Archive for the ‘Miguel de Cervantes’ Category

lamentosas queixas de uma donzela enamorada

27/12/2017

Escuta, mau cavaleiro,
sofreia a rédea um instante;
não fatigues as ilhargas
de teu pobre Rocinante.

Olha, falso, que não foges
de serpente fera e má,
porém de uma cordeirinha
que de ovelha longe está.

Tu zombaste, monstro horrendo,
da donzela mais formosa
que Diana viu em seus montes
e Vênus na selva umbrosa.

     Vireno atroz, Eneias fugitivo, Barrabás te acompanhe, de olho vivo!

Tu levas – furto impiedoso! –
nessas garras encerrada
a alma inteira de uma humilde,
pobre, terna enamorada.

Levas três toucas de enfeite
e umas ligas, que adornavam
pernas tão alvas e lisas
que ao mármore se igualavam.

E levas dois mil suspiros
tão ardentes que, parece,
queimariam três mil Troias,
se três mil Troias houvesse.

     Vireno atroz, Eneias fugitivo, Barrabás te acompanhe, de olho vivo!

De teu escudeiro Sancho
se endureça o peito tanto
que não saia Dulcineia
nunca mais de seu encanto.

Da culpa de que és culpado
tenha triste a pena e as dores,
que aqui muitas vezes pagam
justos pelos pecadores.

Que as mais finas aventuras
se te volvam em tristezas,
em sonhos teus passatempos,
em desdéns tuas firmezas.

     Vireno atroz, Eneias fugitivo, Barrabás te acompanhe, de olho vivo!

De Sevilha até Marchema,
desde Loja até Granada,
de Londres à Inglaterra
tenha de falso nomeada.

Quando baralho jogares
fujam-te reis e valetes,
às mãos não te cheguem ases
nem vejas damas ou setes.

Que sangres, quando te cortes
os calos dos calcanhares
e não saiam as raízes
quando os dentes arrancares.

     Vireno atroz, Eneias fugitivo, Barrabás te acompanhe, de olho vivo!

Miguel de Cervantes

quem deixará, do verde prado umbroso

20/12/2017

Quem deixará, do verde prado umbroso,
as frescas ervas e as lustrais nascentes?
Quem, de seguir com passos diligentes
a solta lebre, o javali cerdoso?

Quem, com o canto amigo e sonoroso,
não prenderá as aves inocentes?
Quem, nas horas da sesta, horas ardentes,
não buscará nas selvas o repouso,

por seguir os incêndios, os temores,
os zelos, iras, raivas, mortes, teias
do falso amor que tanto aflige o mundo?

Do campo são e hão sido meus amores,
rosas são e jasmins minhas cadeias,
livre nasci, e em livre ser me fundo.

Miguel de Cervantes

os remédios da paixão

13/12/2017

Quem menoscaba meus bens?
            Desdéns.
Quem aumentas meus queixumes?
           Ciúmes.
Que me prova a paciência?
           Ausência.

Assim, na dor sem clemência
nenhum remédio se alcança,
pois me matam a esperança
desdéns, ciúmes e ausência.

Quem me causa tanta dor?
           Amor.
Quem manda os tormentos meus?
           Os céus.
Quem, desta glória, o assassino?
            Destino.

Assim, receio e imagino,
que esse estranho mal me mate,
pois me dão feroz combate
o amor, os céus e o destino.

Quem mudará a minha sorte?
           A morte.
O bem do amor, quem o alcança?
           Mudança.
E seus males, quem os cura?
           Loucura.

Assim, não será cordura
querer curar a paixão
quando os seus remédios são
morte, mudança e loucura.

Miguel de Cervantes

dulcineia del toboso

06/12/2017

              “(…)
            – Se é, pois, essencial que todo cavaleiro andante seja enamorado – disse o caminhante –, deve a gente supor que vosmecê também o seja, já que é da profissão. E se não se preza vosmecê de ser tão secreto como Dom Galaor, com todo o empenho lhe suplico, no meu nome e no de toda esta companhia, que nos revela o nome, a pátria, a qualidade e a formosura da sua dama. E ela há de se dar por feliz de que todo o mundo saiba que é querida e servida por um cavaleiro tal como parece sê-lo vosmecê.
              Aqui soltou Dom Quixote um grande suspiro, e disse:
            – Não poderei afirmar se a minha doce inimiga aprecia ou não, que o mundo saiba que a sirvo; só sei dizer (respondendo ao que tão respeitosamente se me pede) que o seu nome é Dulcineia, sua pátria Toboso, um lugar da Mancha: sua qualidade, pelo menos, há de ser a de princesa, já que é rainha e senhora minha; sua formosura, sobre-humana, pois nela se fazem verdadeiros todos os impossíveis e quiméricos atributos da beleza, que os poetas emprestam às suas damas; seus cabelos são de ouro; sua testa, campos elísios; suas sobrancelhas, arcos celestes; seus olhos são sóis, suas faces rosas, seus lábios corais; pérolas os seus dentes, alabastro o seu colo, mármore o seu peito, marfim suas mãos, de neve sua brancura; e as partes que à vista humana encobriu a honestidade são tais que, segundo penso e entendo, só a discreta consideração pode encarece-las, sem compará-las.
             (…)”

Miguel de Cervantes