Archive for the ‘Guilherme de Almeida’ Category

o haicai

16/05/2016

Lava, escorre, agita
a areia. E enfim, na bateia,
fica uma pepita.

Guilherme de Almeida

infância

10/10/2014

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se “Agora”.

Guilherme de Almeida

a hóspede

25/10/2013

Não precisas bater quando chegares.
Toma a chave de ferro que encontrares
sobre o pilar, ao lado da cancela,
e abre com ela
a porta baixa, antiga e silenciosa.
Entra. Aí tens a poltrona, o livro, a rosa,
o cântaro de barro e o pão de trigo.
O cão amigo
pousará nos teus joelhos a cabeça.
Deixa que a noite, vagarosa, desça.
Cheiram à relva e sol, na arca e nos quartos,
os linhos fartos,
e cheira a lar o azeite da candeia.
Dorme. Sonha. Desperta. Da colmeia
nasce a manhã de mel contra a janela.
Fecha a cancela
e vai. Há sol nos frutos dos pomares.
Não olhes para trás quando tomares
o caminho sonâmbulo que desce.
Caminha – e esquece.

Guilherme de Almeida

pescaria

10/06/2013


Cochilo. Na linha

eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.


Guilherme de Almeida

outro canto matinal

31/05/2010

Eu vi subir o dia de asas claras
sobre a terra saudável. Havia entre as varas
dos salgueiros teias de aranha
em que o sol enfiara contas de vidro.
Os guisos dos rebanhos riam no ar polido,
pelos caminhos da montanha.

Eu vi subir o dia
com o seu cântaro de mel que enche os olhos ocos.
A última estrela desaparecia:
era a última nota de prata
que saíra, bem alta,
da garganta de um galo e ia morrendo aos poucos.

E, entre todas as coisas renascidas,
eu tive o desejo calmo
de nascer duplamente e viver duas vidas
no corpo anfíbio de algum fauno.

Guilherme de Almeida

outono

17/05/2010

O ar é ágil e passa com uma elegância fina
entre as folhas das laranjeiras.
Abre para o pomar cheiroso a tua cortina:
vê como a luz que vem das trepadeiras
é verde e leve e as folhas como
estão firmes nos galhos!
                        E no entanto é outono.
Estende os teus lábios para este ar puro:
hás de sentir na tua boca um beijo doce
como se o ar fosse uma abelha e os teus lábios fossem
dois gomos de um fruto maduro.

Guilherme de Almeida

cigarra

30/04/2010

Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.

Guilherme de Almeida