Archive for the ‘Mário Quintana’ Category

confissão

05/05/2014

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece…
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!
 
Mário Quintana
(Alegrete, 30 de julho de 1906 — Porto Alegre, 5 de maio de 1994)

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uma canção

31/01/2014

Minha terra não tem palmeiras…
E em vez de um mero sabiá,
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há.

Minha terra tem relógios,
Cada qual com sua hora
Nos mais diversos instantes…
Mas onde o instante de agora?

Mas onde a palavra “onde”?
Terra ingrata, ingrato filho,
Sob os céus da minha terra
Eu canto a Canção do Exílio!

Mário Quintana

os degraus

05/11/2012

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos – onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo…

Mario Quintana

achados e perdidos

17/10/2011

Eu conduzo minha poesia como um burro-sem-rabo
Nesta minha Porto Alegre de incríveis subidas e descidas.
Suo como o Diabo
E desconfio
Que os meus melhores poemas terão caído pelo caminho…
Mas como saber quais são?!
Alguém por acaso os pegará do chão
E vai ficar pensando que o espantoso achado
Pertence a ele… unicamente a ele!

Mário Quintana

os velhinhos

10/10/2011

Como os velhinhos – quando uns bons velhinhos
São belos, apesar de tudo!
Decerto deve vir uma luz de dentro deles…
Que bem nos faz sua presença!
Cada um deles é o próprio avô
Daquele menininho que durante a vida inteira
Não conseguiu jamais morrer dentro de nós!

Mário Quintana

viagem antiga

07/01/2011

Aqui e ali
reses pastando imóveis
como num presépio

a mata ocultando o xixi das fontes

uma cidadezinha de nariz pontudo
furava o céu

depois sumia-se lentamente numa curva

e a gente olhava olhava
sem nenhuma pressa
porque o destino daquelas nossas primeiras viagens era sempre
o horizonte

Mário Quintana

iii – do estilo

30/11/2009

Fere de leve a frase… E esquece… Nada
       Convém que se repita…
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.

Mário Quintana

canção do dia de sempre

30/11/2009

Tão bom viver dia a dia…
A vida, assim, jamais cansa…

Viver tão só de momentos
Como essas nuvens do céu….

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…

Mário Quintana

Lançado em 23/11/2009

o tamanho da gente

22/07/2009

O homem acha o Cosmos infinitamente grande
E o micróbio infinitamente pequeno.
E ele, naturalmente,
Julga-se do tamanho natural…
Mas, para Deus, é diferente:
Cada ser, para Ele, é um universo próprio.
E, a Seus olhos, o bacilo de Kock,
A estrela Sírius e o Prefeito de Três Vassouras
São todos infinitamente do mesmo tamanho…

Mário Quintana

Lançado em 10/07/2009

entre o fumo e os cataventos

14/07/2009

Quando a luz estender a roupa nos telhados
E for todo o horizonte um frêmito de palmas
E junto ao leito fundo nossas duas almas
Chamarem nossos corpos nus, entrelaçados,
 
Seremos, na manhã, duas máscaras calmas
E felizes, de grandes olhos claros e rasgados…
Depois, volvendo ao sol as nossas quatro palmas,
Encheremos o céu de vôos encantados!…
 
E as rosas da Cidade inda serão mais rosas,
Serão todos felizes, sem saber por quê…
Até os cegos, os entrevadinhos… E
 
Vestidos, contra o azul, de tons vibrantes e violentos,
Nós improvisaremos danças espantosas
Sobre os telhados altos, entre o fumo e os cataventos!
 
Mário Quintana

Lançado em 17/11/2008