Archive for the ‘Eucanaã Ferraz’ Category

a lua, esta

13/03/2017

Da terra,
a vista nua,
não vês,
pousados lá,
homens
e naves.

Há que supor
que a lua, esta,
é a mesma porcelana
– branco da China –
vista por Li Po, o poeta,

há mais de mil anos.

Eucanaã Ferraz

isso

24/10/2016

O poeta insiste:
brune, lava, escoda.

Mas já não sonha
o perfeito.

Verruma
porque o canto é isso mesmo.

Isso:
toda palavra é defeito.

Eucanaã Ferraz

sem

12/09/2016

Que as estrelas morrem ensina a ciência
numa espécie de obituário absoluto.

Também a felicidade é passageira dizem
pode estar agora em Porto Alegre Planaltina
Ponte Nova lugares onde o mundo não existe
(o mundo é de onde a felicidade pôs-se a caminho
e não regressa). Ser feliz sei onde passa:
dura algumas horas
nós dois
sob o céu de um hotel sem estrelas.

Eucanaã Ferraz

quem

29/04/2016

Cheguei à mais absoluta baixeza:

usei da lógica; segui em linha reta
até ao chão da certeza;

fui à razão, bebi suas regras;
delimitei o que era e o que não era.

Hoje, porém, posso vender a crédito
todos os meus pensamentos;

mas quem confiaria num comerciante
que a própria filosofia fia?

Minha pele, fiquem com ela,
é de graça e já não é minha.

Eucanaã Ferraz

hoje quero te falar de permanecer vivo

17/07/2015

Observa que há árvores velhas e a juventude é longa;
perde ao menos uma hora restaurando os azulejos brancos
da tua infância; sobretudo abre as janelas que dão para o céu
de Nova Friburgo, terra onde as terras são principados
de toda a gente e à vista nua divisamos planetas
em varanda alvoroçadas por malmequeres só de luz;
hoje quero te falar de junhos nervos de tantas alegrias.

Se tudo te parece frágil é verdade é frágil tudo;
mas venho te dizer que tudo permanece vivo
nesta hora em que te digo agora.

Eucanaã Ferraz

quanto do erro é acerto

06/04/2015

Sem que fabriquemos
na procura do cristalino
o tão-somente incolor,

sem que, à procura do estrito,
bebamos a estricnina
do sensabor,

quanto de erro
é acerto
na fórmula de fingirmos?

Eucanaã Ferraz

este fruto

26/12/2014

Este fruto:
amarmos.

Longo gesto o de apanhá-lo
no vento.

Eucanaã Ferraz

é boi ou poeira

27/06/2014

Direção a Palmeira dos Índios,
os nomes são lindos:
Coqueiro Seco, Sítio Estrela,
Chã do Pilar, Belo Monte,
assim por diante.

Pela janela rápida,
o que não é cana
– o que não é cana? –
é boi ou poeira,
ou esse

vazio
– inquilino –
em tudo mesmo
onde parece haver
uma coisa e outra.

Os donos das terras,
donos de tudo,
só não são donos dos nomes:
Dois Riachos, Água Branca,
Tanque d’Arca, Pau Ferro.

Eucanaã Ferraz

imaginassem as amendoeiras

28/03/2014

Imaginassem as amendoeiras
que estamos em pleno outono.
Vestem-se como.

Púrpura, ouro,
estão perfeitas como estão:
erradas.

Pudesse um poema, um amor,
pudesse qualquer esperança
viver assim o engano:

beleza, beleza,
beleza,
mais nada.

Eucanaã Ferraz

azul

05/07/2013

Ei-lo, à beira mar, o azul.
Lápis-lazuli que fosse, à flor da terra
e da água.

A mãos pródigas,
dá-se à pura força,
às últimas formas de tingir.

Voz em riste, canta
a todo o pano, à saciedade.
A praia é sua de palmo a palmo e,

de moto próprio, estende-se – fio
de prumo onde o sol se equilibra
de fio a fio.

Eucanaã Ferraz