Archive for the ‘Du Fu’ Category

o campo no outono

25/03/2016

Os ritos e a música
corrigem meus defeitos.

As montanhas e as florestas
alimentam minha inspiração.

Movo a cabeça
e com meu chapéu de gaze
atravessado
esquento minhas costas ao sol.
Incide sobre meus livros,
a luz dos bambus.

Se o vento derruba as pinhas,
vou recolhê-las.
Se esfria,
tiro o mel da colmeia
em esparsas e pequenas
manchas rubras e douradas.

Quando penduro meus tamancos,
espalha-se um sutil aroma.

Du Fu

passeio de barco

22/12/2014

Eu, longe de tudo,
     sonhava com a capital.
Tive de me contentar
     com uma vida pacata
     nos campos do sul.
Com o coração apertado,
     da janela olho para o norte.
Hoje de manhã
     levei minha graciosa esposa
     para um passeio de barco.
Olhamos as crianças alegres brincando
    na água clara e morna
     ao sol.
As borboletas que esvoaçam,
    ora se perseguem,
    ora se distanciam.
Duas flores de lótus
    numa só haste
    formam um casal perfeito.
Para esse passeio
    trouxemos chá e caldo de cana
    em abundância.
Nossas canecas de barro
    não perdem em nada
    para os copos de jade!

   Du Fu

o rio sinuoso

06/10/2014

Todo dia, ao voltar da audiência imperial,
           empenho minha roupa de primavera.
Vou para a margem do rio,
           e só depois de bêbado
           retorno a casa.
Dívidas de vinho,
           deixo penduradas em qualquer cabide.
Nessa vida, chegar ao setenta,
           é muito raro,
           desde os tempos antigos.
As borboletas esvoaçam
           sobre as flores,
e de tempos em tempos
           uma de mim se aproxima.
As libélulas roçam a água
           em seus leves voos.
Breve é o tempo
           de estarmos juntos.
Melhor gozá-lo,
           já que não obedece
aos nossos desejos.

Du Fu

ao luar

09/05/2014

Nesta noite, a lua,
no céu de Fuzhou.
Sozinha, minha mulher
a contemplá-la.

Eu penso
nas crianças,
pequenas demais para compreenderem
a saudade que sentem.

Uma bruma perfumada
molha seus cabelos.
Os raios pálidos e frios
refletem-se em seus braços
de branco jade.

Quando poderemos nos apoiar
no rebordo
da mesma janela?
Quando secarão
as marcas de nossas lágrimas?

Du Fu

balada do velho cedro

31/03/2014

Diante da cabana, às margens do ribeirão, havia um cedro.
As pessoas mais velhas diziam que tinha mais de duzentos anos.
Só por causa dele rocei o mato e construí aqui minha casa.
No quinto mês do ano parece que ouvias as cigarras com frio.
E então, do sudeste, soprou um vento violento, estremecendo a terra.
O rio ergueu-se, as pedras se puseram a correr,
[as nuvens despedaçaram-se.
O tronco lutou com todas as forças que tinha para afastar raios e trovões.
Mas hoje, suas raízes estão separadas da fonte de água
[– vontade do céu?

Eu gostava do azul moroso dessa velha árvore,
da sua luxuriante e verde sombra sobre o rio.
Os viajantes que temiam a neve não raro aqui paravam.
Os passantes aqui se detinham para escutar esse som de flauta
[e de gaita.
Tigre caído, dragão arqueado, entregue às ervas,
com marcas de lágrimas e de sangue que escorreram de seu peitoral.
Onde recitarei meus novos poemas?
Minha cabana perdeu a sua cor.

Du Fu

servir na fronteira

10/01/2014

Se retesas o arco,
pega o mais forte,

Se escolhes uma flecha,
fica com a mais longa.

Se quiseres vencer o inimigo,
mira bem
na montaria.

Se quiseres capturar os rebeldes,
agarra o chefe primeiro.

Também na matança
é preciso limites,

assim como cada país
tem fronteiras.

Se for possível repelir
os invasores,

por que continuar
o banho de sangue?

Du Fu

flores fugazes

27/09/2013

Não que goste de flores
a ponto de morrer por elas,
mas temo a beleza que se vai,
a velhice que se aproxima.
E dos galhos elas se lançam,
efêmeras sobre o chão.
Aos tenros botões,
peço que desabrochem,
se possível com doçura.

Du Fu

lua cheia

09/08/2010

Solitária a lua cheia suspensa
sobre uma casa na margem do rio
Debaixo da ponte corre a água noturna
Está vivo o oiro derramado no rio
O meu cobertor brilha mais que seda preciosa
As montanhas silenciosas sem ninguém
O círculo sem mácula – a lua
gira entre as constelações
Floresce uma árvore
A mesma glória banha dez mil léguas.

Du Fu