Archive for the ‘Getúlio Maia’ Category

algo ainda que nos una

12/02/2016

se o dia a dia nesta terra é um caroço
e toda a tribo se pinta para a guerra
e todos índios erguem sua borduna
os facões retinindo os seus aços
na defesa de seu sagrado quinhão de terra:
haverá algo ainda que nos una?

se aos sem terra se juntaram os sem espaço
mas também os pregoeiros da baderna
espalhando o terror como um cangaço
nos mais distantes rincões de nossa terra
floresta, pontal, canguçu, pontes de lacerda:
haverá algo ainda que nos una?

se escavam com furor a nossa serra
as máquinas perfurando sem cansaço
e ainda exportamos ferro pra comprar aço
nessa lógica cruel que nos emperra
e há quem pense que é discurso de comuna:
haverá algo ainda que nos una?

se os discursos não comovem a moto-serra
e a floresta se definha de cansaço
e o ar que respiramos é só fumaça
o meu peito uma imensa de uma borra
e a esperança não enche a lacuna:
haverá algo ainda que nos una?

se aqui bom cabrito é o que mais berra
e todos querem do algodão maior chumaço
os eleitos nos iludem com a baderna
algaravia de uma feira de embaraços
todos nós surdos em meio a bruma:
haverá algo ainda que nos una?

Getúlio Maia

poeira sem estrelas

28/08/2015

o mato dentro onde nasci
é oco,
como ocos são os núcleos
das células:
vazios imensos inexpugnáveis.

as rachaduras nas paredes, no chão,
nos vidros canelados,
parecem nos condenar
a um futuro sombrio.
nada pequenas,
e muitas.
os vizinhos clamam do mesmo mal.

quem chega à província
pode acreditar serem abalos sísmicos.
mas sem demora
descobre a causa.

(descobrir causas é o que nos move,
mas chegando à prima delas
o que fazer com a parede
que se interpõe em nosso caminho?)

me permito seguir
por perceber que,
malgrado os tremores cotidianos,
por todas fissuras visíveis,
vão nascendo vagarosamente
musgos, brotos de esperança,
minúsculas flores azuis.

azuis como a causa de tudo isso:
por um par de trilhos
que nos conecta ao mar
espalhamos azul
por todo planeta.

o que nos custa
frestas, frinchas, rachaduras,
buracos, crateras
– dizem, à boca miúda,
até nas almas.

(sonho um dia instalem
sensores que possam
reduzir a uma escala
o quanto balançam as paredes)

tudo relato por intuir
que mesmo nas almas
e na terra devastada
ainda brotarão flores de maio
azuis
para enfeitar o cabelo de minha amada.

Getúlio Maia

cataclismo

31/07/2015

ostra,
cismo
sobre-
tudos:

o fulgor
da aurora
boreal,

a solidão
das horas
mudas,

o esplendor
do vulcão
em chamas.

no negror
das abissais,
cataclismo.

esmurro
muros,
em vão.

Getúlio Maia

entre

10/11/2014

entre orós
e o chuí
eros e morte
riscos e sorte
fios e nós

entre foz
e o jaru
destinos
sem voz
vestes sem cós
o ermo sem s.o.s

Getúlio Maia

abadá

24/03/2014

eu quero a massa
o topo da borrasca
eu quero nada
eu quero nunca
eu quero o azul da Prússia
e o jazz do Adzerbaijão

O que eu quero passa
fica o gosto de auasca
eu quero nada
eu quero sempre
eu quero os girassóis da Rússia
e o luar do meu sertão

eu quero a massa
a farpa e não a lasca
eu quero vida
eu quero gente
eu quero gente em toda praça
neste início de estação

Getúlio Maia
(musica por Tony Primo)

bric-a-brac

14/10/2013

big bang, barco bêbado rimbombou
(bababadalgharaghtakamminarronn)
barrabás, belzebu boa bisca, sobibor:
babilônia zabumba bumba meu boi.

borborema bem! bacana, um bom bocado:
belbo, bilbo bolseiro e bertolt brecht,
billy blanco, samba bossa e b.b. king,
barbatuques, barnabé, ginkgo biloba.

barra do bugres, babuíno blockbuster, beberiba:
betty boop ou brigitte bardot: barbaridade!
(em bilbao bjorn borg bilboquê bóris becker)

abóbora, nababesco bombril zimbabwe,
benedito santos silva beleleu
balbucia o bálsamo benigno

Getúlio Maia

da tijuca a irará

12/07/2013

da tijuca a irará

tuareg

08/07/2011

Erro quando não tento
Erro quando pretendo
Antecipar meu pensamento

Erro quando sigo o cincerro
Erro quando oculto o meu erro
Quando persigo
A direção do vento

Erro quando berro
Erro quando murmuro
Erro quando me encerro
E me guardo em segredos

Erro quando espero
Erro quando em desespero

Mas só erro mesmo
Quando não aprendo com o meu erro

Getúlio Maia
(poema musicado por Tony Primo)

primaveris

02/07/2010

no frescor de auroras
sobre as curvas da pele
enlevos sem pressa
em estado de graça:

tudo frágil, tudo passa
tudo se renova, tudo se revela
como esse tom de azul
deste átimo, único, o agora

leve assim, leve como vim
deslizo-me pelos debruns
da suavetérea bruma
que sempre me traz o sol

Getúlio Maia

pra navegar

14/12/2009

os dias são pra sorrir
as noites são pra cantar
semanas são de florir
os meses são de luar

as horas são de porvir
às vezes são de vagar   
madrugadas são pra dormir
ou mesmo pra navegar 

janelas são pra se abrir
e olhos são para amar
a vida é pra se fruir
dezembros, pra festejar

Getúlio Maia