Archive for the ‘Pablo Neruda’ Category

não me peçam

27/02/2017

Pedem alguns que este assunto humano
com nomes, sobrenomes e lamentos
não os aborde nas folhas de meus livros,
não lhes dê a escritura de meus versos.

Dizem que aqui morreu a poesia,
dizem alguns que não devo fazê-lo:
a verdade é que sinto não agradar-lhes,
os saúdo e lhes tiro meu chapéu
e os deixo viajando no Parnaso
como ratos alegres no queijo.

Eu pertenço à outra categoria
e só um homem sou de carne e osso,
por isso se espancam a meu irmão
com o que tenho a mão o defendo
e cada uma de minhas linhas leva
um perigo de pólvora ou de ferro,
que cairá sobre os desumanos,
sobre os cruéis, sobre os soberbos.

Mas o castigo de minha paz furiosa,
não ameaça aos pobres nem aos bons.
Com minha lamparina busco aos que caem,
alivio suas feridas e as fecho.

E estes são os ofícios do poeta,
do aviador e do que trabalha na pedreira:
Devemos fazer algo nesta terra
porque neste planeta nos pariram
e temos que arrumar as coisas dos homens
porque não somos pássaros nem cachorros.

E bem, se quando ataco o que odeio
ou quando canto a todos os que amo
a poesia quer abandonar
as esperanças de meu manifesto,
eu sigo com as tábuas de minha lei
acumulando estrelas e armamentos.

No duro dever americano,
não me importa uma rosa mais ou menos.
Tenho um pacto de amor com a formosura,
tenho um pacto de sangue com meu povo.

Pablo Neruda

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tu eras também uma pequena folha

28/08/2014

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda

ode ao congro

27/08/2012

No mar
tormentoso
do Chile
vive o rosado congro,
gigante enguia
de nevada carne.
E nas panelas chilenas,
na costa,
nasceu o caldinho
encorpado e suculento
proveitoso.
Levem para a cozinha
o congro esfolado,
sua manchada pele cede
como uma luva
e ele fica descoberto
então
o cacho do mar
o congro macio
reluz
já desnudo,
preparado
para nosso apetite.
Agora
recolha
alhos,
acaricie primeiro
esse marfim precioso,
cheire
sua fragrância irada
então
deixe o alho picado
cair com a cebola
e o tomate
até que a cebola
fique da cor de ouro.
Enquanto isso
cozinham-se ao vapor
os régios camarões marinhos
e quando tenham chegado
ao seu ponto,
quando o sabor coalhou
em um molho
formado pelo sumo
do oceano
e pela água clara
eliminada pela luz da cebola,
então
que entre o congro
e se submerja na glória,
que na panela
se unte,
se contraia e se impregne.
Agora só é preciso
deixar no manjar
cair o creme
como uma rosa espessa,
e ao fogo lentamente
entregar ao tesouro
até que no caldinho se aqueçam
as essências do Chile,
e à mesa
cheguem recém-casados
os sabores
do mar e da terra
para que neste prato
você conheça o céu.

Pablo Neruda

talvez

01/06/2012

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,
E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos…
E por amor Serei… Serás…Seremos…

Pablo Neruda

se cada dia cai

18/05/2012

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

Pablo Neruda