Archive for the ‘Henriqueta Lisboa’ Category

tempestade

25/10/2017

– Menino, vem para dentro,
olha a chuva lá na serra,
olha como vem o vento!

– Ah, como a chuva é bonita
e como o vento é valente!

– Não sejas doido, menino,
esse vento te carrega,
essa chuva te derrete!

– Eu não sou feito de açúcar
para derreter na chuva.
Eu tenho força nas pernas
para lutar contra o vento!

E enquanto o vento soprava
e enquanto a chuva caía,
que nem um pinto molhado,
teimoso como ele só:

– Gosto de chuva com vento,
gosto de vento com chuva!

Henriqueta Lisboa

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do supérfluo

16/07/2009

Também as cousas participam            
de nossa vida. Um livro. Uma rosa.     
Um trecho musical que nos devolve      
a horas inaugurais. O crepúsculo       
acaso visto num país                   
que não sendo da terra                 
evoca apenas a lembrança               
de outra lembrança mais longínqua.     
O esboço tão-somente de um gesto       
de ferina intenção. A graça            
de um retalho de lua                   
a pervagar num reposteiro             
A mesa sobre a qual me debruço         
cada dia mais temerosa                 
de meus próprios dizeres.              
Tais cousas de íntimo domínio          
talvez sejam supérfluas.               
No entanto                             
que tenho a ver contigo                
se não leste o livro que li            
não viste a rosa que plantei           
nem contemplaste o pôr-do-sol          
à hora em que o amor se foi?                  
Que tens a ver comigo                         
se dentro em ti não prevalecem                
as cousas ? todavia supérfluas ?              
do meu intransferível patrimônio?             
                                               
Henriqueta Lisboa (1901-1985)

Lançado em 16/01/2009

Calendário

13/07/2009

Calada floração
fictícia
caindo da árvore
dos dias
 
Henriqueta Lisboa
(poeta mineira – 1901-1985)

Lançado em 04/01/2008