Archive for the ‘Paulo Henriques Britto’ Category

véspera

04/04/2016

No trivial do sanduíche a morte aguarda.
Na esquiva escuridão da geladeira
dorme a sono solto, imersa em mostarda.

A hora é lerda. A casa sonha. A noite inteira
algo cricrila sem parar — insetos?
O abacaxi impera na fruteira,

recende esplêndido, desperdiçando espetos.
A lua bate o ponto e vai-se embora.
Mesmo os ladrilhos ficam todos pretos.

A geladeira treme. Mas ainda não é hora.
Se houvesse um gato, ele seria pardo.
A morte ainda demora. O dia tarda.

Paulo Henriques Britto

mínima poética – iv

26/10/2015

Dizer não tudo, que isso não se faz,
nem nada, o que seria impossível;
dizer apenas tudo que é demais
pra se calar e menos que indizível.
Dizer apenas o que não dizer
seria uma espécie de mentira:
falar, não por falar, mas pra viver,
falar (ou escrever) como quem respira.
Dizer apenas o que não repita
a textura do mundo esvaziado:
escrever, sim, mas escrever com tinta;
pintar, mas não como aquele que pinta
de branco o muro que já foi caiado;
escrever, sim, mas como quem grafita.

Paulo Henriques Britto

poética prática

28/05/2012

A realidade é um calhamaço insuportável?
Tragam-me então resumos.
A vida que se leva é um filme inassistível?
Vejamos só os anúncios.

São os limites do corpo intrusões malignas
de um demiurgo escroto?
O corpo não é preciso, o espírito é
impreciso:
eu não é um nem outro.

Anda inconveniente a tal da poesia,
a significar?
Nada como um bom significante vazio
para abolir o azar.

Paulo Henriques Britto

Gazel

13/07/2009

Também a verdade nos cansa,
não liberta nem salva: cansa.
 
É o cansaço dos que cansaram
da obrigação da esperança.
 
Em casos assim, a razão –
essa almanjarra de faiança
 
numa beira de aparador
à mercê de mão de criança –
 
precisa ser bem resguardada
lá onde a vista não alcança.
 
E coloque-se em seu lugar
coisa mais dura, de sustança,
 
capaz de melhor resistir
à vida e sua intemperança.
 
Paulo Henriques Britto (poeta carioca)

Lançado em 01/02/2008