Archive for the ‘Eucanaã Ferraz’ Category

pai

11/08/2017

No chão tenro do Rio,
misto de areia e restos de alagadiços,

pus teu corpo
triturado,

limalha da velha Minas, ímã
que já não prendia nenhuma alma.

Pus ao pé de uma árvore,
perto do mar,

teu corpo moído, pesado, que
parecia um punhado de conchas

que se macerou insistente,
violentamente.

O chão do Rio ganhou mais peso,
outra geologia.

Eucanaã Ferraz

a lua, esta

13/03/2017

Da terra,
a vista nua,
não vês,
pousados lá,
homens
e naves.

Há que supor
que a lua, esta,
é a mesma porcelana
– branco da China –
vista por Li Po, o poeta,

há mais de mil anos.

Eucanaã Ferraz

isso

24/10/2016

O poeta insiste:
brune, lava, escoda.

Mas já não sonha
o perfeito.

Verruma
porque o canto é isso mesmo.

Isso:
toda palavra é defeito.

Eucanaã Ferraz

sem

12/09/2016

Que as estrelas morrem ensina a ciência
numa espécie de obituário absoluto.

Também a felicidade é passageira dizem
pode estar agora em Porto Alegre Planaltina
Ponte Nova lugares onde o mundo não existe
(o mundo é de onde a felicidade pôs-se a caminho
e não regressa). Ser feliz sei onde passa:
dura algumas horas
nós dois
sob o céu de um hotel sem estrelas.

Eucanaã Ferraz

quem

29/04/2016

Cheguei à mais absoluta baixeza:

usei da lógica; segui em linha reta
até ao chão da certeza;

fui à razão, bebi suas regras;
delimitei o que era e o que não era.

Hoje, porém, posso vender a crédito
todos os meus pensamentos;

mas quem confiaria num comerciante
que a própria filosofia fia?

Minha pele, fiquem com ela,
é de graça e já não é minha.

Eucanaã Ferraz

hoje quero te falar de permanecer vivo

17/07/2015

Observa que há árvores velhas e a juventude é longa;
perde ao menos uma hora restaurando os azulejos brancos
da tua infância; sobretudo abre as janelas que dão para o céu
de Nova Friburgo, terra onde as terras são principados
de toda a gente e à vista nua divisamos planetas
em varanda alvoroçadas por malmequeres só de luz;
hoje quero te falar de junhos nervos de tantas alegrias.

Se tudo te parece frágil é verdade é frágil tudo;
mas venho te dizer que tudo permanece vivo
nesta hora em que te digo agora.

Eucanaã Ferraz

quanto do erro é acerto

06/04/2015

Sem que fabriquemos
na procura do cristalino
o tão-somente incolor,

sem que, à procura do estrito,
bebamos a estricnina
do sensabor,

quanto de erro
é acerto
na fórmula de fingirmos?

Eucanaã Ferraz

este fruto

26/12/2014

Este fruto:
amarmos.

Longo gesto o de apanhá-lo
no vento.

Eucanaã Ferraz

é boi ou poeira

27/06/2014

Direção a Palmeira dos Índios,
os nomes são lindos:
Coqueiro Seco, Sítio Estrela,
Chã do Pilar, Belo Monte,
assim por diante.

Pela janela rápida,
o que não é cana
– o que não é cana? –
é boi ou poeira,
ou esse

vazio
– inquilino –
em tudo mesmo
onde parece haver
uma coisa e outra.

Os donos das terras,
donos de tudo,
só não são donos dos nomes:
Dois Riachos, Água Branca,
Tanque d’Arca, Pau Ferro.

Eucanaã Ferraz

imaginassem as amendoeiras

28/03/2014

Imaginassem as amendoeiras
que estamos em pleno outono.
Vestem-se como.

Púrpura, ouro,
estão perfeitas como estão:
erradas.

Pudesse um poema, um amor,
pudesse qualquer esperança
viver assim o engano:

beleza, beleza,
beleza,
mais nada.

Eucanaã Ferraz