Archive for the ‘Henriqueta Lisboa’ Category

natal

25/12/2020

Vejo a estrela que percorre
a noite larga.

Vejo a estrela que perturba
fundos mares.

Vejo a estrela que revela
a eternidade.

Mas para onde foi a estrela
contemplada?

Para onde foi no momento
mais amargo?

Em que cimos ora habita
que debalde
a procuro nestas frias
orvalhadas?

Vejo a estrela – tão de súbito! – ao meu lado.

Vejo os olhos do Menino
desejado.

Henriqueta Lisboa

os burrinhos

18/12/2020

Os burrinhos orelhudos
carregam livros no lombo.
Pela esquerda, de mistura,
pendem dois grossos Camões.
Do outro lado se penduram
infólios de São Jerônimo.
Os burrinhos orelhudos
irmãos do asno de Balaam.

À conta dos pobres bichos
por desfiladeiros hiantes
Sobem Homero e Virgílio
para altíssimas estantes.
Sobem os mestres do estilo
volumosos e triunfantes.
Dariam queixa os burrinhos
Se o anjo tivessem por diante.

Custam prata, custam ouro,
livros com armas de Antuérpia,
de Roma, de Varatojo.
De Elzevir a águia com as flechas,
de Grifo o excelso condor,
pesa que os burrinhos levem
sem a experiência do voo.

Entre a natureza e a glória
os liames fortes da graça.
Rompendo os cascos na rocha
ai! que os burrinhos já falam.

Henriqueta Lisboa

intermezzo

27/03/2020

Do mar escuso da morte
para moradas mais livres.

Não me faleis de resíduos
nem de enredos pelas grotas.

Dai-me violinos e pianos
pelo sem-fim deslizando.

Das cores da tarde o leve
tom de cinza, cinza-pérola.

Das flores a rosa branca
descansada sobre o mármore.

Henriqueta Lisboa

tempestade

25/10/2017

– Menino, vem para dentro,
olha a chuva lá na serra,
olha como vem o vento!

– Ah, como a chuva é bonita
e como o vento é valente!

– Não sejas doido, menino,
esse vento te carrega,
essa chuva te derrete!

– Eu não sou feito de açúcar
para derreter na chuva.
Eu tenho força nas pernas
para lutar contra o vento!

E enquanto o vento soprava
e enquanto a chuva caía,
que nem um pinto molhado,
teimoso como ele só:

– Gosto de chuva com vento,
gosto de vento com chuva!

Henriqueta Lisboa

do supérfluo

16/07/2009

Também as cousas participam            
de nossa vida. Um livro. Uma rosa.     
Um trecho musical que nos devolve      
a horas inaugurais. O crepúsculo       
acaso visto num país                   
que não sendo da terra                 
evoca apenas a lembrança               
de outra lembrança mais longínqua.     
O esboço tão-somente de um gesto       
de ferina intenção. A graça            
de um retalho de lua                   
a pervagar num reposteiro             
A mesa sobre a qual me debruço         
cada dia mais temerosa                 
de meus próprios dizeres.              
Tais cousas de íntimo domínio          
talvez sejam supérfluas.               
No entanto                             
que tenho a ver contigo                
se não leste o livro que li            
não viste a rosa que plantei           
nem contemplaste o pôr-do-sol          
à hora em que o amor se foi?                  
Que tens a ver comigo                         
se dentro em ti não prevalecem                
as cousas ? todavia supérfluas ?              
do meu intransferível patrimônio?             
                                               
Henriqueta Lisboa (1901-1985)

Lançado em 16/01/2009

Calendário

13/07/2009

Calada floração
fictícia
caindo da árvore
dos dias
 
Henriqueta Lisboa
(poeta mineira – 1901-1985)

Lançado em 04/01/2008