Archive for the ‘Guimarães Rosa’ Category

na mantiqueira

20/10/2017

Por entre as ameias da cordilheira
dormida,
a lua se esgueira,
como um lótus branco
na serra de dorso de um crocodilo,
brincando de esconder.

Dá para o alto um arranco,
repentino,
de balão sem lastro.
E sobe, mais clara que as outras luas,
quase um sol frio,
redonda, esvaindo-se, derramando,
esfarelando luz pelos rasgões, do bojo
farpeado nas pontas da montanha.

Guimarães Rosa

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luar

06/02/2017

De brejo em brejo,
os sapos avisam:
– A lua surgiu!…

No alto da noite as estrelinhas piscam,
puxando fios,
e dançam nos fios
cachos de poetas.

A lua madura
Rola, desprendida,
por entre os musgos
das nuvens brancas…
Quem a colheu,
quem a arrancou
do caule longo
da via-láctea?…

Desliza solta…

Se lhe estenderes
tuas mãos brancas,
ela cairá…

Guimarães Rosa

tem que ter

05/12/2016

Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa – a inteira – cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa conseqüência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como é que se põe, em teatro, para cada representador – sua parte, que antes já foi inventada, num papel…

Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas – 1956

horas novas

08/04/2016

(…)
Eu queria a muita movimentação, horas novas. Como os rios não dormem. O rio não quer ir a nenhuma parte, ele quer é chegar a ser mais grosso, mais fundo.
(…)

Guimarães Rosa

consciência cósmica

12/08/2013

Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim…

Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado…

Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir, se me restasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo…

Guimarães Rosa

ainda não foram terminadas

20/04/2011

O senhor… Mire e veja: o mais importante e
bonito do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais,
ainda não foram terminadas – mas que elas vão
sempre mudando.
Afinam ou desafinam. Verdade maior.

Guimarães Rosa

centenário de Rosa

14/07/2009

O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.
 
João Guimarães Rosa (27/06/1908 – 19/11/1967)

Lançado em 27/06/2008

aprender-a-viver

14/07/2009

O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso.
O senhor avista meus cabelos brancos….
Viver – não é? – é muito perigoso.
Porque ainda não se sabe.
Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo.

Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas – 1956

Lançado em 16/06/2008

o que nem tanto é sabido

13/07/2009

Diz-que-direi ao senhor, o que nem tanto é sabido:
sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão,
o amor pega e cresce é porque,
de certo jeito,
a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando;
mas, quando é destino dado, maior que o miúdo,
a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer,
e é um só facear com as surpresas.
Amor desse, cresce primeiro: brota é depois.

Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas

Lançado em 26/11/2007