Archive for the ‘Getúlio Maia’ Category

alpaca, vicunha ou lhama

30/04/2021

Vaso, talha ou moringa
Plaina, cinzel ou cunha
Samba, xaxado e ginga
A encravada da minha unha
Tamba, cachaça ou pinga
Só o sol por testemunha
Búzios, runas e mandinga
Alpaca, lhama ou vicunha

Estrada, viela ou rua
Cutelo, adaga ou faca
Roldana, iça ou grua
Resina, verniz ou laca
A verdade crua e nua
Nada a ela escapa
Nem a Gonzaga, o Lua
Vicunha, lhama ou alpaca

Ataúde, esquife ou caixão
Bento Rodrigues na lama
Febre, maleita ou sezão
Navio Negreiro ou Derrama
Portanto, assim, então
Tudo é da mesma rama
Tudo escapa à razão
Alpaca, vicunha ou lhama

Da vicunha as vestes reais
Ao povo só o fardo chama
E aos guerreiros leais
Alpacas forram a cama
Às lhamas cargas demais
Sem descanso, sem alfama
Somos assim todos iguais
Alpaca, vicunha ou lhama

Getúlio Maia

pudesse

26/03/2021

pudesse parar o tempo
saborear por um átimo
a sanha dos elementos
perpetuar o suave sabor
do pólen do girassol
congelar o frio na espinha

pudesse esticar o dia
misturar-me à luz de seus olhos
flutuar azul pelo firmamento
atracar-me no mar alto
e me deixar levar pelas vagas:
pudesse, não pensaria outra vez

Getúlio Maia

incêndios viários

19/03/2021

esquecidas as simples coisas,
como abrir de manhã a janela
e se deixar invadir pelo sol,
vejo à margem da estrada –
esse trajeto de todos os dias,
modorrento deslizar de curvas,
vejo cruzes muitas, plantadas
árvores já sem vida e memória

os pássaros ardem em chamas
como o pasto, serpente fogueira
rastejando colinas: ardem e clamam
no deserto dos tempos de agora –
só o eco os responde. o fogo
e os aceiros, acasos pelo caminho,
antigos ninhos assentados ao luar:
coisas para sempre esquecidas

Getúlio Maia

desassossego

04/10/2019

Escrever é o cego
na feira
faça sol ou chuva faça
entoando seu martelo
ou
a goteira a noite inteira
pingapingando
no meu cerebelo

Escrever é prelo
Eterna espera
De ver impresso
o íntimo caderno
poeira de anos
e eu ainda pensando
em ser moderno

Escrever é renegar
O superego
Escavar até chegar
ao desapego

Escrever é
grego antigregário
desassossego

Getúlio Maia

silvo breve

25/02/2019

A palavra não cabe na boca
A língua coça
A garganta rouca
A palavra treslouca
Salta cospe solta
Tudo que minhoca cabeça

A pedra não cabe na mão
Os dedos pulsam
O sangue talha
A pedra cascalha
ira raiva
Todo o meu estertor

A seta retesa no arco
Os olhos estuporados
Os nervos a ferver
O peito arfante
Sibila brada brama
Flecha ardente infame

Getúlio Maia (musicada por Tony Primo, no CD Nó de Si)

rapper cute

01/02/2019

não há dispositivo da lei
que não me eletrocute
neste país do futuro
cabeça dinossauro
pança de mamute
a lei que é escrita à pena
é exercida a bate-boot
vai com o povo pras ruas
mas nada há que o escute

são tantos os destinos
mas nos falta o azimute
neste continente de fartura
pança dinossauro
cabeça de mamute
o povo vai pras ruas
sem sair do facebook
vejo o protesto na tv
e deixo o sangue só no mute

os sonhos dos meus filhos
são tratados a gás, a chute
nesta demo-ditadura
mandíbula dinossauro
adaga de mamute
não vejo a roupa do rei
mas não há voto que permute
muda a coroa do trono
mas continuamos em Beirute

Getúlio Maia (musicada por Tony Primo, no CD Nó de Si)

bálsamo benigno

28/08/2017

Nestes vãos de
silêncio
em que te amo

o vento no rosto
me nubla os olhos

o chão se move
rasante pássaro

o tempo foge
imerso em seus átimos:

a tempestade é lá fora

Getúlio Maia

janela

02/08/2017

sempre ali na janela
que sonhos teria a donzela

uma feira de livros em Genebra,
uma praça de touros em Sevilha,
uma toalha em praia perdida
onde o mar solene requebra?

quimeras sonhava a bela
sempre ali, na janela

o parque Ibirapuera,
uma casa de campo toscana,
as místicas linhas de Nazca
que os serem de além celebram?

sozinha ali na janela
o que a bela espera?

flores azuis da primavera,
o céu sem manchas do cerrado,
quem sabe um fruto maduro
do quintal da casa ao lado?

Getúlio Maia

algo ainda que nos una

12/02/2016

se o dia a dia nesta terra é um caroço
e toda a tribo se pinta para a guerra
e todos índios erguem sua borduna
os facões retinindo os seus aços
na defesa de seu sagrado quinhão de terra:
haverá algo ainda que nos una?

se aos sem terra se juntaram os sem espaço
mas também os pregoeiros da baderna
espalhando o terror como um cangaço
nos mais distantes rincões de nossa terra
floresta, pontal, canguçu, pontes de lacerda:
haverá algo ainda que nos una?

se escavam com furor a nossa serra
as máquinas perfurando sem cansaço
e ainda exportamos ferro pra comprar aço
nessa lógica cruel que nos emperra
e há quem pense que é discurso de comuna:
haverá algo ainda que nos una?

se os discursos não comovem a moto-serra
e a floresta se definha de cansaço
e o ar que respiramos é só fumaça
o meu peito uma imensa de uma borra
e a esperança não enche a lacuna:
haverá algo ainda que nos una?

se aqui bom cabrito é o que mais berra
e todos querem do algodão maior chumaço
os eleitos nos iludem com a baderna
algaravia de uma feira de embaraços
todos nós surdos em meio a bruma:
haverá algo ainda que nos una?

Getúlio Maia

poeira sem estrelas

28/08/2015

o mato dentro onde nasci
é oco,
como ocos são os núcleos
das células:
vazios imensos inexpugnáveis.

as rachaduras nas paredes, no chão,
nos vidros canelados,
parecem nos condenar
a um futuro sombrio.
nada pequenas,
e muitas.
os vizinhos clamam do mesmo mal.

quem chega à província
pode acreditar serem abalos sísmicos.
mas sem demora
descobre a causa.

(descobrir causas é o que nos move,
mas chegando à prima delas
o que fazer com a parede
que se interpõe em nosso caminho?)

me permito seguir
por perceber que,
malgrado os tremores cotidianos,
por todas fissuras visíveis,
vão nascendo vagarosamente
musgos, brotos de esperança,
minúsculas flores azuis.

azuis como a causa de tudo isso:
por um par de trilhos
que nos conecta ao mar
espalhamos azul
por todo planeta.

o que nos custa
frestas, frinchas, rachaduras,
buracos, crateras
– dizem, à boca miúda,
até nas almas.

(sonho um dia instalem
sensores que possam
reduzir a uma escala
o quanto balançam as paredes)

tudo relato por intuir
que mesmo nas almas
e na terra devastada
ainda brotarão flores de maio
azuis
para enfeitar o cabelo de minha amada.

Getúlio Maia