Archive for the ‘Helena de Figueiredo’ Category

serenidade

08/02/2021

Atear incêndios
nas pontas húmidas da noite
esse veredito que me ditou a sorte
não me pertence mais

o mundo está exposto aqui
as crianças brincam
a cor sépia do desconhecido
brilha nos seus olhos.

Talvez tenha vivido tudo
talvez tudo viva em mim
dedico-me a dedilhar rosas abertas
a saudar o astro rei
como se fosse o último

e se os pássaros cruzarem o vendaval
recolherei as lágrimas para as amassar
ouvirei um canto de sereia
do lado verde do mar.

Helena de Figueiredo

instantâneos

17/06/2020

Um retalho salpicado de flores, abeira-se da estrada
A linha dos montes bordada de rebanhos, avança entre torrões de carqueja, na direção da objetiva.
Nas hastes da manada há enfeites de neve e sons de vento.
Apetece chegar mais perto, sentir o brilho do sol no pelo sedoso.
A água borbulhante desenha caminhos no verde.
Lava-se o rosto na melodia da cascata
e o dia avança, invadindo o equilíbrio dos astros.

Helena de Figueiredo

o princípio

06/04/2020

A língua passeia pelo céu da boca
o som ajeita-se
no gesto

e falas

a tua voz é um manto de rosas
na saliva trazes ouro
caminhos de encanto

e a noite cai
sem que nos tivéssemos apercebido.

Ensinaram-me, que o principio era o verbo

digo:
o princípio são teus lábios
a mensagem que amo entender.

Helena de Figueiredo

impulso

18/09/2019

Nem sempre o que apraz dizer
é inverso ao desejo de o fazer

bom seria que o espinho continuasse na rosa
do sangue soubéssemos apenas a cor
e dos vendavais, a notícia dos jornais.

De todas as sensações qual a melhor, não sei
no copo cheio, o líquido derrama ao simples toque
a sede não existe, dá o mote
e o que era tão conciso soa a efémero
e treme o coração
uma vontade louca de abraçar o impossível
afasta o medo

e deixamos a certeza do rochedo
para seguir nas asas de um falcão.

Helena de Figueiredo

postigo

04/09/2019

Nos seixos brancos
a redondez do tempo
habitáculo do amor

refúgio onde me abrigo
mas onde fiz um postigo
de forma propositada:

preciso falar com o vento
seguir a canção dos pássaros
respirar a madrugada.

Helena de Figueiredo

canteiro

28/12/2018

O marulhar das sementes
na planície lavrada
e os nossos olhos em volta
(bordadura extasiada)

Helena de Figueiredo

o enxoval

14/12/2018

De vez em quando
o meu pai ajeitava-me no bolso
um punhado de sementes
como quem oferece um tesouro.

eu, criança
prisioneira dos girassóis
e das espigas
abria os braços
para tocar o arco-íris.

Um dia, decerto
vou entender-lhe
a estoicidade
a eloquência
quando com voz serena
me disser:
filho, podes partir.

E assim farei.

Helena de Figueiredo

hoje não há tema

14/03/2018

Hoje não há tema
lembrou o poema ao aprendiz.
Se realmente anseias escrever
não te deslumbres com rimas banais
despeja palavras no tampo da mesa
prova-lhes o sentido, a beleza
e depois de um trabalho apurado
ergueu construções originais
e aí, quem sabe, o poema grite:
chega, estou pronto para ser saboreado.

Helena de Figueiredo

solitude

26/01/2018

Embrulhou-se no silêncio da casa
esse xaile que por vezes a chama
pensou na vida
nas cores diluídas
no lixo amontoado nas gavetas
nos heróis afastados de espontânea vontade.

E olhou as mãos
agora apenas duas.

Sentiu a noite cair como um rochedo
nada que a perturbe

encontrou dentro de si
um bosque impenetrável
onde os regatos docemente cantam.

Helena de Figueiredo

melhor seria

04/12/2017

Podaste à vida ramos sem seiva
sonhos despidos, mágoas de amor
regaste tudo com as lágrimas e o fogo
e das cinzas, só o vento foi senhor.

Melhor seria
que mergulhados na terra os deixasses
ao embalo das chuvas
poiso das aves do ciclo novo

seriam hoje raiz profunda, braços florindo
e logo mais, ao entardecer
um doce néctar tocando os lábios
do moribundo que quer viver.

Helena de Figueiredo