Archive for the ‘Ricardo Aleixo’ Category

cantiga do caminho

16/12/2020

Sou filho de mãe mineira
meu pai é de Minas Gerais
sei rezar latim pro nobis
sou primo do preto Brás

Sou filho de pai mineiro
mamãe é de Minas Gerais
vou vivendo como vivo
faço o que ninguém mais faz

Desde menino eu misturo
o antes, o agora e o depois
sei somar zero com zero
e ainda divido por dois

Desde menino eu misturo
o antes, o agora, o depois
sempre que posso eu passo
o carro à frente dos bois

Sou filho de pai mineiro
mamãe é de Minas Gerais
sou rosa e pedra no caminho
sou capaz de guerra e paz

Sou filho de mãe mineira
meu pai é de Minas Gerais
dou volta e meia no mundo
e o mundo não acaba mais

Ricardo Aleixo

eu, militante, me confesso

31/07/2020

O que eu sei sobre a causa que me carcome
O tempo e os nervos é de orelhada. O que não
Sei não dou conta de procurar saber nem mesmo

Por alto. Discordo de tudo com veemência e estri-
Dência para não ter que refletir sobre o que ouço
Ou leio. Empáfia poderia ser o nome do país de

Onde eu nunca saí de todo. Trago de lá a mania
De andar olhando só para a frente (para trás?) &
Praticamente todas as solidões do mundo.

Ricardo Aleixo

recado para as minhas crias

20/01/2020

resistir
não se resume
a não morrer
antes da hora

:

é aprender
a viver junto
o amanhã
desde agora

Ricardo Aleixo

qualquer voz

27/09/2019

Agora, ali, era muito antes. Consegue
imaginar a voz da moça de outro dia,
caída na rua, mas ainda respirando? Coisas
postam-se entre elas mesmas, interrompidas.
Onde começa e onde termina o olhar?
Outro verbo sem presente: morrer. Eu não
disse lembrar — imaginar foi o que eu disse.
Consegue? A voz dela, alguma voz que
você nunca ouviu, qualquer voz. Antes de
alguma coisa, ali. O olhar talvez comece
antes das pálpebras se abrirem. E acaba?
Não acaba.

Ricardo Aleixo

perspectivismo

06/03/2019

eu era felino

 

 

 

 

e não sabiá

Ricardo Aleixo

cartão postal

06/11/2017

A cidade é velha
E nos olha
                   Com suas pedras
Seus venenos
E seus vermes, suas ladeiras
E santos
Com a redondez (verde
     Ficando azul)
        Dos morros
             E com seu olho
                   Mais duro

— De mármore ou de memória?

                                                          Ricardo Aleixo

mesmo esta agora, é

05/10/2016

Nunca pude escrever nem uma
única linha sobre as casas onde morei.
Nunca, para você ter uma ideia,
alguma delas amanheceu com
estrondos, fendas inexplicáveis ou um
gato degolado junto às rosas
e à pequena horta.

Eram casas, apenas. Estruturas,
antienigmas, pedras encimando
pedras. Mesmo esta, agora, é
uma mera máquina de signos –
demasiado gastos para que se extraia
dela, na melhor das hipóteses, mais
que uma outra (mera) máquina de
signos gastos.

Ricardo Aleixo

incontáveis linhas

25/04/2016

incontáveis linhas  
como que dispersas  
impensáveis línguas  
como que dos persas  
cruzam-se no infinito:  
ou tornam-se linguagem  
ou deixam o dito  
                por não dito

Ricardo Aleixo

a doença como metonímia

09/02/2015

Trabalhadores da
St. John del Rey Mining
Company, em Nova Lima,

Minas, gabam-se

de sua origem
(“mineiros duas vezes”)
Mas descon-

fiam que viver
é para nada: morrem
cedo, antes de aprenderem,

p.ex., a soletrar pneumoultra

microscopicossilicovulcanoconiose
(= silicose, simpli-
ficam os que ficam).

Ricardo Aleixo

errata

07/11/2014

Que é do
tempo

que ainda
não vivemos,

ante o qual
é nada

todo o
tempo

que
vivemos?

                                        Ricardo Aleixo