Archive for the ‘Cláudio Daniel’ Category

zauberbuch

18/02/2019

Todos
os livros
– os Sutras,o Zohar –
são enigmas:
jardins verticais, rios insubmissos,
listras de mármore possesso;
todas as páginas
– em lâminas de argila, pele de carneiro,
folhas de papyro ou rubro ouro esculpido –
são impossíveis, viscerais,
areia alucinada.
Os livros, Borges, inventam os leitores
e os nomes de vales, savanas, estepes
e de amplas avenidas que ignoramos;
vivemos essa efêmera realidade
para lermos suas secretas linhas,
e nossos filhos e netos.
Um dia, porém, os livros
– últimos demiurgos –
desaparecerão, como o grifo e o licorne
e ler será apenas lenda.

Cláudio Daniel

desvio

14/07/2009

Farto já de tanta ambigüidade, flor excessiva, alfabeto cego
que se desdobra em vogais.
Peixe branco, gris ou amarelo
desgarrado de sua guelra,
no desvio das águas,
entre suposições, eufórico,
justaposto à inevitável precariedade.
À meia-noite,
desmanchar esqueletos
de anões,
é sempre a mesma música proliferante,
pautada de ranhuras
da cervical.
Até dilatar os debruns coaxiais
da caixa craniana; sublime
é a arte do esquecimento.
 
Cláudio Daniel

Lançado em 17/10/2008

Canção da árvore de mil folhas

14/07/2009

o que exprime
essa esgrima silenciosa
ou pugilato de sombras?
simulacro de suave tigre de água e leo dragão de vento
flama de branca acácia e de salmão-pequeno
que combate no limiar entre a pele e a alma.
o que irradia
esse lento balé de plumas
esse desfile de facas e leques?
dança que traduz em passos de pantera
a canção da árvore de mil folhas
que não sabe da língua
mas do coração
 
Cláudio Daniel

Lançado em 25/04/2008

Desvio

14/07/2009

Farto já de tanta ambigüidade, flor excessiva,
alfabeto cego que se desdobra em vogais.
Peixe branco, gris ou amarelo desgarrado
de sua guelra, no desvio das águas,
entre suposições, eufórico, justaposto
à inevitável precariedade. À meia-noite,
desmanchar esqueletos de anões,
é sempre a mesma música proliferante,
pautada nas ranhuras da cervical.
Até dilatar os debruns coaxiais da caixa
craniana; sublime é a arte do esquecimento.
 
Cláudio Daniel

Lançado em 02/04/2008