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torna a definir o poeta…

03/07/2020

TORNA A DEFINIR O POETA OS MAUS MODOS DE OBRAR
NA GOVERNANÇA DA BAHIA, PRINCIPALMENTE
NAQUELA UNIVERSAL FOME, QUE PADECIA A CIDADE.

Que falta nesta cidade? …………………. Verdade
Que mais por sua desonra …………….. Honra
Falta mais que se lhe ponha ………….. Vergonha.

O demo a viver se exponha,
por mais que a fama a exalta,
numa cidade, onda falta
Verdade, Honra, Vergonha.

Quem a pôs neste socrócio? …………. Negócio
Quem causa tal perdição? ……………… Ambição
E o maior desta loucura?………………… Usura.

Notável desaventura
de um povo néscio, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura.

Quais são os seus doce objetos? ……. Pretos
Tem outros bens mais maciços? ….…. Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos? …. Mulatos.

Dou ao demo os insensatos,
dou ao demo a gente asnal,
que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos? …….. Meirinhos
Quem faz as farinhas tardas ? …..……. Guardas
Quem as tem nos aposentos? …………. Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos,
e a terra fica esfaimando,
porque os vão atravessando
Meirinhos, Guardas, Sargentos,

E que justiça a resguarda? …….…….… Bastarda
É grátis distribuída? ………………….…….. Vendida
Que tem, que a todos assusta? ………. Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa,
o que El-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta.

Que vai pela clerezia? ……………….……. Simonia
E pelos membros da Igreja? …………… Inveja
Cuidei, que mais se lhe punha? ……… Unha.

Sazonada caramunha!
enfim que na Santa Sé
o que se pratica, é
Simonia, Inveja, Unha.

E nos Frades há manqueiras? ….……. Freiras
Em que ocupam os serões? …….….…. Sermões
Não se ocupam em disputas? ….…….. Putas.

Com palavras dissolutas
me concluís na verdade,
que as lidas todas de um Frade
são Freiras, Sermões, e Putas.

O açúcar já se acabou? ……….………… Baixou
E o dinheiro se extinguiu? ……………… Subiu
Logo já convalesceu? ……………………… Morreu.

À Bahia aconteceu
o que a um doente acontece,
cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, Subiu, e Morreu.

A Câmara não acode? ……………….….. Não pode
Pois não tem todo o poder? …………… Não quer
É que o governo a convence? ………… Não vence.

Quem haverá que tal pense,
que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence.

Gregório de Matos

soneto

20/06/2014

Na confusão do mais horrendo dia,
Painel da noite em tempestade brava,
O fogo com o ar se embaraçava
Da terra e água o ser se confundia.

Bramava o mar, o vento embravecia
Em noite o dia enfim se equivocava,
E com estrondo horrível, que assombrava,
A terra se abalava e estremecia.

Lá desde o alto aos côncavos rochedos,
Cá desde o centro aos altos obeliscos
Houve temor nas nuvens, e penedos.

Pois dava o Céu ameaçando riscos
Com assombros, com pasmos, e com medos
Relâmpagos, trovões, raios, coriscos.

Gregório de Matos

somente na inconstância

04/01/2013

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

Gregório de Matos

soneto

13/08/2012

Um soneto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo.

Na quinta torce agora a porca o rabo:
A sexta vá também desta maneira,
na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.

Agora nos tercetos que direi?
Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

Nesta vida um soneto já ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.

Gregório de Matos

soneto

06/11/2009

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco c’os demais, que só, sisudo.

Gregório de Matos