Archive for the ‘Ivo Barroso’ Category

forma&fundo

27/03/2017

Um poema precisa ser
mais que o simples
desenrolar da elipse
ascendendo em fuso
afunilado.

Se sobe
(e é bom que suba),
deverá desenrolar-se
de si mesmo,
multiplicar o impulso
inicial e acelerar
o arranque da subida.

Inútil, porém,
se nessa forma de hélice
despetalada em sons
e sílabas,
não tiver lá dentro
o combustível do sangue
o pulsar de um desejo
o fundo de um grito
que ateste a sua
condição humana.

Ivo Barroso

despojamento

26/08/2016

Eliminei o excesso de paisagem
simplifiquei toda a decoração
retirei quadros flores ornamentos
apaguei velas copos guardanapos
e a música

Bani a inutilidade do discurso

Na mesa de madeira
nua
apenas dois pratos
brancos
sem talheres

O banquete será tua presença

Ivo Barroso

poema para meu pai

12/08/2016

Meu pai morreu longe de mim
(eu é que estava longe dele).
Tantos anos se passaram
e ainda não lhe vi a sepultura.
Continuo longe. Mas sua presença
me sacode como um choque elétrico,
uma bebida forte que me arde
por dentro.
Está vivo nos meus dedos,
nos cabelos ralos
— a nuca, dá arrepios de se ver.
Está cada vez mais perto de mim
(eu é que estou mais perto dele).

Ivo Barroso