Archive for the ‘Helena Figueiredo’ Category

hoje não há tema

14/03/2018

Hoje não há tema
lembrou o poema ao aprendiz.
Se realmente anseias escrever
não te deslumbres com rimas banais
despeja palavras no tampo da mesa
prova-lhes o sentido, a beleza
e depois de um trabalho apurado
ergueu construções originais
e aí, quem sabe, o poema grite:
chega, estou pronto para ser saboreado.

Helena Figueiredo

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solitude

26/01/2018

Embrulhou-se no silêncio da casa
esse xaile que por vezes a chama
pensou na vida
nas cores diluídas
no lixo amontoado nas gavetas
nos heróis afastados de espontânea vontade.

E olhou as mãos
agora apenas duas.

Sentiu a noite cair como um rochedo
nada que a perturbe

encontrou dentro de si
um bosque impenetrável
onde os regatos docemente cantam.

Helena Figueiredo

melhor seria

04/12/2017

Podaste à vida ramos sem seiva
sonhos despidos, mágoas de amor
regaste tudo com as lágrimas e o fogo
e das cinzas, só o vento foi senhor.

Melhor seria
que mergulhados na terra os deixasses
ao embalo das chuvas
poiso das aves do ciclo novo

seriam hoje raiz profunda, braços florindo
e logo mais, ao entardecer
um doce néctar tocando os lábios
do moribundo que quer viver.

Helena Figueiredo

talvez

12/12/2016

Nos rostos que já fui, e me deixaram
não me reconheço em nenhum

será que fui eu esta menina
será que fui alguma vez tão pequenina
será que este sorriso já foi meu.

Talvez eu já perdesse a memória
e não me encontre
na minha própria história

talvez o que me falta, seja eu.

Helena Figueiredo

dois vultos

21/11/2016

Dois vultos no templo:

o que achou o céu
e o que se perdeu

qual deles é o pássaro
qual deles sou eu?

Helena Figueiredo

fogo posto

11/07/2016

Agora, que te lembro
já o trigo dorme no silêncio das arcas
e os frutos tombam maduros nos pomares.
Há um tempo talhado para todos os amores
e quando me vires chegar
por restolhos
onde outrora esvoaçaram borboletas
não julgues crime
se atear fogo no teu peito

é apenas a súplica de um cobarde
que pensava ser deus.

Helena Figueiredo

a palavra tarda

24/06/2016

a palavra tarda
na longa a espera
força-se o parto
nasce a quimera

a palavra tarda
sê paciente
embala a tarde
crê no poente

a palavra chega
de peito aberto
pássaro novo
com rumo certo

Helena Figueiredo

épico

19/09/2014

Uma cobra largou a pele
e em carne viva se arrastou
por botequins e becos
até se embriagar.

Julgam-na morta
sob a hera

mas logo acordará
da grande noite
do sono hibernante

vestindo a primavera.

Helena Figueiredo