Archive for the ‘João Cabral de Melo Neto’ Category

a mesa

13/07/2020

O jornal dobrado
sobre a mesa simples;
a toalha limpa,
a louça branca

e fresca como o pão.

A laranja verde:
tua paisagem sempre,
teu ar livre, sol
de tuas praias; clara

e fresca como o pão.

A faca que aparou
teu lápis gasto;
teu primeiro livro
cuja capa é branca

e fresca como o pão.

E o verso nascido
de tua manhã viva,
de teu sonho extinto,
ainda leve, quente

e fresco como o pão.

João Cabral de Melo Neto

o fim de mundo

29/05/2020

No fim de um mundo melancólico
os homens leem jornais.
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol.

Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.

O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.

João Cabral de Melo Neto

o mar e o canavial

13/12/2019

O que o mar sim aprende do canavial:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.
O que o mar não aprende do canavial:
a veemência passional da preamar;
a mão-de-pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.

*

O que o canavial sim aprende do mar;
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.
O que o canavial não aprende do mar:
o desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar,
que menos lastradamente se derrama.

João Cabral de Melo Neto

sol negro

25/03/2019

Acordar é voltar a ser,
re-acender num escuro cúbico;
e os primeiros passos que dou
em meu re-ser são inseguros.

Re-ser em tal escuridão
é como navegar sem bússola.
Eu a tenho, ali, a meu lado,
num sol negro de massa escura:

que é a de tua cabeleira,
farol às avessas, sem luz,
e que me orienta a consciência
com a luz cigana que reluz.

João Cabral de Melo Neto

difícil ser funcionário

07/11/2016

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar…
Fazer seu nojo meu…

Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.

João Cabral de Melo Neto

no centenário de Mondrian

22/07/2016

1 OU 2

Quando a alma já se dói
do muito corpo a corpo
com o em-volta confuso,
sempre de mais, amorfo,

se dói do lutar contra
o que é inerte e a luta,
coisas que lhe resistem
e estão vivas, se mudas;

para chegar ao pouco
em que umas poucas coisas
revelem-se, compactas,
recortadas e todas,

e chegar entre as poucas
à coisa-coisa e ao miolo
dessa coisa, onde fica
seu esqueleto ou caroço;

que então tem de arear
ao mais limpo, ao perfil
asséptico e preciso
do extremo do polir,

ou senão despolir
até o texto da estopa
ou até o grão grosseiro
da matéria de escolha;

pois quando a alma já arde
da afta ou da azia
que dá a lucidez brasa,
a atenção carne-viva,

quando essa alma já tem
por sobre e sob a pele
queimaduras do sol
que teve de incender-se,

e começa a ter cãibras
pelo esforço de dentro
de manter esse sol
que lhe mantém o incêndio,

centrada na ideia-fixa
de chegar ao que quer
para o quê que ela faz
seja como quer ser:

então, só esse objecto
de que foste capaz
apaga as equimoses
que a carne da alma traz,

e apaga na alma a luz,
ácida, do sol de dentro:
mostrando-lhe o impossível
que é atingir teu extremo.

2 OU 1

Quando a alma se dispersa
em todas as mil coisas
do enredado e prolixo
do mundo à sua volta,

ou quando se dissolve
nas modorras da música,
no invertebrado vago,
sem ossos, de água em fuga,

ou quando se empantana
num alcalino de mais
que adorme o ácido vivo
que rói porém que faz,

ou quando a alma borracha
tem os músculos lassos
e é já incapaz de molas
para atirar-se ao faço:

então, só esse objecto
de que foste capaz,
de que excluíste até
o nada, por de mais,

e onde só conservaste
o léxico conciso
de teus perfis quadrados
a fio, e também fios,

pois que, por bem cortados,
ficam cortantes ainda
e herdam a agudeza
dos fios que os confinam,

então, só esse objecto
de cores em voz alta,
cores em linha reta,
despidas, cores brasa,

só teu objecto claro,
de clara construção,
desse construir claro
feito a partir do não,

objecto em que ensinaste
a moral pela vista
deixando o pulso manso
dar mais tensão à vida,

só esse objecto pode,
com sua explosão fria,
incitar a alma murcha,
de indiferença ou acídia,

e lançar ao fazer
a alma de mãos caídas,
e ao fazer-se, fazendo
coisas que a desafiam.

João Cabral de Melo Neto

1972

o sol em pernambuco

21/10/2013

O sol em Pernambuco leva dois sóis,
Sol de dois canos, de tiro repetido;
O primeiro dos dois, o fuzil de fogo,
Incendeia a terra: tiro de inimigo.

O sol ao aterrissar em Pernambuco,
Acaba de voar dormindo o mar deserto;
Por mil porque deserto, mas ao dormir se refaz,
E pode decolar mais aceso.

Assim, mais do que acender incendeia,
Para rasar mais desertos no caminho;
Ou rasá-los mais, até um vazio de mar
Por onde ele continue a voar dormindo.

Pinzón diz que o cabo Rostro Hermoso
Que se diz hoje de Santo Agostinho
Cai pela terra de mais luz da Terra
Mudou o nome, sobrou a luz a pino;

Dá-se que hoje dói na vida tanta luz:
Ela revela real, o real impõe filtros:
As lentes negras, lentes de diminuir,
As lentes de distanciar, ou do exílio.

O sol em Pernambuco leva dois sóis,
Sol de dois canos, de tiro repetido;
O segundo dos dois, o fuzil de luz,
Revela real a terra: tiro de inimigo.

João Cabral de Melo Neto

num monumento à aspirina

11/01/2013

Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis da meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.

João Cabral de Melo Neto

tecendo a manhã

24/12/2012

1.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto

psicologia da composição

12/11/2012

É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.

São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.

É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.

É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza
da palavra escrita.

João Cabral de Melo Neto