Archive for the ‘Fernando Fiorese’ Category

como desfazer bagagens

06/01/2012

Como quem de viagem
demora a acomodar-se
ao clima, ao horário,
às vogais de outra sintaxe,
também escrever estranha
quando muda de paisagem. 

Como quem de viagem,
o que carrega apouca
a dicionários, passagens
e alguma muda de roupa,
também escrever exige
aprender a descartar-se.

Como quem de viagem
pouco ou nada decifra
do manuscrito-cidade
(mal soletra as esquinas),
também escrever ensina,
menos importa encontrar-se.

Como quem de viagem
evita, quando sabe,
os apelos do fóssil,
do que é fausto adrede,
também escrever prefere
o que se dá sem salvas.

Como quem de viagem
sabe o prazer de andar
sem endereço ou idade,
com a roupa amassada,
também escrever comparte
esse corpo sem abas.

Como quem de viagem,
para rever a janela onde
lhe sorriu uma criança,
o embarque adiaria,
também escrever alcança
os vestígios desse dia.

Como quem de viagem,
das malas faz relicário
de rostos, ruídos e mares,
de balas, livros e ácidos,
escrever também seria
como desfazer bagagens.

Fernando Fiorese

torre

21/08/2009

Considerando  que  o  labirinto  seja  a  vertigem  da geometria,
o   éden  bárbaro  e  a  pirâmide, a  domesticação  deste  abismo
horizontal;   considerando    que   o   labirinto   faz-se   e  desfaz-
se  em  horizontes e a pirâmide se impõe como único  horizonte,
a ponto de negá-lo com sua matemática inumana; considerando
que o  labirinto nos  habita  antes de  o  habitarmos  e a pirâmide
nos  coloca  à  distância; então,  a   torre   aniquila   qualquer
geometria,   qualquer   curva,   qualquer   reta,  para   afirmar-se
como ponto  de vigia. A torre não dialoga nem com o horizonte
nem com a mãe-pirâmide. A torre  é  monológica,  intransitiva,
inabitável  para  quem  tem  olhos. A torre é uma forma que só
interessa quando abolida. Assim será digna das cártulas que
que um dia lhe dediquei:

Foi tua ruína
o olho ubíquo que pretendias.

*

Apenas antecipaste o tempo
em que as testemunhas
se tornaram réus.

*

Nerval, Brueghel, Kafka:
esses souberam a altura que te faltava.

Fernando Fiorese