Archive for the ‘Lígia Cademartori’ Category

cidade visível

07/12/2018

Quando alegre passante eu te percorria,
entregue à imediata invasão dos sentidos,
meu olhar sequestravas sem pedir resgate,
impregnando meu paladar e olfato
em ilusão de posse em que eu te domino.
Mas nunca te habitei. Tu, sim, me habitaste,
inconcluso amor não há tempo que mate.
Mesmo agora, que és paisagem interna,
quando te visito, não mais estrangeira,
tuas vias se confundem em minhas veias.

Ligia Cademartori

cerco

05/05/2017

Avança lenta, não derruba porta.
Ronda a casa e, às vezes, deita na cama.
Usará punhal? Envenena aos poucos?
Vai sugar a pouca força encontrada
no corpo já partido, definhado?
Talvez, compadecida com o cansaço
das pupilas que nada querem ver,
– ou sequer sonhar – ela encurte o ato,
e rompa logo o cordame dos cabos,
livrando o barco para, enfim, zarpar.

Lígia Cademartori

vida seca

29/08/2016

Ah, pare com tantos ais,
que a vida não é mais que isso.
Tem o duro, o bruto, o presto,
brilho, riso é só resto.
Não busque o que não se acha.
Não lamente. Já, já passa.
E uma outra agonia se acha.
Não entre na dor tão fundo,
nem queira tanto do mundo.
Veja a cadela Baleia
e a lição que ela nos dá.
Foi somente ao morrer que,
feliz, vislumbrou preás.

Lígia Cademartori

herança

23/05/2016

O pegar o touro à unha,
o dar o boi e a boiada
pela guerra ou pela paz,
a tempestade num copo
e a festa na tempestade,
vontade como de ferro,
coração como borracha,
compreensão inesperada,
o verso nunca converso
e a intensidade do ódio
com o amor mais desbragado,
noite adentro, tardo dia,
acolhida e rebeldia,
esse legado de ti.

Lígia Cademartori

não era vidro

21/03/2016

A tristeza foi tecida
com farrapos de euforia,
mas o manto se rompeu.
Coser fração por fração
de montagem complicada
não recupera o bordado.
O que surge da costura
é distinto do que havia,
quando o pano, novo ainda,
servia de cobertura
a sonhos, iluminuras,
risos fáceis, vida leve,
algodão e cristal fino.
Tão fino que se partiu.

Lígia Cademartori