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A Borboleta

13/07/2009

Quando o açúcar elaborado nos talos surge no fundo das flores, como em xícaras mal lavadas – um grande esforço se produz em terra donde as borboletas imediatamente levantam vôo.
Mas como cada lagarta teve a cabeça vendada e enegrecida, e o torso definhado pela verdadeira explosão de onde as asas simetricamente flamejam.
A partir de então a borboleta errática não pousa mais a não ser ao acaso de seu vôo,  ou quase isso.
Mecha volante, sua chama não é contagiosa. E aliás, ela chega demasiado tarde e apenas pode constatar as flores abertas. Não importa: comportando-se com um acendedor de lâmpadas, verifica a provisão de óleo de cada uma.
Ela posa no alto das flores com os trapos desajeitados que carrega e se vinga assim da longa humilhação amorfa de lagarta ao pé dos talos.
Minúsculo veleiro dos ares maltratado pelo vento como pétala supérflua, ela vagabundeia pelo jardim.

Francis Ponge – poeta francês
(tradução de Ferreira Gullar)

Lançado em 12/11/2007