Archive for the ‘Libério Neves’ Category

elegia 18

14/04/2014

Mais de cem relógios
nas paredes da sala
tocam as horas adiante.

Um relógio, entanto,
invertido em sua ronda
anda com os ponteiros
voltando para o ontem.

Vibram os relógios
em coro, tiquetaque,
e taquetique ele torna
ao refluxo do tempo.

Seus ponteiros pacientes
passo a passo pingando
gota a gota destilam
incensos na lembrança.

Hipnotizam, acenam
para o regresso do homem
aos olhos da criança.

O relógio fantasma
em sentido leste-oeste
impõe com jornada
viajar o viajado.

Vou reviver lugares,
essas visões familiares
presentes no passado.
São valores perenes
longe e bem lembrados:

as manhãs ressoando
veredas da juventude,
as noites orvalhando
trilhas lá da infância.

Aonde mais, tão leve,
me quer levar o relógio
em seu contrário tempo?

Um nevoeiro me enleia
nuvens me enovelam
no chão, amorosamente.

Vou fluir o rego-dágua
para mover o monjolo
em seu compasso longo.

Reerguer os galos
revoar os gaviões
patear os cavalos
e as éguas no rebanho.

Vou uivar os cães
ruminar os bois
adormecer no pai
e no calor da mãe.

Mas, ao final, é este
o relógio do sonho:

não acompanha a sombra
nem o clarão do dia
ou o soar do vento.

No amplo da sala
ponteiam-se as horas
compassadamente.

Libério Neves

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então dou à terra

27/01/2014

Dou minha matéria à terra.
Entanto antes apresento
o corpo a ti, doutor, para
a ciência dos teus dentros.

Tu vês o cérebro
em seus maciços de estanho,
mas não dissecas os versos
aí regurgitando
inconclusos ou inéditos.

Vês no avesso em mim a pele,
mas não seus arrepios
de febre ou dor ou medo
no amplo dos meus pelos.

E vês dentro das veias
o sangue escura sombra.
Os genes, tu não vislumbras
da ira funda contida
no amarrar-me amargo à vida.

Vês os nervos estendidos
com suas cordas dormidas,
e nunca sabes perceber
as vibrações mais vivas
dos meus íntimos tremores.

E tens em mãos o coração!
Mas não levas o poder
(indo além do endocárdio)
de reter estes impulsos
do meu secreto amor.

Então eu dou à terra
pulmões e unhas e ossos
e outras partes singulares.

Não posso dar os versos,
não posso meus arrepios
nem as iras e as tremuras
voando com os meus amores
dissolvendo-se nos ares.

Libério Neves

templo de vidro

06/12/2013

Nesta sala sou vários,
de invariável fala

quanto mais me vejo,
duplos me olham e calam.

Nesta sala me concentro,
entre íntimos detalhes

quanto mais sou tantos,
mais cicatrizes e calos.

Nesta sala sou vários,
entanto íntimo sou só

quanto mais me vejo,
os olhos me consolam.

Nesta sala dos espelhos,
plena é a luz interior

quanto mais o brilho,
nela (noturno) sou amor.

Libério Neves