Archive for the ‘Ferreira Gullar’ Category

um instante

17/10/2016

Aqui me tenho
Como não me conheço
            nem me quis
sem começo
nem fim
          aqui me tenho
          sem mim
nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
        transparente

Ferreira Gullar

Anúncios

perplexidades

03/06/2016

a parte mais efêmera
                         de mim
é esta consciência de que existo

e todo o existir consiste nisso

é estranho!
e mais estranho
                  ainda
                  me é sabê-lo
e saber
que esta consciência dura menos
que um fio de cabelo

e mais estranho ainda
                   que sabê-lo
é que
           enquanto dura me é dado
           o infinito universo constelado
           de quatrilhões e quatrilhões de estrelas
sendo que umas poucas delas
posso vê-las
                    fulgindo no presente do passado

Ferreira Gullar

off price

14/03/2016

Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
                  fora do esquema
                  meu poema
inesperado

           e que eu possa
           cada vez mais desaprender
           de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado

Ferreira Gullar

falar

04/01/2016

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

Ferreira Gullar

dentro

07/12/2015
“O um é um e não é dois.”
Parménides, de Platão

estamos dentro de um dentro
           que não tem fora

e não tem fora porque
           o dentro é tudo o que há

e por ser tudo
é o todo:
tem tudo dentro de si

até mesmo o fora se,
                  por hipótese,
se admitisse existir

Ferreira Gullar

a propósito do nada

02/11/2015

sou
para o outro
este corpo esta
voz
sou o que digo
e faço
enquanto passo

mas
para mim
só sou
se penso que sou
enfim
se sou
a consciência
de mim

e quando
vinda a morte
ela se apague
serei o que alguém acaso
salve
do olvido

já que
para mim
(lume apagado)
nunca terei existido

Ferreira Gullar

nova canção do exílio

19/06/2015

Minha amada tem palmeiras
Onde cantam passarinhos
e as aves que ali gorjeiam
em seus seios fazem ninhos
Ao brincarmos sós à noite
nem me dou conta de mim:
seu corpo branco na noite
luze mais do que o jasmim
Minha amada tem palmeiras
tem regatos tem cascata
e as aves que ali gorjeiam
são como flautas de prata
Não permita Deus que eu viva
perdido noutros caminhos
sem gozar das alegrias
que se escondem em seus carinhos
sem me perder nas palmeiras
onde cantam os passarinhos

Ferreira Gullar

o gol

11/07/2014

 A esfera desce
 do espaço
              veloz
 ele a apara
 no peito
 e a para
 no ar
             depois
 com o joelho
 a dispõe a meia altura
 onde
 iluminada
 a esfera
            espera
 o chute que
 num relâmpago
 a dispara
           na direção
           do nosso
           coração.
                                            Ferreira Gullar

o açúcar

02/05/2014

O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.

Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,
dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem
aos vinte e sete anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.

Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.

Ferreira Gullar

estranheza do mundo

04/04/2014

Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.
Pervago em um mundo estranho.
Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro;
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.
Olho a árvore e já
não pergunto “para quê”?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.

Ferreira Gullar