Archive for the ‘Elizabeth Bishop’ Category

cinco andares acima

08/09/2014

Escuro ainda.
O pássaro desconhecido está em seu galho sempre.
O cachorrinho do vizinho late dormindo
em tom de pergunta, uma vez só.
Talvez dormindo, também, o pássaro indaga
uma ou duas vezes, com um vibrato.
Perguntas – se é isso o que são –
respondidas de modo simples, direto,
pelo próprio dia.

Manhã enorme, ponderosa, meticulosa;
luz gris riscando cada galho nu,
cada ramo fino, ao longo de um lado,
criando uma árvore outra, de veios vítreos…
O pássaro continua lá. Agora parece que boceja.

O cachorrinho preto corre em seu quintal.
A voz do dono se eleva, severa:
“Você não tem vergonha?”
O que foi que ele fez?
Ele saltita alegre para cima e para baixo;
corre em círculos sobre as folhas caídas.

Claro está que ele não tem vergonha alguma.
Ele e o pássaro sabem que tudo foi respondido,
tudo resolvido,
não é preciso perguntar de novo.
– Ontem se fez hoje com tal leveza!
(Um ontem para mim quase impossível de levantar.)

Elizabeth Bishop

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chemin de fer

23/08/2013

Sozinha nos trilhos eu ia,
coração aos saltos no peito.
O espaço entre os dormentes
era excessivo, ou muito estreito.

Paisagem empobrecida:
carvalhos, pinheiros franzinos;
e além da folhagem cinzenta
vi luzir ao longe o laguinho

onde vive o eremita sujo,
como uma lágrima translúcida
a conter seus sofrimentos
ao longo dos anos, lúcida.

O eremita deu um tiro
e uma árvore balançou.
O laguinho estremeceu.
Sua galinha cocoricou.

Bradou o velho eremita:
“Amor tem que ser posto em prática!”
Ao longe, um eco esboçou
sua adesão, não muito enfática.

Elizabeth Bishop

a arte de perder

02/03/2012

A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.

Elizabeth Bishop