Archive for the ‘Ronald Claver’ Category

lua daquele tempo

24/02/2017

Quando a lua parnasiana e pálida aparece redonda vagalumeando na outra margem do rio meus sonhos são verdes e imaturos. Os seios da moça amada, imaginada, são luas que quartocrescem nos olhos e no desejo. Quando mocinhos e bandidos duelam ao sol, Marilyn Monroe é pecado que mora no lado esquerdo. Quando do outro lado da rua, a lua – atlântica e romântica – ilumina minhas lembranças, Brigitte Bardot, minha namorada nada secreta, escorre em mim, água sempre morna, no banheiro do colégio interno, onde Deus tudo vê, espreita e pune. Quando o topete de Elvis Presley é minha guitarra e não danço o último tango de Brando em Paris e Garrincha entorta o mundo com seu jeito de torto de driblar a vida, a lua é moderna e poluída sem brilho, violão ou janela. É elétrica e dá choque.

Ronald Claver

Anúncios

o amor

25/12/2015

o amor nunca é pouso
cais
é sempre voo
mais

Ronald Claver

a cor da liberdade

20/04/2015

deixar na pele o sol da servidão
é possível
deixar no corpo o frio da solidão
é possível

é possível apagar o banzo que é sinete
no coração
trocar de nomes, idioma, país
é possível

até achar que a lua do senegal
tem a mesma claridade do luar
que penetra sorrateiro e clandestino
nos porões da senzala

tudo é possível

impossível é calar no homem
o vento da liberdade

Ronald Claver

carta para nina

26/04/2013

– onde estiver e como estiver –

Sei, Nina, que agora você anda
assuntando e farejando as ruas
da lua.

Flor e Pretinha te buscam nos quadrantes
do quintal e querem as possíveis estrelas
que agora brilham em seu olhar.

Sabe, Nina, quando falamos poemas no quintal
Festejamos a vida e bebemos a noite
As jabuticabas de seus olhos são sóis negros
Espreitando nossas carências e saudades.

Ronald Claver

a lua

05/04/2013

A lua tem dois lados
O lado que vemos
E o lado que desejamos ver

De um lado tem Jorge
Ogum guerreiro passeando
Num mar de tranqüilidade
Com as botas astronautas

Do outro lado é onde
Reside o mel da sedução
O possível paraíso
O porto inseguro do amor

É lá que você está
E para lá que quero ir.

A lua do espelho

E se de repente eu me perder
Nos ermos de seu corpo
E esquecer que te prometi
A lua?

E se de repente eu quebrar
O espelho e te vir
Transparente e nua?

Ronald Claver

 

nascendo com são francisco

07/05/2010

Ele nunca entendeu como aquela
Aguinha de nada que nascia aqui e ali
Numas mirradas minas e bicas no alto da Serra 
Da Canastra 
Poderia virar um São Francisco.
Como aquela agüinha que cabia em suas mãos
Iria um dia virar mar?
E em Pirapora, São Romão tornar-se imemorial,
Intenso?
É como o amor, pensou.
Começa num desaviso,
Num não querer querendo
Num começar crescendo
Até assumir a sua forma definitiva e corpórea
Aí já estamos imensos
E desaguamos no outro o nosso tanto. 

Ronald Claver