Archive for the ‘Hélio Pellegrino’ Category

passarão

28/12/2015

Tu, pássaro, vertiginoso
de azul, no livre espaço,
passarás.

E também passarás
se fores prisioneiro,
estrangulado
em espaços de mansardas
ou de poços.

Por seres pura e simplesmente
pássaro, passarás. E os seres
que não são pássaros, mas puros
e simples seres,
os seres por serem seres, simplesmente
passarão.

Hélio Pellegrino

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o trabalho e o sonho

04/05/2015

Claro: acima de sentinelas e
terraços, é a estrela que dirige
a faina do padeiro – no albor
da madrugada.

Todo trabalho é a véspera
de um sonho.

Hélio Pellegrino

copacabana à tarde

27/02/2015

Não tenho tempo a perder. Por isto
perco tempo, e me disperso na rua. O azul
cobalto do céu esmalta a pele da noite
ainda impúbere. Cajado na mão, rastreio
o alfabeto das águas, sob o asfalto
escaldante. Há, na raiz da amendoeira, um poço
onde a alegria começa. Para encontrá-lo,
basta deslizar pelas vertentes da brisa
que sopra em meio ao tráfego. Aí, entre os
dedos do vento, respira o verdor da primavera,
o grito do louva-a-deus entre aflitos
semáforos, o raso clamor da grama
entre as gretas da pedra.

Hélio Pellegrino

momento no metrô

07/07/2014

Se nos olhássemos
mais tempo,

levaríamos conosco
o duro, o instante,
o implacável diamante

que nos separou.

Hélio Pellegrino

a febre

03/01/2014

As coisas, sem usura ou tédio, esplendem
na discreta manhã. Vede a chaleira
na trempe do fogão, carregando nos ombros
o incêndio lunar de seus metais. Todas as coisas
se cumprem, sem nostalgia ou remorso. Nenhum
poupado território nelas se recusa
a nascer. Tudo o que não é dado à luz,
soluça. O sol, com suas ramas de fogo, queima
e revolve o mundo. O que não é consumado
nos consome: grito de horror na aresta
de um cristal ardendo em febre.

Hélio Pellegrino

definição

02/12/2013


A fala é a música do corpo

e a música – o corpo da fala.

Hélio Pellegrino

mar alto

11/01/2010

Esta água é todas as águas,
sem porto, nome ou naufrágio.
Rendada de espuma ao vento,
sem dor nem contentamento.
 
Esta água — lugar nenhum —
é perdição sem loucura.
Nela se dissolvem mágoa,
memória, tempo, aventura.
 
Sem lei nem rei, sem fronteiras,
além de verbo e silêncio,
esta é a pátria procurada:
incêndio de tudo  — nada.

Hélio Pellegrino

Constelações

13/07/2009

Venho de um negro tempo irredutível,
anterior a mim.
Vou para um negro tempo desmedido,
infinito campo de ébano
onde me apagarei.
De uma escarpa à outra,
transfixado entre negror e negror,
danço – centelha breve – o meu furor.
 
Hélio Pellegrino

Lançado em 23/11/2007