Archive for the ‘Patativa do Assaré’ Category

o prazer da pipa

05/04/2021

E quando o mesmo Geraldo Gonçalves de Alencar
recomeçou a beber, Patativa produziu o seguinte soneto:

A mesma pipa que gemeu de dores
Chorando a falta de freguês ausente
Hoje na espuma toda reluzente
Mostra o rosário de bonitas cores.

Ao som da flauta, violões, tambores,
Pife e zabumba, canta sorridente,
Tudo que alegre o coração da gente
Hinos de bravos e canções de amores.

Se alguém pergunta o principal motivo
De tantas galas neste mês festivo,
Ela esquecendo o padecer de outrora,

Responde cheia de um amor profundo:
Eu sou a pipa mais feliz do mundo,
Foi meu Geraldo que voltou agora.

Patativa do Assaré

voz estranha

02/04/2021

Quando Geraldo Gonçalves de Alencar, poeta e
sobrinho de Patativa, bebia demasiadamente
e conseguiu deixar de beber, Patativa produziu o seguinte soneto:

Volta querido, vem para meus braços,
Teremos noite com a mesma lua,
O meu afeto ainda continua,
Reataremos da amizade os laços.

De lindas jovens tu terás abraços,
Quer na fazenda, quer em plena rua,
Eu serei sempre protetora tua,
A todo instante guiarei teus passos.

Ouvindo ao longe aquela voz estranha
Eu já tomado de impressão tamanha
Fui ver de perto quem assim falou.

Era uma pipa de uma tamanho horrendo
Muito chorosa a soluçar dizendo:
O meu Geraldo nunca mais voltou.

Patativa do Assaré

rogando pragas

17/07/2020

Dizia o velho Agostinho
que este mundo é cheio de arte
e se encontra em toda parte
pedaços de mau caminho
um pessoal meu vizinho,
sem amor e sem moral,
atrás de fazer o mal,
para feijão cozinhar,
começaram a roubar
as varas do meu quintal.

Toda noite e todo dia
iam as varas roubando
e eu já não suportando
aquela grande anarquia
pois quem era eu não sabia
pra poder denunciar,
com aquele grande azar
vivia de saco cheio,
até que inventei um meio
pra do roubo me livrar

Eu dei a cada freguês,
com humildade o perdão
e lancei a maldição
em quem roubasse outra vez
e com muita atividez
na minha pena peguei,
umas estrofes rimei
sobre as linhas de uns papéis
rogando pragas cruéis
e lá na cerca botei.

Deus permite que o safado,
sem-vergonha ignorante,
que roubar de agora em diante
madeira do meu cercado,
se veja um dia atacado
com um cancro no toitiço,
toda espécie de feitiço e
em cima do mesmo caia
e em cada dedo lhe saia
um olho de panariço

O santo Deus de Moisés
lhe mande bexiga roxa
saia carbúnculo na coxa,
cravo na sola dos pés,
sofra os incômodos cruéis
da doença hidropsia
icterícia e anemia
tuberculose e diarreia
e a lepra da morfeia
seja a sua companhia

Deus lhe dê reumatismo
com a sinusite crônica
a sezão, o impaludismo
e os ataques da bubônica,
além de quatro picadas
de quatro cobras danadas
cada qual a mais cruel
de veneno fatal
a urutu, a coral
jararaca e cascavel

Eu já perdoei bastante
o que puderam roubar,
para ninguém censurar
que sou muito extravagante
mas de agora por diante,
ninguém será perdoado,
Deus queira que cão danado
um dia morda na cara
de quem roubar uma vara
na cerca do meu cercado

E o que não ouvir o rogo
que faço neste momento
tomara que tenha aumento
como correia ao fogo,
dinheiro em mesa de jogo
e cana no tabuleiro
e no dia derradeiro
a vela pra sua mão
seja um pequeno tição
de vara de marmeleiro.

Patativa de Assaré

o peixe

13/09/2010

Tendo por berço o lago cristalino,
Folga o peixe, a nadar todo inocente,
Medo ou receio do porvir não sente,
Pois vive incauto do fatal destino.

Se na ponta de um fio longo e fino
A isca avista, ferra-a insconsciente,
Ficando o pobre peixe de repente,
Preso ao anzol do pescador ladino.

O camponês, também, do nosso Estado,
Ante a campanha eleitoral, coitado!
Daquele peixe tem a mesma sorte.

Antes do pleito, festa, riso e gosto,
Depois do pleito, imposto e mais imposto.
Pobre matuto do sertão do Norte!

Patativa do Assaré