Archive for the ‘Lígia Cademartori’ Category

cerco

05/05/2017

Avança lenta, não derruba porta.
Ronda a casa e, às vezes, deita na cama.
Usará punhal? Envenena aos poucos?
Vai sugar a pouca força encontrada
no corpo já partido, definhado?
Talvez, compadecida com o cansaço
das pupilas que nada querem ver,
– ou sequer sonhar – ela encurte o ato,
e rompa logo o cordame dos cabos,
livrando o barco para, enfim, zarpar.

Lígia Cademartori

vida seca

29/08/2016

Ah, pare com tantos ais,
que a vida não é mais que isso.
Tem o duro, o bruto, o presto,
brilho, riso é só resto.
Não busque o que não se acha.
Não lamente. Já, já passa.
E uma outra agonia se acha.
Não entre na dor tão fundo,
nem queira tanto do mundo.
Veja a cadela Baleia
e a lição que ela nos dá.
Foi somente ao morrer que,
feliz, vislumbrou preás.

Lígia Cademartori

herança

23/05/2016

O pegar o touro à unha,
o dar o boi e a boiada
pela guerra ou pela paz,
a tempestade num copo
e a festa na tempestade,
vontade como de ferro,
coração como borracha,
compreensão inesperada,
o verso nunca converso
e a intensidade do ódio
com o amor mais desbragado,
noite adentro, tardo dia,
acolhida e rebeldia,
esse legado de ti.

Lígia Cademartori

não era vidro

21/03/2016

A tristeza foi tecida
com farrapos de euforia,
mas o manto se rompeu.
Coser fração por fração
de montagem complicada
não recupera o bordado.
O que surge da costura
é distinto do que havia,
quando o pano, novo ainda,
servia de cobertura
a sonhos, iluminuras,
risos fáceis, vida leve,
algodão e cristal fino.
Tão fino que se partiu.

Lígia Cademartori