Archive for the ‘Salgado Maranhão’ Category

quem?

26/06/2020

Para que serve esta labuta errônea
do coração ao que jamais se doma?

Quem dá partida à trama do desejo
que se distende ao acaso e ao ensejo

de um domador que dorme com a loucura?
E quem amarra os nós dessa costura

num tecido que o próprio tempo esgarça
como se feito em linhas de fumaça?

Salgado Maranhão

a pelagem da tigra

15/06/2020

São feitas de crisântemos as fibras
desse fogo que se molda à palavra
(e a esse jogo em que o amor se equilibra
como se a vida, então, lhe fosse escrava);
ou, talvez, da pelagem de uma tigra
(que ocultasse um vulcão em sua lava)
para blefar que fica enquanto migra
para fingir que beija quando crava.
Mas isto são hipóteses ou arenga
ao que se queira e não está à venda:
um terçar de lábios na carne brusca.
São só pegadas do que seja a lenda
de algum tesouro que se nos ofusca,
que ao tê-lo não se tenha mais que a busca.

Salgado Maranhão

pó & cia

13/12/2013

de vez em quando
a poesia
         se insinua
para que eu a possua.
 
depois
     arredia
             desaparece
como se habitasse
a outra
           face
da lua.

Salgado Maranhão

o poeta e as coisas

20/05/2013

as coisas querem vazar
o poema
em sua crosta de enredos,

as coisas querem habitar
o poema
para serem brinquedos.

chove nas fibras
de alguma essência secreta
e o poema rasga
                         a arquitetura
do poeta.

Salgado Maranhão

voz

04/03/2013

Minha carne é fibra de argila e sol
verão. Ou docas onde a dor se encuba
secretamente.  Sei que em meu paiol
os andróides de porre dançam rumba.
No entanto flui de mim um girassol
lilás que luz, que jazz, que mais que alumbra,
esculpe as esquadrias do arrebol
dissolve o tempo sobre a minha juba.
Já de júbilo desse pergaminho,
aceito o temporal – redemoinho
de pedras: tanto degrau… tanta esgrima…
e ao ter somente a voz como caminho
agarro a poesia pela crina
e me  arrimo na minha própria rima.

Salgado Maranhão

o azul e as farpas

20/08/2010

Sigo a sangrar, do peito ao vão das unhas,
os dardos do amor: o que há sido e o que há.
Naufragado ao vento de um cais sem mar
o que serei se alia ao que me opunha.
As farpas do desejo – esse tear
das aranhas da dor e sua alcunha
– fazem da luz do dia uma calúnia,
cravam no azul da tarde o zen do azar.
Tento amarrar o tempo e a corda é curta,
tento medir o nada e nada ajusta.
(Meus nervos tocam para os inimigos
que chegam sob o som de uma mazurca.)
 Resta a mó do destino – o desabrigo
– a devolver meu pão de volta ao trigo.

Salgado Maranhão

do raio

19/07/2010

Nem o acre sabor das uvas
nos aplaca.  Nem a chuva
 
nos olhos incendiados
devolve o que é vivido.
 
O magma que nos evapora
tange o rascunho das horas
 
sob um raio de suspense.
Nem o que é nosso nos pertence.

Salgado Maranhão

flor de amido

12/07/2010

Ao desvendar o saco de pipocas desfruto a sensação
de mastigar estrelas. Evoco as explosões em cadeia
sob a tampa da panela (a conversão do azeite em fogo
torna o – já despido – grão em algo que se debulha
em flor). Algo que de intuir-se fervilha a maxila. E
junta-se às ínfimas pepitas de sal a derme do amido.
Tal que os apelos da saliva e sua espessa volúpia
são meros subtextos do vôo do olho ao irresistível.

Salgado Maranhão