Archive for the ‘Chacal’ Category

o verso libérrimo

03/06/2020

depois do verso metrificado e sua música preexistente
o verso livre, letra e música do poeta
depois do verso livre, limitado ainda à superfície plana da página
o verso libérrimo, em 3D ao vivo e a cores a todos os sentidos

o verso tem cheiro?
no verso libérrimo yes
ali se misturam sangue e suor do autor e do leitor
agora ouvinte vidente

o verso libérrimo pinta borda fede cheira
o verso libérrimo troca gases fluidos corporais
o poeta não fala mais pras paredes
no verso libérrimo, autor/leitor ouvinte/vidente

são polos da mesma conversa
um completa a falha do outro

o verso libérrimo — mais que livre — incita à liberdade
olhar ouvir cheirar tocar falar com o corpo inteiro
conectado ao outro aos outros à vila à vida

verso libérrimo, gozai por nós!

Chacal

o outro

22/10/2018

só quero
o que não
o que nunca
o inviável
o impossível (more…)

dia da árvore

21/09/2018

     Eu só queria ser uma árvore. Magrinha, baixinha, gorduchinha ou estrábica. Qualquer uma, contanto que vegetasse. Podia ser um exemplar desgrenhado como o do cerrado ou latifoliado como o amazônico. Contanto que vegetasse, que bailasse ao vento, que inventasse um tempo só de amoras, morou? Podia ser um bouganville ou um flamboyant que, só pelo nome, são frondosos. Ou quem sabe um exemplar de gravatá? Só para alfinetar o bom senso. Ou uma louca papoula? Que servisse de ópio aos aventureiros ou, who knows, apenas um tamarineiro para azedar a doce vida, para fazer puxa ou apenas para tamarinar.

     Entretanto só sei ser bombril, vim ou sapóleo radium. Eu só sei ser embalagens plásticas, invólucros, outdoors. Eu sou só sabão em pó. Minha brancura é um loucura porque tenho sempre omo à mão, rinso ao lado e minerva na reserva. Eu, como você, sou um enlatado. Me lubrifico com lubrax. Me danifico com bardhal. Me tonifico com varsol. Meu nariz é um aspirador walita e o ouvido é marca philco. Enxergo através de lindas lentes policrômicas telefunken. Ando mais rápido porque meus pés são good year. Às vezes não ando, salto com minhas botas melissas e meus amortecedores cofap. Minha língua é ora áspera, ora felpuda, dependendo do controle remoto do meu toshiba. Meus cabelos são flexíveis e duráveis porque neles só produtos wella, a beleza dos seus cabelo revela. Às vezes elimino pelos poros um fio sintético de alto teor explosivo. É o excesso de tetracloretileno que utilizo para enxaguar minhas mágoas. Pensas que exagero? Que devaneio para iludir o Tempo? Absolutamente. Tudo isso é a verdade metaforizada assim como é sanforizado o vinco inalterável da minha perna feita de tergal pervinc setenta, aquele que não amargura nem perde o cinto.

     Eu sou como tu, plastic people, supermercantilista, embrulhadinho como drops dulcora. Bat gente, detergente, meio demente.

     Gostaria de ser uma árvore. Especialmente hoje. Dessas que não se importam com a pontuação e nem suspeitam do plural de energúmeno. Um imenso baobá que contemplasse de cima de suas raízes milenares a sofisticação da indústria. Uma frondosa secóia que passasse o tempo, bebendo água de canudinho, totalmente tola. Ou um carvalho assombroso que dançasse, bizarro, com a rosa dos ventos. Ou uma amendoeira do sul da Bahia, carregada de nós e nozes, olhando de soslaio o fogo fátuo. Ou então seria uma jaqueira a abrigar passarinho nos seus braços vegetais. Não, hoje eu não queria ser um rio, um tufão, um destroyer, um gigolô. Não me tenta tampouco, ser esmeralda, topázio ou turmalina. Mineral algum faria a minha cabeça hoje. O mundo animal com suas lontras, bezerros gritando mamãe, besouros ou focas não me emocionam today. Apenas uma coisa salvaria meu domingo e o leitor sabe o que é. Pois é. É isso aí. Apenas ser vegetal e viver de fotossíntese, bebendo da terra, oxigenando o ar. Essa é a única homenagem que se pode fazer a uma árvore. É se metamorfosear num coqueiro, se travestir em mangueira, se transmutar numa jabuticabeira. Mas com certeza hoje, muitas árvores serão mostradas pelo vídeo em tapes e slides. Milhares de informações serão dadas sobre as diversas espécies vegetais e não faltará também o tradicional plantio de palmeiras ou pés de goiaba. Mas ninguém, nenhum ser humano conseguirá nem por um segundo ser árvore. Muito menos eu, miserável comedor de kolinos com clorofila, um bebedor de pinho sol, um fã de soda cáustica. Como tu, pessoa, como tu.

Chacal

um poeta não

01/05/2017

um poeta não se aposenta
porque o tempo que corre em suas veias
não se conta em relógio de ponto

um poeta não se aposenta
porque ele é
politicamente incorreto
praticamente inviável
juridicamente invisível

um poeta não se aposenta
porque a matéria com que trabalha
está na boca de todos
esperando que ele dê forma ao inconforme

o poeta não se aposenta
mas não se apoquenta
soa abençoa
e desorienta

um poeta não se aposenta
porque ele vai até o fim e depois

um poeta não

Chacal

o beijo

16/01/2017

todo mundo precisa de beijo
o ascensorista a vitrinista
a judoca o playboy
o zagueiro o bombeiro o hidrante
 
o hidrante precisa também
de cuidados água farta
analgésicos e dinheiro

todo mundo precisa de dinheiro
o maracanã o pavilhão de são cristóvão
o cristo a pedra da gávea os dois irmãos

quem não precisa de dinheiro?
todo mundo precisa de beijo.

Chacal

reclame

19/10/2016

se o mundo não vai bem
a seus olhos, use lentes
…ou transforme o mundo.

ótica olho vivo
agradece a preferência.

Chacal

desperta!

06/06/2016

viver a aridez
nada de chuva
nada de sonho
desperta deserto!
nunca mais olharcoíris
nunca mais ninar nominhos
desperta deserto!
não ouvir mais plenilúnios
não querer qualquer convívio
desperta deserto!
calar a boca  
fechar os olhos
deserto

Chacal

papo de índio

18/04/2016

Veiu uns ômi di saia preta
cheiu di caixinha e pó branco
qui eles disserum qui chamava açucri
aí eles falarum e nós fechamu a cara
depois eles arrepitirum e nós fechamu o corpo
aí eles insistirum e nós comemu eles.

Chacal

sete provas e nenhum crime

28/03/2016

Havia a mancha de sangue no jaleco
E nenhum corpo
Havia o olhar rútilo, o rosto crispado
E nenhum motivo
Havia o cheiro impregnado no copo
E nenhuma digital
Havia o vírus, o bilhete, a arma branca
E nenhum assassinato
Havia em vão a confissão
E nenhum ilícito
Havia a cadeira de rodas vazia
E nenhum suspeito
Havia um gato emborcado no aquário
E peixe nenhum

Chacal

rio

25/01/2016

o rio é basicamente o mar
o mar e o amor
amor e mar
atlanticamente amar
 
o rio é basicamente o riso
humor amor
amor humor
para rolar de rir
 
água na boca é a guanabara
e o arpoador é jóia rara
 
pelas curvas desse rio
ninguém vai morrer de frio
porque é só se espreguiçar
no sol que sai detrás do mar

Chacal