa,

Reboa, surda, a bulha do tropel…
E, à frente da horda bárbara, que, em grita
Selvagem, céus e terra impreca e ameaça,

Arquejante no dorso do corcel,
– caudilho atroz da atrocidade cita, –
Átila, impávido e ofegante, passa!

Cecília Meireles