Archive for the ‘Ricardo Aleixo’ Category

cartão postal

06/11/2017

A cidade é velha
E nos olha
                   Com suas pedras
Seus venenos
E seus vermes, suas ladeiras
E santos
Com a redondez (verde
     Ficando azul)
        Dos morros
             E com seu olho
                   Mais duro

— De mármore ou de memória?

                                                          Ricardo Aleixo

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mesmo esta agora, é

05/10/2016

Nunca pude escrever nem uma
única linha sobre as casas onde morei.
Nunca, para você ter uma ideia,
alguma delas amanheceu com
estrondos, fendas inexplicáveis ou um
gato degolado junto às rosas
e à pequena horta.

Eram casas, apenas. Estruturas,
antienigmas, pedras encimando
pedras. Mesmo esta, agora, é
uma mera máquina de signos –
demasiado gastos para que se extraia
dela, na melhor das hipóteses, mais
que uma outra (mera) máquina de
signos gastos.

Ricardo Aleixo

incontáveis linhas

25/04/2016

incontáveis linhas  
como que dispersas  
impensáveis línguas  
como que dos persas  
cruzam-se no infinito:  
ou tornam-se linguagem  
ou deixam o dito  
                por não dito

Ricardo Aleixo

a doença como metonímia

09/02/2015

Trabalhadores da
St. John del Rey Mining
Company, em Nova Lima,

Minas, gabam-se

de sua origem
(“mineiros duas vezes”)
Mas descon-

fiam que viver
é para nada: morrem
cedo, antes de aprenderem,

p.ex., a soletrar pneumoultra

microscopicossilicovulcanoniose
(= silicose, simpli-
ficam os que ficam).

Ricardo Aleixo

errata

07/11/2014

Que é do
tempo

que ainda
não vivemos,

ante o qual
é nada

todo o
tempo

que
vivemos?

                                        Ricardo Aleixo

tempo

03/11/2014

Que é do
tempo

que
vivemos,

ante o qual
é nada

todo o tempo
que ainda

não
vivemos?

                                                 Ricardo Aleixo

rondó da ronda noturna

02/04/2012

q            uanto+
p            obre+
n            egro
q            uanto+
n            egro+
a            lvo
q            uanto+
a            lvo+
m           orto
q            uanto+
m           orto+
u            m

Ricardo Aleixo

noite

11/11/2011

O menino viu sair
da boca da mulher,

talvez sua mãe,
uma voz estrídula

e lábil, que logo
desandou, em

cadência de
sonho, a quê?

– a enumerar
desastres já

ocorridos e por
ocorrer,

a fecundar harpias,
a frisar as marcas

da passagem da
pantera pelo

quarto, a aturdir
relógios, a

enegrecer
o sol, e outras mil

destas
proezas.

Ricardo Aleixo

minha linha

04/10/2010

Que o dono da fala
nunca
permita que eu saia
da linha
a linha que
quanto mais torta
mais posso dizer
que é a minha

Sempre fui
meu próprio mestre
e é sem tristeza
que conto
que ainda não aprendi
nada
não me considero
pronto

Em matéria
tão complexa
quanto a arte
de entortar
a linha
que nem a morte
há de um dia
endireitar

Ricardo Aleixo

cine-olho

05/07/2010

Um
menino
não.
Era
mais
um
felino,
um
Exu
afelinado
chispando
entre
os
carros
um
ponto
riscado
a
laser
na
noite
de
rua
cheia
para
os
lados
do
Mercado.

Ricardo Aleixo