Archive for the ‘Mário Quintana’ Category

poema de circunstância

05/06/2020

Onde estão os meus verdes?
Os meus azuis?
O Arranha-Céu comeu!
E ainda falam nos mastodontes, nos brontossauros,
nos tiranossauros,
Que mais sei eu…
Os verdadeiros monstros, os Papões, são eles, os
arranha-céus!
Daqui
Do fundo
Das suas goelas
Só vemos o céu, estreitamente, através de suas
empinadas gargantas ressecas.
Para que lhes serviu beberem tanta luz?!
Defronte
À janela onde trabalho
Há uma grande árvore…
Mas já estão gestando um monstro de permeio!
Sim, uma grande árvore… Enquanto há verde,
Pastai, pastai, olhos meus…
Uma grande árvore muito verde…Ah,
Todos os meus olhares são de adeus
Como um último olhar de um condenado!

Mário Quintana

data

13/01/2020

Duas laranjas
Um copo d’água ao lado
As moedinhas da luz em torno

Perto
A folhinha marca 13 de janeiro

Mário Quintana

pequeno poema didático

01/01/2020

O tempo é indivisível. Diz,
Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore,
Contra o vento incerto e vário.

A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconsequente conversa.

Todos os poemas são um mesmo poema,
Todos os porres são o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre…
Todas as horas são horas extremas!

Mário Quintana

sempre

27/12/2019

Jamais se saberá com que meticuloso cuidado
Veio o Todo e apagou o vestígio de Tudo
E
Quando nem mais suspiros havia
Ele surgiu de um salto
Vendendo súbitos espanadores de todas as cores!

Mário Quintana

tudo tão vago

23/12/2019

Nossa senhora
Na beira do rio
Lavando os paninhos
Do bento filhinho…

São João estendia,
São José enxugava
e a criança chorava
do frio que fazia

Dorme criança
dorme meu amor
que a faca que corta
dá talho sem dor

(de uma cantiga de ninar)

Tudo tão vago… Sei que havia um rio…
Um choro aflito… Alguém cantou, no entanto…
E ao monótono embalo do acalanto
O choro pouco a pouco se extinguiu…

O Menino dormira… Mas o canto
Natural como as águas prosseguiu…
E ia purificando como um rio
Meu coração que enegrecera tanto…

E era a voz que eu ouvi em pequenino…
E era Maria, junto à correnteza
Lavando as roupas de Jesus Menino…

Eras tu… que ao me ver neste abandono,
Daí do Céu cantavas com certeza
Para embalar inda uma vez meu sono!…

Mário Quintana

crônica

07/08/2019

    Ah, essas pequenas coisas, tão quotidianas, tão
prosaicas às vezes, de que se compõe meticulosa-
mente a tessitura de um poema…   talvez a poesia
não passe de um gênero de crônica, apenas: uma
espécie de crônica da eternidade.

Mário Quintana

o poema

05/08/2019

O poema
essa estranha máscara
mais verdadeira do que a própria face…

Mário Quintana

confissão

05/05/2014

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece…
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!
 
Mário Quintana
(Alegrete, 30 de julho de 1906 — Porto Alegre, 5 de maio de 1994)

uma canção

31/01/2014

Minha terra não tem palmeiras…
E em vez de um mero sabiá,
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há.

Minha terra tem relógios,
Cada qual com sua hora
Nos mais diversos instantes…
Mas onde o instante de agora?

Mas onde a palavra “onde”?
Terra ingrata, ingrato filho,
Sob os céus da minha terra
Eu canto a Canção do Exílio!

Mário Quintana

os degraus

05/11/2012

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos – onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo…

Mario Quintana